Se na passada quinta-feira o Super Bock Super Rock ficou marcado pelos atrasos no começo dos espetáculos (Samuel Úria subiu ao palco quase uma hora mais tarde), este segundo dia arrancou com o relógio adiantado: Petite Noir, por exemplo, começou quase 10 minutos antes da hora — e não foi o único. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, nisto dos festivais com horários apertados entre palcos, 10 minutos é muito tempo para um fã.

Deixando de lado o detalhe, foi mais uma tarde e noite excelentes (26ºC às 3 da manhã), ambiente sem atropelos para acolher mais um bom dia de música. Iggy Pop era o senhor designado para o horário de honra do palco principal, mas foram os Massive Attack a banda que conseguiu encher o MEO Arena. Os detalhes do que vimos e ouvimos esta sexta-feira estão arquivados no nosso liveblog (música, ambiente, entrevistas), mas escolhemos olhar também para outras atuações com mais pormenor.

Iggy Pop

Chegou, cantou e fez abanar a MEO Arena. Iggy Pop, o mítico vocalista dos The Stooges, fez o que quis com o público que vibrou do primeiro ao último minuto. Apesar das muitas rugas que mostra sem pudor, apresentou-se como sempre o conhecemos, em tronco nu. Cocheia (Iggy Pop tem a perna esquerda mais curta que a direita), mas não pára para pensar nisso. Dá à anca, corre de um lado para o outro, muita energia para os 69 anos que tem inscritos na pele.

O público reagia num misto de admiração e inveja. As mazelas físicas do tempo que passou “numa banda impossível, a viver uma vida impossível”, como contou em 2007 à Rolling Stone, fazem parte da sua história. Luxúria de viver não lhe falta e provou-o mais uma vez com “Lust for Life”, a canção que escreveu a quatro mãos com David Bowie. O hino de mais do que uma geração (o filme “Trainspotting”, lembram-se?) trouxe um pico de adrenalina o concerto ainda ia no primeiro terço.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

A loucura chegou pouco depois, com “Real Wild Child” e quando James Newell Osterberg Jr. (o seu nome de batismo) desceu ao fosso para cumprimentar os fãs. O músico continua a ser um verdadeiro animal de palco, “um dos grandes, como ele só Mick Jagger”, comentava um espetador maravilhado à saída do espetáculo.

Momentos antes, a audiência fez questão de se despedir com muitos aplausos e muitos gritos a pedir “jump, jump”! Iggy não chegou a saltar para os braços do público. Nem precisou. Tudo o que tinha para dar — e foi muito — deu em cima do palco. [EAR]

Este concerto fez-se de grandes êxitos, mas não só. Arrancou em grande com “No Fun” e de seguida “I wanna be your dog”, temas de The Stooges. O salto para a carreira a solo veio logo a seguir com “The Passenger” e “Lust for Life”, daquele que é, provavelmente, o melhor álbum da carreira de Osterberg — Lust for Life.

Post Pop Depression, lançado em março, apareceu já tarde no alinhamento com “Sunday”, a quinta canção do álbum produzido por Josh Homme, dos Queens of The Stone Age. Os novos temas são desacelerados, mas não perderam a carga Rock and Roll. Iggy já confessou que este pode muito bem a vir a ser o último álbum, mas se o concerto de hoje for indicativo, o cantor tem ainda muito para dar a um público ávido por mais.

O regresso aos clássicos veio mais tarde, com “Real Wild Child”, “1969” e “Search and Destroy”, temas que tocou com os The Stooges. Ficaram por tocar tantas outras grandes canções, num concerto onde não faltou nada. [ILD]

sbsr 2016, iggy pop

Massive Attack & Young Fathers

Passavam cinco minutos da meia-noite quando Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall entraram em cena. Aos artistas precedeu-se um momento de escuridão, que nunca chegou a abandonar completamente o palco. “United Snakes”, canção do álbum Heligoland (2010) abriu as hostilidades. Seguiu-se “Risingson”, um dos grandes temas da obra-prima Mezzanine (1998).

O trip-hop hipnótico de Massive Attack pede, geralmente, para ser ouvido de olhos fechados e com um balanço de corpo mais ou menos frenético, de acordo com a intensidade da música, e a escuridão do espaço assim proporcionou. Mas os efeitos visuais que acompanharam a(s) banda(s), não deixavam tirar os olhos do palco. E ainda bem, porque um espetáculo destes tem que ser visto.

Muitas das canções levaram uma nova roupagem e muito do que era mansidão ganhou pujança, e isso merecia ser testemunhado.

A acrescer à força da orquestração, estavam também os efeitos visuais, que foram evoluindo ao longo do concerto. Se no início levaram-nos numa viagem, chegando mesmo a imitar um painel de aeroporto, aos poucos foram nos puxando até assentarmos os pés na terra. “He Needs Me”, interpretado pelos Young Fathers, foi “dedicado às vítimas do trágico e incompreensível ataque em Nice”.

