Portugal está nas meias-finais do Europeu e o país exulta, somos os maiores de vez em quando. Ninguém se compara ao Ronaldo. E ninguém é melhor que o Renato (à exceção do Ronaldo). Passamos o dia a contar as horas, os minutos, a controlar a ansiedade para ouvir o apito inicial, abrir uma cerveja, vibrar. Vamos para cima deles!

Stop! É uma ilusão. Luzes de alerta. Acorde por favor. Abra bem esses olhos: se temos sucesso no futebol, corremos o risco de passar por uma crise política. Tem dúvidas? Pelo menos o debate do Estado da Nação, que se realiza na quinta-feira, passará quase despercebido nestes dias em que a nação é um estádio.

Vamos voltar atrás 12 anos. Portugal estava nas meias-finais do Europeu 2004, jogado em casa, naqueles estádios caríssimos (que ainda estavam cheios). Havia uma febre nacional. Bandeiras nas janelas, bandeiras por todo o lado, Scolari era portuguesíssimo, assim como a gravata verde e vermelha (horrível) que o primeiro-ministro, José Manuel Durão Barroso, levava aos jogos. Havia outra febre, nos corredores do poder, ou melhor, nas bancadas VIP dos estádios em que a seleção nacional jogava. Às 20h30 do dia 16 de junho, quando Portugal ganhava à Rússia por 1-0, depois de um magnífico golo de Maniche, Durão Barroso preparava-se para mudar de campeonato e subir de divisão. Durante esse jogo, conta um próximo do antigo primeiro-ministro, Barroso revelou a Jorge Sampaio que havia uma forte possibilidade de ser indicado para presidente da Comissão Europeia. O jogo político estava a mudar. Dois a zero para Portugal, golo de Rui Costa no último minuto frente aos russos.

Noutra partida de futebol do mesmo torneio, Durão Barroso ouviria Peter Balkenende, então primeiro-ministro holandês, a comunicar-lhe todo o apoio para avançar. A seleção nacional galgava eliminatórias como aquela gloriosa vitória sobre a Inglaterra nos penáltis no dia 24 de junho, enquanto Barroso subia na bolsa de apostas em Bruxelas. No dia 29 do mesmo mês, exatamente na véspera da meia-final com a Holanda, Barroso anunciava ao país que ia presidir à Comissão Europeia. No dia da final com a Grécia o nome de Pedro Santana Lopes já estava em cima da mesa para lhe suceder como primeiro-ministro.

O futebol foi a camuflagem perfeita, mesmo que involuntária. Portugal perdeu 1-0 com os gregos, na finalíssima disputada no Estádio da Luz. Ronaldo, com 19 anos, chorou. Mas o campeão europeu na frente política foi Durão Barroso, que se mudou para Bruxelas e deixou em casa um Governo armadilhado ao retardador: rebentaria poucos meses depois.

Esta quarta-feira disputa-se mais uma meia-final europeia com Portugal lá dentro. Cristiano Ronaldo e Ricardo Carvalho são os únicos jogadores que estiveram na equipa de 2004. Até Durão Barroso já se retirou do campeonato europeu. Desta vez, a crise política não se deve a um português ir mandar na Europa – uma expressão que é um manifesto exagero – mas trata-se de ter a Europa a mandar imenso em Portugal (e aqui não há exagero nenhum).

Em 2016, na véspera da meia-final disputada entre Portugal e o País de Gales, o facto político a desassossegar a concentração futebolística dos portugueses deve-se ao colégio de comissários europeus, que se reuniu e comunicou que em breve ia tomar uma decisão quanto a eventuais sanções contra Portugal. Tirando a imensa alegria futebolística, o que têm as meias-finais de 2004 e de 2016 em comum? Em ambos os casos, com a dinâmica política em curso, havia um risco de o Governo cair na sequência das decisões tomadas. E se nas vésperas de uma meia-final europeia a Europa resolve “apertar” Portugal num contexto como o atual, podemos temer o pior, mesmo que o pior não se concretize. As decisões só serão conhecidas mais lá para diante, quando Portugal for campeão europeu ou um digno derrotado.

Visto assim, quando há bola é preciso desconfiar do poder político. Por exemplo, em junho de 2014, enquanto se desenrolava o Mundial no Brasil — em que Portugal foi eliminado na fase de grupos, uma catástrofe nacional — a Associação Nacional de Sargentos chegou a acusar o Governo do PSD de, “a coberto da distração dos cidadãos com o Campeonato do Mundo”, dar “uma golpada” com uma nova tabela de pagamentos que reduzia os salários dos militares. É uma alegação habitual quando decorrem grandes competições. Ainda na semana passada o deputado Carlos Abreu Amorim, do PSD, sugeriu que Ferro Rodrigues (PS) tinha recusado um pedido de auditoria externa à Caixa Geral de Depósitos na véspera do Portugal-Polónia, como camuflagem para uma medida polémica: “Não foi por acaso que esta decisão foi anunciada pouco antes de um momento alto para o futebol nacional. Esta decisão tem todos os ingredientes de ser insidiosa para a democracia portuguesa”, afirmou.

