Depois de três semanas desastrosas para Donald Trump, que culminaram na divulgação de um vídeo comprometedor e com nove mulheres a acusarem-no de assédio sexual, o candidato republicano marcou o terceiro debate contra Hillary Clinton ao deixar no ar a hipótese de não aceitar uma eventual derrota nas eleições de dia 8 de novembro.

“Vejo isso na altura”, respondeu Trump à pergunta do moderador.

Esta declaração do candidato republicano pode ter surpreendido poucos — na última semana, disse repetidamente que as eleições estavam “engendradas” e levantou suspeitas sobre situações de fraude eleitoral —, mas é inegável que lança mais dúvidas sobre como o país vai acordar a 9 de novembro e se a médio prazo haverá condições para sarar as feridas abertas por uma das eleições mais fraturantes nos EUA.

“Vou deixar-vos em suspense, okay?”, disse o republicano. Clinton respondeu que estava “horrorizada” com a tomada de posição de Trump. “A nossa democracia funciona assim. Nós andamos aqui há 240 anos, temos tido eleições livres e justas e temos aceitado os resultados quer gostemos deles ou não”, disse. Na história da política norte-americana, só houve duas eleições cujo resultado foi disputado: em 1876 e em 2000, quando George W. Bush venceu pela primeira vez, derrotando Al Gore.

A dúvida deixada por Trump sobre o resultado das eleições foi o momento mais marcante do debate e simultaneamente o mais sintomático do tom do campanha eleitoral, numa altura em que, a 19 dias das eleições, as sondagens colocam a candidata democrata com uma vantagem 6,9%, de acordo com a média do site FiveThirtyEight.

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Uma das trocas de argumentos mais acesa do debate foi sobre a Rússia e a acusação de Putin querer interferir nas eleições dos EUA

No resto do tempo, os dois candidatos explicaram as suas propostas para os vários temas que marcam a atualidade — algo que fizeram mais e melhor neste debate do que nos dois anteriores —, mas muitas vezes preferiram fazer um desvio de rumo, procurando lançar ataques contundentes ao adversário. Nalgumas ocasiões, fizeram-no também para evitar responder a perguntas que podiam comprometê-los.

Foi assim quando Clinton respondeu especificamente a um discurso que fez num evento privado de um banco brasileiro, cujo conteúdo foi tornado público pelo site Wikileaks. O Departamento de Estado norte-americano acusa o Wikileaks de estar a trabalhar diretamente com o Governo russo, acusando o Kremlin de querer influenciar o resultado das eleições.

“Isto partiu dos mais altos níveis do Governo russo, claramente do próprio Putin”, referiu Clinton, que perguntou diretamente a Trump: “Admite e condena aquilo que os russos estão a fazer?. Vai tornar claro que não vai receber a ajuda de Putin nestas eleições?”

“Eu não conheço Putin”, respondeu Trump. “Ele não tem respeito por ela, ele não respeita o nosso Presidente”, continuou.

“Bom isso, é porque ele prefere ter um fantoche como Presidente dos Estados Unidos”, contra-atacou Clinton, naquela que foi uma das trocas mais acesas do debate. “Você é que é o fantoche”, reagiu o candidato republicano. Mais à frente, Trump acusou a adversária não ter como saber de onde partiu o ataque informático contra a campanha do Partido Democrata e a campanha de Clinton. “Ela não faz ideia se é a Rússia, a China, ou qualquer outro país”, disse o republicano.

Hillary respondeu que essa informação tinha sido confirmada por 17 agências de informações secretas norte-americanas. “Bom, ele prefere acreditar em Vladimir Putin do que nos profissionais das secretas militares e civis que juraram proteger-nos. Eu acho isso absolutamente…”, Clinton reagiu, sem terminar a frase.

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Clinton disse estar “horrorizada” com recusa de Trump em dizer se vai aceitar ou não os resultados de 8 de novembro

A Rússia voltou a ser tema quando se abordou a guerra da Síria, em particular a crise humanitária de Aleppo, que há meses está sob intensos bombardeamentos do exército sírio e da Rússia, num esforço do regime de Bashar Al-Assad para conquistar a cidade aos grupos rebeldes. Clinton voltou a defender o encerramento do espaço aéreo da Síria. “Isto não seria feito num dia, iria precisar de muitas negociações”, reconheceu. “Acho que podemos chegar a um acordo e tornar bem claro, para os russos e para os sírios, que isto é algo que, acreditamos, é do interesse do povo sírio e ajudar-nos-ia a lutar contra o Estado Islâmico.”

