Não se esperava outra coisa. O PS promoveu um debate no Parlamento sobre “economia e empresas” — que começou ele próprio tímido (não terminando muito mais expansivo) — e foi uma questão de tempo até alguém aproveitar a deixa largada por António Costa no Congresso do PS há duas semanas. Nessa altura, o líder socialista e primeiro-ministro descreveu como “tímido” e “discreto” o seu ministro da Economia, o mesmo Miguel Caldeira Cabral que esta sexta-feira teve de ouvir no Parlamento Luís Pedro Mota Soares, do CDS, recorrer ao dicionário para ler ali, alto e bom som, uma extensa lista dos sinónimos de tímido.

“Acanhado, amedrontado, apoucado, assustadiço, atadinho, envergonhado, espantadiço, fraco, frouxo” ou ainda “incerto medroso, mijote, mole, recatado, receoso, retraído”. Mota Soares garantia não ser ele “nem ninguém da bancada do CDS que lhe chamou isto, foi o seu amigo que o convidou para ir ao para o Governo que o descreveu desta forma. E eu que nem costumo concordar com ele, reconheço alguma razão porque sempre que há uma notícia da economia portuguesa ela é frouxa e tímida”.

E as palavras de António Costa acabaram por servir a toda a oposição, com o PSD a aproveitar para sublinhar “a falta de peso político” do mesmo ministro que “perante dados negativos que se avolumam todos os dias” age “por omissão”, a “falta de energia” e de “ânimo da economia”. É “meter a cabeça na areia”, sintetizou o social-democrata Luís Campos Ferreira, com a bancada do PSD a repetir a expressão em uníssono como se de oração dos fiéis se tratasse.

Costa acabou por colocar Caldeira Cabral na linha de fogo da oposição, num debate marcado pelo PS, nesta primeira aparição parlamentar pós-Congresso do PS onde lançou aquele reparo ao seu ministro. Mas Manuel Caldeira Cabral recusa a “alegada timidez” e respondeu ao primeiro atirador no Parlamento, Mota Soares: “Se tivesse dado atenção ao primeiro-ministro tinha ouvido com atenção que esse foi um elogio às políticas do Ministério da Economia. Sendo políticas ousadas e fortes, algumas delas que há muito o país e as empresas reivindicavam, estávamos a ser demasiado tímidos e discretos na sua divulgação e propaganda. Eu tenho estado mais empenhado em trabalhar“.

De seguida o ministro elencou medidas do Governo, com especial foco no fundo da recapitalização para as empresas, para justificar que para ele “discreto não é insulto e tímido também não. É simplesmente uma característica que não tenho. Prefiro ter políticas ousadas do que políticas tímidas de apoio às empresas”.

O debate seguiu com troca de acusações entre as bancadas parlamentares do PS e da direita (a esquerda à esquerda do PS limitava-se a perguntas ao ministro) sobre o crescimento económico registado, o nível de investimento, se são ou não satisfatórios e com a direita a atirar ao ministro os números das exportações. “Está de frente para o partido, que em conjunto com o CDS no Governo, conseguiu passar as exportações de 29% para 40% do PIB, numa situação de grave crise”, rejeitando a justificação do ministro da crise internacional. “A China está a vender mais a Angola do que a Portugal. Não me venha com a crise internacional”, atirava Paulo Neves do PSD com um país destino das exportações nacionais. “Portugal é que está em contraciclo”. Mas Caldeira Cabral contrapunha: “Portugal teve um bom crescimento das exportações na última década, mas os quatro anos em que mais cresceu foram 2006 e 2007, 2010 e 2011. Não foi em nenhum dos anos do anterior Governo, embora tenha havido crescimento no tempo desse Govenro, como vai haver neste Governo”, garantiu.

Fundos pagos até ao fim de junho

No CDS, Mota Soares tinha atirado sobre os fundos comunitários e a promessa do Governo de “cem milhões [para as empresas] em cem dias”, acusando as “Finanças de estarem a reter” o dinheiro, “os cem milhões ainda não chegaram às empresas”. “São cem dias sem os milhões do QREN, sem investimento, sem crescimento e sem economia”, argumentou o deputado. Hugo Costa, do PSD, juntou-se para criticar a “velocidade caracoleta” da distribuição de fundos por um Governo “que tinha responsabilidade de avançar com o PT 2020 em janeiro de 2014 e em dezembro apenas um restaurante tinha recebido fundos”.

Na resposta o ministro garantia que os “pagamentos vão estar concluídos até ao final deste mês. Temos aumentado e mantendo bom ritmo de pagamentos, Se isto é andar a passo de caracol, fazer mais em seis meses do que no último ano e meio, então não sei que lesma é que existia neste sector“. E também respondeu as social-democrata Carlos Silva, PSD, quando este quis saber “não sobre os adiantamentos às empresas, mas a despesa validade, realizada e certificada pelas empresas. Adiantam dinheiro, mas quais as garantias que as empresas dão ao Estado sobre o adiantamento que receberam?” Foi durante esta resposta que Caldeira Cabral se mostoru mais duro face às acusações que lhe chegavam acusando o PSD de ser “contra os adiantamentos às empresas. Acham que têm boa tesouraria?“, questionou. “Sim, adiantámos dinheiro às empresas, porque depois destes anos elas não estão com folga de tesouraria”.