A chegada faz-se sob um céu cinzento, que pinga chuva miudinha, depois de três horas de viagem entre Lisboa e Silgueiros, perto de Viseu. O tempo pode não estar tão favorável para uma visita como desejado, mas não é caso para lamentos. As cerca de 6 mil vinhas por hectare da propriedade dão as boas vindas a qualquer visitante, independentemente do que conste no boletim meteorológico. E o edifício de granito espelhado que surge lá no alto, com a assinatura do arquiteto Carvalho Araújo, também. Bem-vindos à Quinta de Lemos.

Era uma vez um homem com um sonho — e não é assim que começam todas as grandes histórias? Celso de Lemos é o português natural de Viseu que de há 35 anos para cá tem dado o corpo e a alma à marca Abyss & Habidecor, cujas toalhas já foram descritas como “as melhores do mundo” pelo Wall Street Journal. Mas a Celso não lhe chegaram os tecidos de linho, algodão e caxemira que entretanto ganharam fama um pouco por todo o mundo. Faltava-lhe o vinho da terra para homenagear família e amigos.

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O vinho que é das Donas

A quinta que nasceu há cerca de 15 anos entre quatro serras — Estrela, Caramulo, Buçaco e Nave –, na região vitivinícola do Dão, tem 3 mil oliveiras, colmeias para produção de mel e 25 hectares de vinha. Todos os anos faz chegar ao mercado nacional e internacional 100 mil garrafas, apesar de haver matéria-prima para produzir cerca de 500 mil, garante Pierre Manuel de Lemos num português afrancesado — é filho de Celso; a mãe é belga.

A filosofia exclusiva dos tecidos estende-se aos vinhos: a primazia é dada a varietais das quatro castas tintas dominantes — Touriga Nacional, Jaen, Tinta Roriz e Alfrocheiro; Encruzado nas brancas –, sendo que todos os vinhos (tintos) estagiam cinco anos antes de chegar aos copos dos consumidores. E quando chegam vale a pena reparar nos rótulos, uma vez que são as mulheres da família a dar-lhes os nomes de batismo: do Dona Georgina (2008) ao Dona Santana (2010), mãe e bisavó de Pierre, respetivamente. É uma quinta de donas, com certeza.

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Os vinhos, a cargo do enólogo Hugo Chaves, já ganharam uma mão cheia de prémios e têm lugar cativo na Mesa — a maiúscula é propositada, não fosse este também o nome do restaurante da propriedade. Ao comando do chef Diogo Rocha, o Mesa de Lemos, é esse o nome completo, trocou o horário de funcionamento reduzido por um mais alargado, para agora estar disponível de terça a domingo, aos almoços e jantares.

No interior do edifício de granito ladeado por um sem-fim de vinhas — que chegou a figurar na shortlist dos prémios internacionais do ArchDaily e tem decoração de Nini Andrade Silva — os produtos regionais e nacionais, sempre da época, são trabalhados com imaginação. Há atum dos Açores, carabineiro de Sesimbra ou cabrito da Beira Baixa, além de um menu de degustação de três, cinco ou sete pratos, com preços que variam entre os 35 e os 120€. A água, essa, vem engarrafada da Serra da Estrela.

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Os têxteis dos têxteis, made in Portugal

Quis ser jogador de futebol e chegou a chutar à baliza com a camisola do Sporting Clube de Portugal. Mas Celso de Lemos não estava destinado a trabalhar com os pés, antes com as mãos. Descrito pela família como um homem humilde, nascido e criado no seio de uma família grande — é um de sete irmãos –, ainda não era um homem feito quando cruzou fronteiras para ir estudar têxtil na Bélgica a mando da mãe Georgina.

Regressado a Portugal com um diploma em engenharia química, começou a produzir têxteis na cave dos pais com a ajuda de duas pessoas, Isabel e Aníbal, que o acompanharam até à idade da reforma. Foi uma questão de tempo até Celso adquirir fábricas no norte do país para, a partir daí, vender em vários países — a marca tem como clientes o Harrod’s e a Bloomingdale’s.

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A marca Abyss & Habidecor é um caso de sucesso mundial. (foto: © Fabrice Demoulin)

Mas não é preciso ir tão longe para tocar ou enrolar-se numa das muitas toalhas (e afins) da marca difícil de pronunciar. Voltemos ao edifício principal na Quinta de Lemos: todos os tecidos que decoram o espaço moderno têm a assinatura Abyss & Habidecor, seja no showroom preparado para o efeito, seja nas luxuosas suites que, infelizmente, apenas servem para acomodar convidados especiais. Mas o melhor é ver com os próprios olhos, já que Pierre garante que ali não se fecha a porta a ninguém, nem mesmo aos turistas curiosos que surgem de vez em quando.

Celso de Lemos nunca passou fome, “mas uma lata de sardinhas era capaz de chegar para dois dias”, conta o filho. Os esforços de um passado que agora parece remoto compensaram, com a marca a ser eleição de poucos, mas bons (até Barack Obama se terá convertido aos seus lençóis, toalhas e tapetes). Por isso, o português resolveu retribuir o sucesso e homenagear o pai, o patriarca da família, “para quem o cultivo da terra era uma razão de vida”. E de tanto cultivar nasceu o vinho. De uma família para o mundo.