Mário Centeno, ministro das Finanças, também deu uma conferência de imprensa no ministério uma hora antes do Portugal-Hungria, sobre a Caixa Geral de Depósitos, onde se recusou a falar dos valores da recapitalização.

O memorando no intervalo da Champions

Há um passado histórico de futebol emparelhado com política, quando estavam em causa momentos graves para o país. No dia do anúncio das medidas assinadas com a troika, o que é que se interpôs entre os portugueses e o poder? A bola. Nesse 3 de maio de 2011, José Sócrates fez uma comunicação ao país, a partir de São Bento, a dar conta do conteúdo do memorando de austeridade num momento chave: no intervalo das meias-finais — lá estão as meias-finais — da Champions League entre o Barcelona e o Real Madrid. Os assessores tiveram de convencer o primeiro-ministro a ir para o ar quando Messi e Ronaldo recolhessem ao balneário, ou então a audiência seria fraquíssima.

Sócrates era um mestre nas lides mediáticas, mas a prática não é exclusiva: em Espanha, durante o Euro 2008, o socialista José Luís Zapatero anunciou um pacote de austeridade no mesmo dia em que a seleção espanhola venceu a meia-final por 3-0 à Rússia.

Também não é a única comunicação que mistura troika e um jogo importante. Cerca de ano e meio depois da intervenção de Sócrates, a 7 de setembro de 2012, Pedro Passos Coelho anunciou a medida mais polémica do seu Governo — o aumento da TSU para os trabalhadores e a diminuição da taxa para as empresas –, meia hora antes do primeiro jogo de qualificação para o Mundial do Brasil. Portugal ganhou 2-1 ao Luxemburgo, mas a frente política deu crise. What else? Com uma enorme contestação social e a coligação com o CDS a tremer, Passos acabou derrotado, a recuar e a impor aos portugueses um enorme aumento de impostos. Quanto à hora da comunicação, mais uma vez, tinha sido coincidência. Estava em causa o fecho da quinta avaliação da troika e a declaração, que poderia ter sido às 20h, foi antecipada para as 19h15, por causa do jogo.

O Mundial de 2006 na Alemanha, ofereceu outra camuflagem perfeita para outra crise governamental. Na véspera do jogo dos quartos-de-final entre Portugal e a Inglaterra, Freitas do Amaral demitiu-se de ministro dos Negócios Estrangeiros, alegando motivos de saúde. Dois dias antes das meias-finais com a França, Luís Amado tomou posse como MNE e Severiano Teixeira como ministro da Defesa (para o lugar de Amado).

A boleia do futebol compensa?

Há assessores governamentais que hoje têm uma visão diferente. Se por um lado, com o futebol, há menos espaço para as notícias e as pessoas têm a cabeça ocupada com dribles e jogadas, também é certo que as televisões asseguram melhores audiências nos telejornais colados aos jogos e que no dia seguinte os jornais vendem mais. Também pode ser um ganho ir à boleia da bola. No caso de António Costa, o futebol condiciona a agenda porque o primeiro-ministro gosta de ver os jogos, mas não deixa de marcar eventos.

Quando foi assistir ao Portugal-Polónia, em Marselha, assinou nessa manhã, em Portugal, um protocolo com a empresa alemã Continental-Mabor. Deitou-se às quatro da manhã e no dia seguinte manteve a agenda normal. Assistiu a outro jogo na residência em São Bento com Carlos César e Ana Catarina Mendes, porque logo a seguir tinha uma reunião no Largo do Rato. Esta quarta-feira tem um evento com 600 empresários em Aveiro, numa iniciativa para explicar como o investimento pode acelerar com os fundos europeus.

Pedro Passos Coelho tem optado por ver os jogos em público ou num convívio aberto à comunicação social. No primeiro jogo do Europeu, com a Islândia, assistiu à partida na sede do PSD, com dirigentes do partido, funcionários e jornalistas. Era o único que não tinha cachecol. Passos não quer parecer alheio à realidade e à movimentação social do país. Noutros dias, em que teve agenda, como visitas a feiras, acabou a ver os jogos no meio do povo, como aconteceu em Esmoriz. Esta quarta-feira, Passos verá o Portugal-País de Gales no Estoril, na sequência da visita a uma feira.

E se Portugal passar à final, avizinha-se mais uma crise? Tudo depende da Europa, Nenhum resultado terá a ver com o futebol. São coincidências do calendário que por vezes os políticos usam para potenciar iniciativas ou camuflar decisões negativas. Mas se o resultado for favorável a Portugal, com a perspetiva de ir à final no domingo, o debate do Estado da Nação que se realiza na quinta-feira terá um tempo de vida muito curto. A política só será retomada no dia 12, terça-feira, quando houver a reunião do Ecofin que vai debater as sanções a Portugal. Até lá, a nação vai ser um estádio.