“Ridículo.” Foi assim que Trump reagiu às pretensões de Clinton na Síria, recordando o fracasso do acordo para um cessar-fogo assinado entre os EUA e a Rússia em setembro. “Durante o cessar-fogo, a Rússia ocupou várias extensões de terreno e depois disse ‘já não queremos o cessar-fogo'”, disse o republicano. “O nosso país está a levar uma lição de Putin e de Assad e, já agora, do Irão. Ninguém acredita no quão estúpida a nossa liderança é.”

Noutra fase do debate, voltou a polémica em torno do vídeo de 2005 em que Trump referia ter comportamentos que equivalem a abuso sexual, ao qual se seguiram denúncias de nove mulheres que o acusavam de assédio. “Essas histórias foram amplamente desmentidas. Eu não conheço essas pessoas”, disse Trump, que depois apontou o dedo à sua adversária: “Eu tenho uma ideia de onde é que elas vêm. Eu acredito que foi a campanha dela que fez isto”.

Clinton relembrou comentários que Trump fez ao longo da semana passada sobre algumas das mulheres que o acusaram de assédio, fazendo referências negativas às suas aparências físicas. “Olhem para ela. Não me parece”, disse num dos casos. “O Donald pensa que se tornar as mulheres mais pequenas, ele fica maior”, atirou-lhe Clinton. “Ele vai atrás da sua dignidade, da sua autoestima, e eu acho que não há uma única mulher por aí que não sabe como isso custa. Então, agora sabemos o que o Donald pensa e o que ele diz e como ele age perante as mulheres. O Donald é assim.”

A reação de Trump : “Ninguém respeita mais as mulheres do que eu”. A plateia irrompeu em risos, numa das poucas manifestações que teve durante os 90 minutos do debate.

O debate serviu também para cada candidato reforçar algumas das ideias que já tinham sido referidas em debates anteriores.

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Donald Trump: “Ninguém respeita mais as mulheres do que eu”

Sobre a economia e o mercado de trabalho, Clinton defendeu o aumento do salário mínimo, a criação do “maior programa de empregos desde a Segunda Guerra Mundial”. E para financiar estas medidas, propôs ir “buscar o dinheiro onde ele está”, referindo-se às “grandes empresas”. Trump acusou-a de querer aumentar a carga fiscal. O republicano revelou ainda a intenção de “renegociar” o NAFTA (tratado de comércio livre entre os EUA, o México e o Canadá) e de vai pedir aos países da NATO para pagarem aos EUA pela sua proteção.

Sobre o acesso às armas. Clinton defendeu uma regulação razoável. “As pessoas que têm armas não deviam poder ameaçar-nos ou matar-nos”; ao passo que Trump quer proteger a 2ª Emenda que, para o candidato republicano “está absolutamente sob ataque”. Afirmou-se ainda “muito orgulhoso” pelo apoio da NRA (National Rifle Association, a maior associação de portadores de armas dos EUA).

No dossier da imigração, Trump voltou a defender que é “preciso construir um muro” na fronteira com o México e “expulsar os barões da droga”. “Assim que a fronteira estiver em segurança, mais tarde, vamos determinar o que acontece com o resto [dos imigrantes ilegais]”, disse. “Mas temos alguns bad hombres aqui, e vamos ter de expulsá-los”, concluiu.

Do outro lado, Clinton garantiu que não quer “partir famílias ao meio”. “Eu não quero mandar os pais para longe dos seus filhos, eu não quero ver o movimento de deportações que o Donald tem defendido para o nosso país”, lembrando que os 11 milhões de imigrantes sem documentos nos EUA têm quatro milhões de filhos. Uma deportação destas pessoas, disse Clinton, levaria “polícias a irem de escola em escola, de casa em casa, de empresa em empresa, a juntar pessoas não têm documentos”. “Eu acho que é uma ideia que não está de acordo com o que nós somos enquanto nação.”

Sondagem pós-debate dá vitória a Clinton, que fez o pleno

No primeiro debate entre Clinton e Trump, a 27 de setembro, a democrata saiu claramente vencedora, depois de se apresentar com um nível de preparação francamente superior ao do magnata nova-iorquino. A partir dessa altura, as sondagens disparam a favor de Clinton, passando de 1,5% de vantagem para a democrata para uma média de 5,6% antes do segundo embate. A vantagem de Hillary já tinha subido para 6,9%, antes do debate da madrugada desta quinta-feira,

Depois do último round televisivo, a candidata democrata voltou a ser considerada a vencedora numa sondagem da CNN, com 52% dos inquirido a atribuírem-lhe a vitória, contra os 39% que escolheram Trump. Porém, este foi também o resultado mais renhido dos três debates.