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Chegou sorridente à flash interview no final do jogo. Gingão nos passos, gingão fora do relvado como é dentro dele. Emproado, não. Chame-se-lhe antes confiança. A confiança de quem sabia o que havia conseguido fazer pouco antes. Dois golos. Duas assistências. Cada um melhor que o outro, cada uma melhor que a outra.

— É o último Europeu que vai disputar, Quaresma?
— Não sei. Quero é desfrutar e vencê-lo.

Quaresma tem 32 anos — fará 33 em setembro. E dificilmente estará no Europeu de 2020. O futebol de Quaresma exige velocidade de ponta. Exige técnica na ponta das botas. E 36 anos é peso a mais nas pernas. Ele sabe. O camisola “20” de Portugal sorriu no final da resposta. O mesmo sorriso que trouxe à chegada. O sorriso de quem desfrutou. E quer desfrutar mais. Quer, permitam-me dizê-lo na vez dele, partir a loiça toda em França. Quer o seu segundo título Europeu e fechar aí a contagem internacional de canecos.

Segundo? Sim. Quaresma já foi campeão da Europa. Estávamos a 14 de maio de 2000. O estádio era o de Ramat Gan, em Tel Aviv, Israel. Um domingo à tarde. E Quaresma (e Hugo Viana, Raul Meireles, Custódio ou Bruno Vale, todos eles internacionais quando chegaram a graúdos) foi mesmo campeão Europeu de Sub-16, vencendo a Seleção da Republica Checa na final por 1-0. Era a quarta vez que Portugal se sagrava campeão no escalão juvenil. Um escalão que seria substituído pelo de Sub-17 em 2001. Ah, Quaresma foi o melhor jogador (o golo na final foi dele) desse Euro israelita.

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Agora, uma vida (futebolística) mais tarde, já sem Hugo Viana a assisti-lo, a desmarcá-lo como em Israel, quer voltar a vencer. Uma segunda vez. Uma última vez.

Fernando Santos ainda tem dúvidas. Não sabe se vai utilizar Cédric ou Vieirinha à direita da defesa, não sabe se vai utilizar Ricardo Carvalho ou José Fonte ao centro, não sabe se vai utilizar Raphael Guerreiro ou Eliseu à esquerda. No meio-campo parece não as ter: Danilo, João Moutinho, João Mário e André Gomes. Mas no ataque tem. Uma: Quaresma ou Nani. O primeiro está em melhor forma. Já estava antes, e isso viu-se contra a Noruega e a Inglaterra. Hoje, se dúvidas houvesse, dissipou-as. É dele o lugar — e até Nani, que o viu [Quaresma] abrir o livro sentadinho no banco, o sabe.

O primeiro golo do jogo só surgiu aos 36′. Antes, Portugal tentava, tentava, mas insistia em cruzar para a área. Ora cruzava Cédric, ora Raphael Guerreiro. O problema é que Portugal não tem um ponta-de-lança. Sim, tem Ronaldo — e Ronaldo é melhor que muitos pontas-de-lança, não sendo um. Mas quando o capitão recua, quando sai da área, cruze-se o que se cruzar, não está lá ninguém para incomodar (que é como quem diz, fazer o golo) os centrais contrários, o guarda-redes contrário. Mas vamos ao golo. O mérito tem que ser repartido. Entre o camisola “7”, Ronaldo, e o “20”, Quaresma. O extremo foi desmarcado na esquerda por André Gomes tinha e o lateral Teniste a pressioná-lo — mas isso não é um problema quando se tem magia nas botas, certo? Quaresma driblou, cruzou em seguida, de trivela como ela gosta, encontrou Ronaldo à esquerda e este desviou de cabeça. E desviou com a força que muitos não têm com os pés. No ângulo!

Pouco depois, aos 39′, o mundo parou de girar. Durante um minuto, parou. Eis a razão: três minutos antes, do mesmo local, Quaresma cruzou de trivela para o segundo poste, para Ronaldo. O lateral Teniste, espertalhão, não voltou a dar a linha de fundo a Quaresma — não vá ele voltar a cruzar de trivela –, deixando-lhe, isso sim, o centro. E Quaresma foi para o centro. Lá longe, Ronaldo voltava a encaminhar-se para o segundo poste, à espera de novo cruzamento. O guarda-redes Londak topou-o (a Ronaldo) e deu dois passos à frente, prontinho a segurar qualquer cruzamento do “20”. Teve azar. É que Quaresma não cruzou. Rematou. Ao ângulo, fazendo um chapéu ao guarda-redes estónio. Que golo. Que golão!

