A polícia bateu à porta número 8975 na West Summerdale Avenue. Se alguém podia ter pistas sobre os misteriosos desaparecimentos que em 1978 assustavam Chicago (Illinois, Estados Unidos) era John Wayne Gacy. Era suficientemente próximo dos membros da comunidade para lhe poder saber alguns segredos. Quando pintava os lábios de vermelho e contornava os olhos de azul, John transformava-se no palhaço Pogo, o melhor amigo das crianças da cidade. Mas à saída de sua casa, a polícia notou um cheiro esquisito. Era, dizia John, um entupimento nos esgotos. A explicação não pegou junto de um dos polícias, que começou a investigar a vida do homem por detrás das tintas de palhaço. Encontrou um assassino em série com um passado triste.

John Wayne Gacy

John Wayne Gacy. Créditos: Wikimedia Commons

Quando voltaram a casa de Gacy, o homem, à época com 36 anos, já estava à espera das autoridades. Levou-as para o porão da casa e desenhou um mapa onde explicou onde estavam os cadáveres das 33 pessoas que tinham desaparecido nos últimos anos, com idades compreendidas entre os nove e os vinte e sete anos. Admitiu ter torturado, violado e estrangulado todos eles. Alguns estavam enterrados mesmo ali, em sua casa. Outros, de quem já não se lembrava dos nomes, tinham sido atirados ao rio. Depois de ter dito tudo isto à polícia, desmaiou. Quando voltou à consciência negou a autoria de todos os crimes que havia confessado minutos antes: “Não fui eu quem desenhou este mapa. Foi Jack Hanson. Foi ele quem os matou”.

A teoria de que John Wayne Gacy tinha um distúrbio de personalidade – e que o palhaço tinha vários homens com vontade própria no seu corpo – não convenceu todos os psicólogos envolvidos no caso. Os diagnósticos admitiram que Gacy podia ser um “pseudoneurótico esquizofrénico paranóico”, um sociopata e até “mentiroso patológico”, mas acima de tudo era contraditório nas versões que contava em tribunal. Numa delas, no entanto, dizia que se lembrava de cinco crimes, mas que “é como se as memórias não fossem realmente minhas”. Os psicólogos perceberam a origem destas perturbações: o palhaço Pogo era maltratado pelo pai, um alcoólico que espancava de tal forma o filho – a quem chamava de “bicha” – que chegou a provocar-lhe um traumatismo craniano aos 15 anos. A homossexualidade levou-o à prisão em 1968, já com 26 anos, por ter sido apanhado a praticar sexo com outro homem na casa de banho de um bar. Quatro anos mais tarde começou a matar.

Timothy Jack McCoy

Algumas das vítimas do palhaço Pogo. Créditos: Bettmann

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Em 1972, John Wayne Gacy conheceu Timothy Jack McCoy, de 15 anos, numa paragem de autocarro. Gacy perguntou-lhe se estava interessado em conhecer Chicago e ofereceu-se para o acompanhar na viagem, garantindo que levaria o jovem de volta à estação a tempo do autocarro que levaria McCoy até Omaha no dia seguinte. McCoy, quinze anos mais novo, aceitou. No dia seguinte não voltou para casa. Foi morto. John Wayne Gacy alegou que encontrou McCoy de faca em punho à frente da porta do seu quarto. Quando se levantou da cama, McCoy terá levantado os braços em rendição, mas a faca provocou um corte num dos braços de Gacy enquanto caía. Ambos começaram a lutar, até que o palhaço pegou na arma e esfaqueou McCoy até à morte. Só quando foi à cozinha é que percebeu que o jovem não o queria matar: McCoy tinha feito ovos e bacon e posto a mesa para dois, por isso o mais provável é que tivesse apenas ido até ao quarto chamar Gacy para o pequeno-almoço. Mas era tarde demais. O palhaço enterrou o corpo de McCoy no porão e cobriu o túmulo com cimento. Mas o seu gosto por matar veio à tona.

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Escavações na casa de John Wayne Gacy. Créditos: Reddit.

Entre 1972 e 1978, John Wayne Gacy matou pelo menos 33 pessoas. As vítimas eram todas do sexo masculino. Gacy conduzia um Oldsmobile preto e conversava com rapazes para os aliciar a trabalhar na sua construtora, uma atividade que tinha além do trabalho como palhaço em festas de crianças ou em hospitais. Tinha duas formas de atuar: ou convencia os jovens a seguirem com ele para casa a fim de falarem sobre a proposta de trabalho; ou então, caso o plano não funcionasse, oferecia-lhes droga e dinheiro. A seguir atacava-os com clorofórmio, já dentro do automóvel, e levava os rapazes inconscientes para casa. Depois vestia-se de palhaço Pogo e violava e torturava as vítimas enquanto lhes lia passagens da Bíblia e tapava a boca com as cuecas de outros rapazes. Usava sempre instrumentos, um dos quais apreendidos pela polícia nas primeiras buscas: era o garrote.

