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Conheci o professor já há alguns anos. Foi numa das muitas competições a que fui quando era miúda. Ele era, obviamente, um líder no atletismo do Sporting que, naquela altura, era uma grande equipa de atletismo, como o é hoje. Nos meus sonhos, eu queria pertencer à equipa feminina o Sporting. Para isso teria de fazer resultados.

Lembro-me de, um dia, ver o professor numa das competições e as pessoas dizerem-me: “Olha, se queres entrar para o Sporting, é ele que tens de convencer”. Foi aí que percebi que tinha realmente de ser uma boa atleta. Uns anos mais tarde, quando pertencia a uma equipa na margem Sul, ele chegou-se ao pé de mim e disse: “Miúda, tu tens talento, tu vais longe”. E eu pensei “olha, fantástico, ele reparou em mim, estou no bom caminho!”.

Quando já estava no Sporting, o professor sempre me passou a mensagem de que, para conseguirmos algo, temos que batalhar e trabalhar. Quer faça chuva, sol ou um terramoto. Temos é que treinar. Foi essa mensagem que sempre encarei seriamente. Porque, para sermos alguém no desporto e na vida, temos que nos dedicar a 100% e escolher bem a nossa prioridade.

Ele era um Senhor Atletismo, um amante do atletismo, era tudo no desporto nacional. Era um exemplo a seguir, sem dúvida. Nunca foi meu treinador. Era o diretor do atletismo do Sporting, contratava os atletas e formava as equipas. Mas foi ele que me ajudou a escolher um. Quando passei por uma fase má e estava a treinar sozinha, houve um dia em que o professor me chamou. “Anda cá”.

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Sentou-se comigo no estádio do Inatel, em Lisboa, e fez-me escolher um treinador, porque não poderia estar naquela situação. Tinha 18 anos. Fez-me perceber que tinha duas hipóteses: a Anabela Leite ou o Prof. Abreu Matos. Escolhi o segundo.

Homenagem - olímpicos do Sporting

Naide Gomes ao lado do professor Moniz Pereira, em 2012, num evento de homenagem aos atletas do Sporting que iam participar nos Jogos Olímpicos de Londres. Foto: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Mas ele, o professor Moniz Pereira, sempre me foi dando conselhos, sobretudo nas competições a que íamos, por equipas. Era um líder, sabia comandar as suas tropas. Sabia dizer as palavras certas nas alturas certas. Tinha sempre uma história para contar, era incrível. Uma história que nos motivava e deixava alegres para a competição. Ele dizia que o momento da competição não era nada do outro mundo. Que a tínhamos de encarar com alegria e seriedade. Até mesmo se nos lesionássemos. “Meninos, se partirem uma perna, vai com a outra. Se partirem as duas, vão a rastejar. Portanto, é acabar”, dizia-nos. Todos os atletas que passaram pelo Sporting sabem desta mensagem que ele nos passava.

Era um grande motivador. Quando eu ainda fazia provas combinadas, estava habituada ao salto em altura e comecei a dedicar-me um pouco mais ao salto em comprimento. Só que saltava muito em altura, ou seja, saltava muito alto em vez de saltar em profundidade. Um dia, ele veio ter comigo: “Ó Naide, a menina salta fantasticamente bem, mas salta em altura. E salto em comprimento não é altura!”. Eu dizia-lhe que ele tinha razão e que um dia ia melhorar e surpreendê-lo. Porque o professor, há muitos anos, quando era jovem, fazia triplo salto.

O que mais gostava no professor era o amor e a paixão que ele entregava ao atletismo. A forma como ele acreditava, piamente, que podíamos ser os melhores. Era um dos melhores adeptos de atletismo do mundo. Defendeu o atletismo como ninguém. O desporto português terá sempre que lhe agradecer. Eu agradeço e sempre lhe agradeci. Ainda bem que ele existiu porque, pessoas assim, já não temos.

O atletismo aprendeu muito com o professor Moniz Pereira. Estamos no bom caminho. Por ele, agora, temos de fazer muito mais. Devemos-lhe isso.

Naide Gomes tem 36 anos e foi campeã do mundo de pentatlo (2004) e do salto em comprimento (2008), ambos em pista coberta. Foi também campeã europeia, por duas vezes (2005 e 2007), do salto em comprimento em pista coberta. Participou em três edições dos Jogos Olímpicos (2000, 2004 e 2008) e representou o Sporting Clube de Portugal durante 17 anos, entre 1998 e março de 2015, quando se retirou.