Acabou por aqui a primeira parte. Não, nem pensar. Não sem antes Ronaldo bisar. O capitão chegou domingo, treinou segunda, terça-feira também, e hoje jogou. 45′ só. Mas chegou para se ver que lesões não há e a frescura é de sobra para França. O golo, o segundo golo de Ronaldo, foi mesmo em cima do intervalo, apitando o árbitro logo a seguir. João Mário e Cristiano Ronaldo entenderam-se. E quando assim é, o resultado só pode ser golo. Mas os estónios foram “passarinhos”. Sobretudo o lateral esquerdo Kallaste e o médio Antonov. Quiseram jogar ao “meinho” com João Mário. E deram-se mal, claro. O médio do Sporting pressionou-os, recuperou a bola, passou-a a Ronaldo, este devolveu-lha de pronto (e com nota artística: de calcanhar), João Mário avançou pelo flanco, cruzou para a área, ligeiramente para trás, e Ronaldo, entregando chegado ao destino pretendido, rematou de primeira. Voltou — tal como no seu golo, tal como no segundo de Quaresma — a acertar com o ângulo. Ou seja: nem com asas Londak lá chegava.

O jogo recomeçou. Mas recomeçou mal. Logo aos 47′, quase, quase que Patrício borrava a pintura. Nikita Baranov bateu um livre à esquerda, muito longe da área — mas foi mesmo lá, na área, que colocou a bola. A redondinha ia na direção do guarda-redes português, mas este escolheu socá-la ao invés de a agarrar. Socou, mas socou contra Aleksandr Dmitrijev. Em cheio na cara de Dmitrijev. Sorte ou não, a verdade é o que o ressalto acabou na canhota de Sander Puri dentro da área, o avançado estónio rematou de pronto, mas acertou com estrondo na barra. Aqui sim, foi sorte. Ou aselhice. Primeiro de Patrício, depois de Puri. Vá lá que não deu em golo estónio.

Goleada, um 3-0 já é. Mas, na Luz, sabia a pouco, cheirava a mais. E mais vieram. Aos 55′, foi Danilo, na área e de cabeça, a aumentar os números à goleada. Adivinhe lá quem foi à direita marcar o canto? Quaresma, pois claro. Quando o cruzamento é bom, tenso, ao primeiro poste, os defesas e os guarda-redes veem-se gregos para cortar a bola. Mas isso só não chega. É preciso alguém fazer-se ao cruzamento e cabecear. Fê-lo Danilo. Saltou mais alto que os centrais da Estónia, Ragnar Klavan e Karol Mets, cabeceou como as regras dizem que se deve cabecear, de cima para baixo, e não deu hipóteses de defesa a Pavel Londak. O pobre guarda-redes estónio só fez uma defesa esta noite — um remate de Ronaldo, frontal, aos 32′. Quando tocava na bola, era para ir buscá-la ao fundo da baliza.

Quaresma ficou-se por aqui? Não, nem pensar. Portugueses já ele tinha assistido. Faltava “assistir” um estónio. O azarado no 5-0, aos 60′, foi Karol Mets. Quaresma (como adjetivá-lo até aqui? Talvez monstruoso; e mesmo assim é redutor) cruzou tenso desde a direita, Éder fez-se à bola juntamente com o central Ragnar Klavan — mas nenhum chegou à bola –, Pavel Londak saiu a punhos da baliza, mas acertou em cheio em Mets. Era a mão-cheia de golos.

Duas assistências — três se se contar com esta última, a meias com Londak –, um golo. O melhor é equilibrar a balança, não é? O “pulmão” de Renato Sanches fez meio golo. O outro “meio” foi do homem da noite: Quaresma. O médio benfiquista (ou melhor: do Bayern; é a força do hábito) recuperou a bola a meio-campo, mesmo no centro do meio-campo, e desatou a correr em direção à área. Correu, correu, correu que se desalmou — e fartou-se de levar encontrões dos estónios. Nunca caiu, mas também não havia maneira de passar a bola a ninguém — e tinha Nani à esquerda e Quaresma à direita –, até que, por fim, no último instante, desmarcou (77′) Quaresma na área. E Quaresma rematou. De primeira. Um remate rentinho à relva, rentinho ao poste. E golo. Um golo histórico: é a primeira vez que Quaresma bisa num jogo da Seleção — e já lá vão meia centena deles.

Vamos lá acabar com isto, que se faz tarde e amanhã há que embarcar para França. O Portugal-Islândia é já dia 14, em Saint-Étienne, pela hora de jantar. Mas não se embarque sem antes Éder molhar a sopa. André Gomes, vindo da direita, percorreu a área (por fora) até centro e, aí chegado, desmarcou Éder, nas costas do central Karol Mets. Éder dominou a bola (um tanto atabalhoadamente, a meias entre o pé direito e o peito), rematou de seguida e fez o 7-0 aos 80′. S-e-t-e. É muito.

Se Fernando Santos podia pedir melhor? Não. Quer dizer, mais o menos. “Golear é bom. Mas podiam ser dez golos em vez de sete”, gracejou o selecionador no final do encontro com a Estónia. Gracejou primeiro, mas depois fez cara séria: “A Estónia não é como nenhum dos nossos adversários no Euro. Por isso, calminha, muita calminha”. É isso: calminha. Mas só não trazem o caneco nas calmas se não quiserem. Quaresma quer. Muito.