Dois mil e vinte e dois foi o ano de mudança no Chelsea. 2026 volta a ser um ano de mudança no Chelsea. Há pouco mais de quatro anos, o clube do oeste de Londres viu-se afetado pela invasão russa à Ucrânia quando nada o fazia prever. Com o escalar do conflito no leste da Europa, as sanções à Rússia tornaram-se inevitáveis e o futebol não escapou à regra, o que obrigou o empresário russo – com nacionalidade portuguesa – Roman Abramovich a deixar a liderança dos blues. Foi nessa altura que Todd Boehly decidiu entrar no mundo do futebol, começando pelo melhor campeonato do planeta. Juntamente com Mark Walter e o Clearlake Capital, o empresário norte-americano adquiriu a participação de Abramovich por quase três mil milhões de euros, tornando-se presidente do Chelsea em maio de 2022.

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Contudo, esta quarta-feira voltou a ser de mudança no seio do universo londrino, com o clube a anunciar que o Clearlake Capital adquiriu as participações de Boehly e Walter, que deixaram a liderança do Chelsea. “O Chelsea Football Club anuncia que empresas associadas ao Clearlake Capital Group, L.P. vão adquirir a participação detida por Todd Boehly. No âmbito desta mudança, o Clearlake irá também adquirir a participação detida por Mark Walter e assumirá assim o controlo total do clube“, divulgou o clube em comunicado, garantindo que “Hansjörg Wyss vai continuar a ser um importante acionista e sócio do grupo de proprietários”. Até esta quarta-feira, a sociedade de capital de investimentos detinha 61,5% das ações dos blues, ao passo que os empresários tinham 25,6%.

O negócio afeta, igualmente, o Estrasburgo, que também é detido por um consórcio de Boehly, Walter, o Clearlake e Wyss, a BlueCo, sendo um dos exemplos de multipropriedade no futebol europeu. Com as mudanças agora anunciadas, o Clearlake também vai passar a deter “o controlo total do capital” dos franceses. Ao todo, Todd Boehly e Mark Walter deverão receber cerca de 1.100 milhões de euros em numerário pela venda da sua participação, com o Chelsea a ficar avaliado em cerca de 5.000 milhões de euros, incluindo a dívida, de acordo com o Financial Times. A mesma fonte relata que esta venda se deve a diversos fatores, mas o principal é a necessidade de liquidez dos vendedores, que precisam de aliviar a pressão sobre outros negócios.

Foi uma honra desempenhar as funções de presidente do Chelsea. Gostaria de agradecer a todos aqueles que ajudaram a garantir um futuro brilhante para o clube, incluindo a Premier League, os treinadores e os jogadores, a talentosa equipa da direção e os colaboradores do Chelsea, bem como os adeptos dedicados. Valorizei a minha parceria com o Clearlake e com todo o grupo de proprietários, bem como as decisões coletivas e os investimentos que realizámos para apoiar o sucesso imediato e a longo prazo do clube. Estou confiante de que o Chelsea está bem posicionado para continuar a ter sucesso sob a liderança do Clearlake”, disse Boehly.

Nos últimos dois anos ganhou eco na imprensa inglesa a alegada fricção entre o empresário e Behdad Eghbali, cofundador e sócio-gerente do Clearlake, que agora vai ficar responsável pelo controlo total do Chelsea. Na origem dos desentendimentos estariam os resultados dececionantes dos blues desde 2022, mesmo depois do forte investimento que foi feito desde então. No mês passado, Walter viu as suas seguradoras serem alvo de uma investigação federal por suspeitas de fraude fiscal, que terão tido origem em empréstimos opacos concedidos a entidades com as quais se relaciona, o que o levou a vender a participação que tinha nos Los Angeles Lakers (85%), por cerca de 10,9 mil milhões de euros. Esta venda foi feita a Bob Iger e Jared Kushner, genro de Donald Trump.

Apesar de ter sido o rosto principal do projeto, Boehly começou a mostrar-se insatisfeito com a sua posição nos últimos tempos, apesar de nunca ter expressado esse descontentamento. Para lá dos resultados, as violações das regras de fair-play financeiro, que ainda afetam o Chelsea, não caíram bem junto do Clearlake, que mostrou a intenção de aumentar a sua participação nos clubes. Para colmatar os problemas financeiros, os blues viram-se obrigados a vender hotéis, a fazer um acordo com a UEFA e a integrar a equipa feminina, ao mesmo tempo que o Clearlake tentava impor a sua visão, divergente daquela que vigorava com Boehly e Walter. Outro dos problemas deveu-se à reformulação de Stamford Bridge e do centro de treinos do clube, com nenhuma das partes a chegar a um acordo relativamente à renovação do estádio ou à construção de uma nova infraestrutura que consiga rentabilizar melhor as receitas de jogo.

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Na edição desta quinta-feira, o The Telegraph apresenta alguns dos momentos mais marcantes da era de Boehly no Chelsea, a começar pelas contratações feitas pelo empresário, que nunca tinha tido experiência na área. Foi com o norte-americano que os blues contrataram dezenas de jogadores jovens com contratos de longa duração, lista em que se incluem os nomes de Dário Essugo e Geovany Quenda. Ao mesmo tempo que estas contratações eram feitas em grande número, a equipa principal continuava com as maiores necessidades por resolver. Só no primeiro ano do projeto, os londrinos gastaram mais de 1.000 milhões de euros em contratações, terminando a época no 12.º lugar. A chegada dos empresários ao futebol inglês trouxe, também, uma ideia de americanização da Premier League, com Boehly a sugerir a criação de um evento anual que consistia na realização de um jogo entre as equipas do norte e do sul, uma espécie de All-Star Game da NBA. A ideia prometia angariar dinheiro para os clubes que precisam desse apoio, em especial da Football League, mas foi bastante criticada.

Na temporada 2022/23, o Chelsea chegou aos quartos da Liga dos Campeões, onde viria a encontrar o Real Madrid. Antes da primeira mão, realizada no Santiago Bernabéu, Boehly apostou num resultado bastante favorável à sua equipa (3-0), mas acabou por perder as duas mãos pelo mesmo resultado (2-0). Segundo os jogadores, Todd Boehly deslocava-se ao balneário em todos os jogos para conversar com os jogadores, algo que também não era bem visto junto da opinião pública. Em 2024, o clube chegou a disputar uma final, da Taça da Liga inglesa, mas caiu em Wembley frente a um Liverpool composto maioritariamente por jovens jogadores. No final, Gary Neville apelidou o Chelsea de “clube inútil, que não vale nada”.

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Um dos episódios mais inusitados aconteceu com Ruud Gullit, histórico médio neerlandês que representou o Chelsea como jogador e treinador. Num podcast, o antigo jogador contou o momento em que conheceu Todd Boehly. “Apresentei-me: ‘Olá, sou o Ruud Gullit’. O Todd perguntou: ‘O que fazes?’. Respondi: ‘Bem, joguei futebol e também joguei e treinei o Chelsea’. O Todd disse: ‘Ah, sim, quando é que jogaste no Chelsea? O que fizeste no Chelsea?’ Ele não sabia”, detalhou.