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Podia parecer que estávamos no concerto de Omara Portuondo e Diego El Cigala, porque a cada pergunta, cantarolavam a resposta. Animados e unidos pela música de Cuba e Espanha, os dois artistas atuam esta terça-feira à noite no EDP Cool Jazz em Oeiras. O concerto insere-se na digressão de celebração dos 85 anos de Omara Portuondo, a “85 Tour”. Este verão, vão percorrer a Europa: depois de Oeiras, vão estar também no Coliseu do Porto na quarta-feira. O futuro da digressão está reservado para o inverno nos Estados Unidos da América e pode haver um CD e um DVD a caminho.

Os mais céticos podem estranhar a cumplicidade entre os dois artistas, especialmente se souberem que Omara e Diego conheceram-se apenas no ano passado, num evento de música em Los Angeles. Foi no anfiteatro do Hollywood Bowl que ambos decidiram embarcar num novo projeto: uma celebração dos 85 anos da cantora cubana que começou no Cuarteto d’Aida e acabaria por integrar o Buena Vista Social Club, um clube em Havana que evoluiu anos mais tarde para um projeto musical e um documentário — ao mesmo tempo, tornar-se-ia numa das marcas intemporais da cultura cubana. Omara Portuondo é uma referência e uma influência, Diego El Cigala sempre soube disso e não esquece o momento em que conheceu a artista no camarim:

Já a conhecia, mas não pessoalmente. Passei muitas noites em Cuba e conheço bem o país. A Omara é uma referência por lá e onde quer que vá.”

As circunstâncias deste encontro não foram as melhores: a mulher do cantor espanhol tinha morrido há pouco tempo. A indecisão entre atuar ou não acabou por ser crucial na ligação que ambos criaram: “A Omara deu-me o abraço e o alento para fazer o concerto, a força que precisava”, desabafa Diego El Cigala. A partir desses pequenos minutos, o passo para trabalharem em conjunto surgiu com facilidade. Conheciam as capacidades um do outro, a “simplicidade da música e a fruição do momento” haveria de completar tudo o resto e enriquecê-los mutuamente.

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A “namorada do feeling”, um nome que a crítica aplica a Omara Portuondo e que a própria refere nos trabalhos, é explicado como o “sentimento que a música tem de ter, tal e qual a Amália em Portugal”. Assim que se fala da fadista portuguesa, ambos cantam — mesmo que esta conversa tenha acontecido ao telefone — excertos de “Uma Casa Portuguesa” e tentam disfarçar o espanhol e cantar no melhor português que conseguem.

Diego El Cigala não se cansa de referir o “orgulho” de estar no palco com a cantora cubana — o cantor já tinha colaborado com outro artista daquele país, o pianista Babo Valdés, no álbum “Lágrimas Negras” de 2003, o trabalho que o lançou para o reconhecimento internacional. Se um não poupa elogios, Omara faz o mesmo: destaca a “alegria de viver” de ambos e a virtude de conseguirem “rirem deles mesmos e de quase tudo”.

A digressão é uma reunião de temas dos dois artistas: algumas canções cantam em conjunto, outras individualmente. “A 85 Tour é quase como um barco onde se entra, mistura-se Espanha e Cuba e nasce uma rumba”, diz o cantor, entre risos. Confrontados com as características mais inibidas dos europeus face aos sul-americanos, ambos acreditam que isso está a mudar:

A temperatura sobe e as pessoas levantam-se das suas cadeiras e dançam. Aconteceu, inclusive, em países da Europa de Leste com esta digressão. É uma das mais-valias da música”, diz Diego El Cigala.

Não sabem dizer qual dos dois tem mais energia em palco, ou melhor, sabem. Diego dá o primeiro lugar do ritmo a Omara, e a cantora cubana faz o inverso. “Ela já me provocou algumas mazelas”, afirma. Os 85 anos da cantora cubana não são para pôr à prova, porque a própria afirma que “o melhor é não pensar na idade, é seguir em frente”. Os planos para tornar a digressão mais abrangente estão a ser ponderados: as filmagens dos concertos podem resultar num DVD, já o disco será gravado num estúdio em Havana.

Esta quarta-feira, Omara Portuondo e Diego El Cigala atuam nos Jardins Marquês de Pombal em Oeiras. Os bilhetes custam entre os 25 e os 50 euros. No Porto o concerto é no Coliseu, quarta às 21h30. O preço dos bilhetes varia entre os 20 e os 50 euros.