Nem o próprio contador estava pronto para a excelência aquela rotina. Atingir um “dez” parecia impossível. O 10.00 significava perfeição. E foi a essa perfeição – à perfeição da rotina de Nadia Comăneci – que foi atribuída um “1.00”, no dia 18 de julho de 1976, nos Jogos Olímpicos de Montreal.

O El Mundo falou com a desportista quarenta anos depois de um dos dias mais marcantes da história da ginástica artística e dos Jogos Olímpicos. Nadia lembra a reação ao resultado de 1.00 que surgiu nos contadores, a felicidade ao perceber que tinha atingido a nota mais alta do desporto, a preparação para a rotina e ainda sobre o futuro da ginástica na Roménia.

O dia em que a perfeição foi atingida

Por muito boa que fosse a rotina, nunca nenhuma ginasta tinha conseguido ultrapassar a pontuação de 9.95, nem parecia que alguém o fosse conseguir. Pelo menos foi o que acharam os oficiais dos Jogos Olímpicos, que antes do início da competição em Montreal, perguntaram ao Comité Olímpico quantos números deveriam aparecer no mostrador. Depois de ponderar, o Comité decidiu que três números seriam suficientes, já que nunca ninguém atingiria os 10.00.

Esta decisão de ter apenas três dígitos no marcador causou algum pânico no dia 18 de julho. Nadia Comăneci atacou as barras paralelas assimétricas com uma rotina enérgica e repleta de elementos de grande dificuldade na exequibilidade. Depois de se projetar da barra inferior, o público aplaudiu com entusiasmo. Mas os aplausos diminuíram de intensidade depois de surgir o resultado no mostrador. Como era possível que a ginasta tivesse tido apenas 1.00 como pontuação final?

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Nadia ficou atordoada por uns minutos. “Estranhei quando apareceu o 1.00, mas eu sabia que não me tinha saído assim tão mal…” afirmou a ginasta ao El Mundo. Mas rapidamente a dúvida dissipou-se. Era um 10.00 e os aplausos redobraram. E a ginasta que nunca sorria – há quem diga que os sorrisos com que terminava a atuação eram amplamente treinados – não escondeu o seu contentamento.

Mas, apesar desse contentamento, Nadia explicou que não percebeu bem a importância do seu feito. “Foi tudo tão rápido. Pensei que podia ser 9.00, acreditava que valia 9.95… Mas não esperava um 10. Não era o meu objetivo. Mas também não me surpreendeu muito. Sinceramente, na altura não percebi muito bem a sua importância. Era muito jovem e não seguia com atenção o meu desporto”.

O 10.00 visto 40 anos depois

Quando se celebram quarenta anos desde o dia em que uma pequena ginasta conseguiu atingir a perfeição, o El Mundo publica uma entrevista com Nadia Comăneci, onde a desportista afirma que se lembra dos “treinos, dos aquecimento com as colegas, do programa, da rotina”, todo o percurso. E brinca, acrescentando que não viu o vídeo “assim tantas vezes”.

Sobre a longevidade do seu feito – que celebra esta segunda-feira 40 anos – a ginasta considera que o facto de ter conseguido um “dez” foi mais importante do que ter conseguido três medalhas de ouro em 1976: “Se agora pergunto a um miúdo na rua, talvez, ele não me fale das medalhas olímpicas que ganhei, mas de certeza que terá ouvido falar do primeiro 10 nos Jogos de Montreal. Saberá que foi algo extraordinário. Por isso é que aqui estás tu, a perguntar-me pelo feito, quatro décadas depois”.

Sobre os seus treinos, Nadia afirmou que não eram sobre-humanos, mas que havia momentos “muito difíceis”, mas que mesmo assim gostava de treinar para além do que lhe exigiam. O que a movia era a paixão pelo desporto – “não pensava em ganhar dinheiro ou em ser famosa. Adorava a ginástica e era por isso que treinava“.

Depois dos jogos, a ginasta viajou pelo mundo, mas quando voltava à Roménia tinha de viver como todos os cidadãos “a seguir as regras e a viver com pouco dinheiro”. Terá sido esta situação política e social opressora que levou Nadia a exilar-se para os Estados Unidos, em novembro de 1989.

Pela primeira vez desde 1968, a Roménia vai agora comparecer nos Jogos Olímpicos do Rio sem uma equipa de ginástica. “É um problema de bases” explica Nadia “a ginástica na Roménia deve estar mais presente nas escolas, para que haja mais meninas interessadas”.

A glória em triplicado em Montereal

Embora o de Nadia tenha sido o primeiro 10.00 da história da ginástica artística nos Jogos Olímpicos, não foi o último. A “pequena gigante” Nadia Comăneci conseguiu atingir mais seis 10.00 em Montreal – três nas barras paralelas assimétricas e outros três na trave de equilíbrio – e várias outras ginastas desde então conseguiram repetir o feito.

Em Montreal, Nadia Comăneci conseguiria três medalhas de ouro: uma como melhor ginasta em prova, a medalha de ouro nas barras paralelas assimétricas e a medalha de ouro na trave de equilíbrio. Nadia foi ainda laureada com a medalha de bronze em ginasta solo.

[Vídeo onde se compilam os sete 10.00 conseguidos por Comăneci nos Jogos Olímpicos de Montreal.]

[Vídeo de uma das rotinas solo de Comăneci em Montreal.]

1976 foi o ano de ouro da Roménia na ginástica artística dos Jogos Olímpicos. Este ano não existe sequer uma equipa para representar o país na modalidade em que já foi campeã. Mudam-se os tempos, mas não muda o facto de Nadia ter sido a primeira de sempre a conseguir um dez.