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John Wayne Gacy vestido de palhaço, tal como atacava as vítimas. Créditos: Wikimedia Commons

Das 33 vítimas de Gacy, oito não foram identificadas na época. Só mais recentemente é que dois desses corpos ganharam nome: um era William ‘Bill’ George Bundy, um trabalhador da construção civil que desapareceu no dia em que celebrava 19 anos; outro era Steven Soden, de 16 anos, desaparecido durante uma visita de estudo do orfanato onde vivia.

O julgamento de John Wayne Gacy começou em 1980 e prometia ser longo: havia 100 pessoas para ouvir, entre os quais família do palhaço. Enquanto a batalha judicial corria, Gacy dedicava o tempo na prisão a pintar: outros criminosos, personagens da Disney, figuras bíblicas ou autorretratos. Apontava sempre quem lhe visitava, o que comia e todos os passos que dava. Em 1994 chegou o veredicto: foi considerado que Gacy estava consciente de todos os seus crimes e por isso foi condenado a 21 prisões perpétuas e 12 penas de morte. Foi morto por injeção letal em 1994. As suas últimas palavras: “Kiss my ass”.

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Um dos quadros de John Wayne Gacy, vendido por mais de 100 mil dólares. Créditos: Wikimedia Commons.

Memórias como a que o palhaço Pogo deixou nos norte-americanos têm levantado uma onda de terror nos Estados Unidos. Centenas de pessoas dizem ter visto palhaços assustadores e armados na rua, que lhes acenam, aproximam-se das casas e tentam atrair crianças e mulheres com um sorriso (demasiado) rasgado no rosto. Não é um fenómeno novo: em 1981, algo semelhante foi registado no país. E também não é um fenómeno exclusivo no país (ainda) de Obama: acontecimentos semelhantes tiveram palco no México, Canadá, Inglaterra, Nova Zelândia e Brasil.

https://twitter.com/SpookyClowns/status/783156003336577024

Há alguns anos em Portugal, uma corrente de mensagens falava também do “Palhaço da Boca Cortada”, um homem com os lábios rasgados que supostamente atacava jovens na rua e lhes cortava o rosto. Tudo não passava de um embuste, um mito, na época. Mas a aproximação do Halloween, que se celebra no final de este mês, está a preocupar a comunidade e a obrigar as autoridades a tomarem medidas mais apertadas para controlar a segurança nas ruas.

https://twitter.com/SpookyClowns/status/783514255345774592

Os psicólogos não acreditam que estejamos perante uma epidemia de coulrofobia (um medo descontrolado por palhaços). Até porque o medo por palhaços tem raízes muito mais antigas: Joseph Campbell, um especialista em mitologia e religião, escreveu que, nas primeiras menções literárias ao palhaço ele é uma personificação do demónio que causa estranheza porque associa o riso ao terror, o humor ao susto. É contranatura. E hoje em dia isso é ainda mais potenciado pela “bola de neve” em que estes receios se tornam nas redes sociais.

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Quem mais sofre com estes receios são os palhaços de profissão. Em 2008, uma das autoras de um estudo da Universidade de Sheffield sobre o ambiente hospitalar preferido das crianças disse que “as crianças têm uma aversão universal aos palhaços”, pelo menos as 255 (com idades entre os sete e os 16 anos) estudadas neste caso. Mas um outro estudo publicado em outubro deste ano na European Journal of Pediatrics indica que “os palhaços terapêuticos são úteis nas unidades de pediatria” porque “aliviam o stress das crianças e dos pais, se a profissão for exercida com habilidade e técnica”.

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Mas parte do medo que muitos nutrem por palhaços tem resposta dentro da nossa mente. De acordo com Frank McAndrew, um investigador do Knox College que estudou a “natureza do sinistro”, a imagem perturbadora que temos dos palhaços (que, diz a maioria dos 1300 voluntárias, é a profissão mais sinistra do mundo) é justificado pelo facto de o Homem ter aversão natural a “expressões artificiais pintadas”.

Uma cara mascarada cria “ambiguidade nos verdadeiros sentimentos” que queremos sempre ler nas outras pessoas. Não ser capaz de ler a expressão alheia incomoda as pessoas, mesmo que inconscientemente. Isto é confirmado pela psicóloga social Melanie Phelps ao The Sun: “O nosso cérebro tem de combinar padrões para sobreviver. Nós temos de ser capazes de reconhecer e distinguir rostos humanos que consideramos amistosos”. Como o rosto de um palhaço é sempre criado com base no exagero, as regiões mais essenciais do cérebro não consegue reconhecê-lo como seguro e rotula-o como uma possível ameaça.

É o que explica também Mark Griffiths, psicólogo da Universidade de Nottingham Trent. A maior parte das pessoas não tem medo de palhaços no ambiente onde os esperamos encontrar (como no circo), mas vê-los noutros contextos pode ter um efeito diferente no cérebro. “Esse é um estereótipo do palhaço desagradável, maléfico e estranho. Quando se olha para um palhaço, tende-se a encontrar partes do corpo exageradas, como os pés ou partes do rosto. Mesmo que isso não seja feito diretamente, mas através de filmes do Stephen King ou do Joker”.

https://twitter.com/SpookyClowns/status/783409150940307456