Seguiu-se o (gigante) tema “Inertia Creeps” que teve como pano de fundo notícias da atualidade. Os títulos (em português) que iam surgindo davam conta do Brexit, o ataque terrorista em Nice, sanções e os novos campeões da Europa e ia descarrilando para outros temas como as Kardashian ou Luciana Abreu. “Take It There”, fruto da colaboração entre as duas bandas, foi mote para relembrar os vários atentados recentes.

O concerto andou a saltitar entre temas dos Massive Attack e a colaboração com os escoceses Young Fathers. O projeto que une os dois grupos já era conhecido através do EP Ritual Spirits, lançado em janeiro. Os Young Fathers chegaram mesmo a tomar as rédeas do concerto e a tocar dois temas próprios, “Old Rock and Roll” e “Shame”.

As oscilações entre o trip hop de Massive Attack, o pop de Young Fathers e a fusão entre os dois criaram um concerto pouco coeso, com momentos avassaladores e outros que nem tanto.

O projeto que junta as duas bandas parecia promissor, mas acabou por ser esmagado ao ser apresentado ao lado da máquina bem oleada que são os Massive Attack. É, se calhar, ainda cedo demais para um espetáculo que junta registos tão diferentes, quando o público ainda não teve tempo para digerir bem a novidade.

Ainda assim, foi um grande espetáculo, ou não estivessem em palco os Massive Attack, que foram chamados novamente ao palco para encore e brindaram o público com “Unfinished Sympathy”, com a voz de Deborah Miller a fazer a vez de Shara Nelson. [ILD]

Capitão Fausto

“Boa noite, nós somos os Iggy Pop!”. Com um arranque destes não era difícil adivinhar o que se seguia. Tomás Wallenstein tem o à vontade para gozar com tudo e mais alguma coisa, mas nunca se esquece do poder das canções. Respeitou o muito público que roubou ao cabeça de cartaz (Iggy Pop) e passou uma hora a desfilar os principais sucessos da banda, com destaque para sete das oito novas canções de Capitão Fausto Têm Os Dias Contados (só faltou “Alvalade Chama por Mim”) – às quais acrescentaram os temas fortes dos anteriores Gazela e Pesar o Sol.

A magnífica plateia do Palco Antena 3 esteve completamente cheia, com direito a braços no ar, letras sabidas de cor, gente ao gritos e muito moche. Sim, pessoas que encontram na pop dos Capitão Fausto a energia que falta a muitos espetáculos de rock “duro”, chamemos-lhe assim.

Tomás Wallenstein não foi sempre uma voz afinada mas, apesar de terem menos espaço, a banda pareceu estar mais à vontade, comparativamente com o espetáculo a que assistimos no último Rock In Rio – talvez por terem muito mais gente a assistir, com mais e melhor retorno.

Fecharam a hora com o orelhudo “Amanhã Tou Melhor”, um título (não uma letra) que projeta uma mensagem particularmente atual. É só mais um detalhe que reforça o hype Capitão Fausto. Está para durar, ainda há muitos dias para contar. [PE]

sbsr 2016, capitão fausto

Mac DeMarco

Pode um tipo com uma baliza nos dentes, pose de adolescente despreocupado (e mal-comportado) e atitude infantil de “estou-me-a-marimbar-para-o-que-possam-dizer-de-mim” chegar a um festival com a dimensão do Super Bock Super Rock e ser um dos nomes mais aguardados pelo público? Pode. E Mac DeMarco comprovou-o esta noite, no palco EDP.

Na assistência tinha um público muito jovem (a contrastar com o que se via, por exemplo, entre os espectadores do concerto de Iggy Pop) — e não raras vezes vimos miúdos abaixo dos 17/18 anos a dançar e a cantar as suas músicas com valente paixão. Foi bonito de ver, goste-se mais ou menos das suas piadas pueris (a dada altura, seguramente durante mais de 15 ou 20 segundos, decidiu entreter-se a trocar gargalhadas engraçadas com os quatro músicos que trouxe consigo). Mas isso faz parte do “jogo” e, não surpreendentemente, o público pareceu achar piada a um “freak” que desafia as convenções e as regras de normalidade.

No palco, Mac DeMarco e a sua banda foram despachando com boa onda e alegria o jangly-rock brincalhão que lhe ouvimos em disco, em temas como “Cooking up something good”, “Ode to viceroy”, “My kind of woman”, “Freaking out the neighboorhood” e a psicadélica (se o psicadelismo também incluir as canções foleiras espaciais — em bom) “Chamber of reflection”. Num dos temas, houve um descontrolo (talvez ensaiado, talvez uma “jam” do momento) que soube muito bem: os músicos em febre rock and roll, a guitarra de Mac DeMarco a disparar riffs demoníacos sem cessar e um “combo” rock dos cinco que ali estavam em palco. O público gostou: e correspondeu ao show do “freak star” (ou estrela dos freaks) que Mac DeMarco já é. [GC]

sbsr 2016, mac demarco

Glockenwise

O palco Antena 3 do Super Bock Super Rock tem mostrado que a música portuguesa está de boa saúde. “Há uns anos andávamos muito sozinhos. Agora já temos amigos”, disse esta noite o vocalista dos Glockenwise, Nuno Rodrigues, que falou ainda do emergir de uma “pequena comunidade” musical no país.

A banda de Barcelos chegou ao palco Antena 3 por volta das 20h55 e na plateia teve algum público para os ver — entre eles, muitos “amigos” e “miúdos” que estão a começar a fazer música, a quem Nuno Rodrigues deixou um conselho: “Façam muito barulho”.

Estas palavras sublinham a identidade da banda, que não tem medo de a assumir: “Somos os Glockenwise, uma banda de garage-rock de Barcelos”. É esse o caldeirão sonoro que eles cozinham ao vivo: um rock meio punk meio garage, com um vigor muito próprio da juventude. Ao público destinaram outro conselho: “Este festival tem rock no nome. Podem fazer o que quiserem”. Um belo mote para o moche que de seguida rebentou na assistência.

Ao festival, os Glockenwise trouxeram canções abrasivas, tocadas com o volume no máximo, entre as mais diretas e efusivas dos seus primeiros trabalhos e os temas rock mais “cheios” e apurados que integram Heat, álbum que editaram em 2015. Seguiram-se, no mesmo palco, os também “amigos” Capitão Fausto, que estavam bem representados na plateia (vimos Tomás Wallenstein, o vocalista, e Domingos Coimbra, o baixista, entre o público). A banda pediu-lhes desculpa por não planear ver o seu concerto. Afinal, no MEO Arena tocava Iggy Pop à mesma hora. E todos sabemos o quanto os Glockenwise gostam de rock sem travões e com cheiro a gasolina. [GC]

Moullinex

Às vezes não é preciso muito para conquistar uma pessoa. Nem uma plateia, como demonstrou a atitude de Luís Clara Gomes (Moullinex) esta madrugada, no Palco Carlsberg, só por isso merece um sublinhado especial. Explicamos porquê.

A (magnífica) cabeleira de Jillian Hervey da dupla Lion Babe só parou de esvoaçar à hora destinada aos Moullinex (em formato banda), por isso antevia-se um grande atraso, que àquela hora (02h20) era coisa capaz de desmoralizar até os mais resistentes. Mas não foi isso que aconteceu.

Em apenas seis minutos houve uma mesa com maquinaria de mistura que avançou palco adentro e, com ela, Moullinex de toalha branca ao pescoço (o calor era muito, dentro do pavilhão). Sem demoras, vai de passar música, com Prince a abrir – num piscar de olho à “Purple Experience” que vai acontecer este sábado, a fechar o Palco Antena 3.

O à vontade, energia e dotes de misturar música são-lhe amplamente reconhecidos, mas o homem perde-se com um gira-discos à frente. Estava ali a passar música como se estivesse dentro de uma garagem – com milhares de pessoas – enquanto a equipa de palco montava e afinava os instrumentos, em redor dele. Foi como se dissesse “despachem lá isso aí atrás enquanto eu mantenho esta malta a dançar”.

Pareceu até que se distraiu com a magia dos pratos, a ponto de a banda ter ficado à espera dele. Ou então era para ser mesmo assim, apenas talvez a entrada em palco tenha sido precipitada pelo atraso, porque quando a banda entrou a mesa de mistura saiu, os instrumentos substituíram os pratos – no caso, o baixo eléctrico.

Todos em calções, farda a condizer com a temperatura, arrancam com “Take a Chance” de Elsewhere (2015), logo depois um “Sunflare” descaracterizado e por aí em diante, canções todas coladas umas nas outras, como fazem os DJs, mas com uma banda – muito competente mas com Moullinex a precisar de afinar a arte do canto, o resto da escola ele já tem. Uma coisa é certa, fazer isto com discos é mais fácil e por vezes eficaz, mas a atitude de não nos ter feito esperar valeu por tudo o resto. [PE]

Estivemos em direto ao longo do dia em liveblog, onde encontra muitos outros momentos passados neste segundo tomo da 22ª edição do Super Bock Super Rock – encontra ainda mais alguns na fotogaleria acima. Este sábado a temperatura deverá subir ainda mais, porque o dia está esgotado (20 mil pessoas) e o principal motivo tem um nome: Kendrick Lamar. Lá estaremos.