Rádio Observador

Sociedade

Para que a vida não pare

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Vivemos vidas aceleradas. A mil, como costumamos dizer. Ou ‘debaixo d’água’, como se nem para respirar tivéssemos tempo.

FRANCK ROBICHON/EPA

Atropelamos conversas, sobrepomos reuniões e compromissos, agendamos vários impossíveis e deixamos e-mails sem resposta, mas o mais grave é deixarmos demasiadas pessoas penduradas à nossa espera. Literal e metaforicamente falando, note-se. Não temos tempo para visitar aqueles que mais amamos, falta-nos capacidade para cuidar de todos os que estão a precisar de nós e raramente conseguimos dar atenção a todos os que gostaríamos. Esta vertigem contemporânea consome-nos. Há, no entanto, uma realidade pior do que esta do aceleramento moderno: quando a vida para!

Na verdade, a vida obriga-nos a parar por muitas razões. Seja por acidentes, por doenças, mortes, perdas, crises, ruturas ou outros imprevistos, somos obrigados a parar. Sabemos que num instante tudo muda e aquilo que nos parecia impossível ontem, hoje surge como uma nova realidade. Imperativa. Exigente. Muitas vezes erosiva e dolorosa.

Todos somos vulneráveis a doenças e todos podemos ser vítimas de acidentes. Todos, sem exceção, podemos ter vivido sem grandes preocupações de saúde até este minuto, mas a partir de agora sermos obrigados a refazer toda a nossa vida. Quem passou ou passa por mudanças súbitas, drásticas, radicais e tantas vezes dramáticas, sabe bem o que é experimentar na pele essa travagem a fundo na vida.

Podemos ser atropelados, podemos cair no fosso do elevador, podemos dar um mergulho fatal, podemos cair em casa ou tropeçar no passeio, podemos ter um desastre de carro ou de avião, enfim, podemos tanta coisa que nos obrigue a parar, que o grande mistério e a maior surpresa é continuarmos a acordar e a adormecer ilesos um dia após outro.

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Porque ninguém é imune à imprevisibilidade da vida e, mais tarde ou mais cedo, podemos tocar a realidade súbita de uma vida que para, vale a pena pensar alto e em conjunto as questões essenciais que nos ligam e nos ajudam a perceber quem, à nossa volta, vive apostado em que a vida não pare.

Cientistas, médicos e investigadores dão o melhor de si, da sua ciência e prática, para cuidar de uma Humanidade frágil, tantas vezes doente e carente. Mas não são os únicos, pois muitas pessoas sem qualquer especialidade clínica também resgatam esta mesma humanidade, por darem testemunhos de coragem e fortaleza interior. E mais, grandes companhias e empresas criam conceitos e geram lucros apostando nos cuidados essenciais a vítimas de acidentes e imprevistos.

Por tudo isto e porque é da partilha do conhecimento e de experiências que nasce uma nova luz sobre temas que ensombram a vida de muitos, o Observador vai organizar em breve mais uma conversa offline, desta vez no Museu do Oriente, com o patrocínio da Fidelidade, para promover o encontro entre médicos, cientistas, cuidadores e vítimas da imprevisibilidade da vida que deram a volta por cima e se recusaram a ficar parados na vida.

O objetivo é ouvir uns e outros, mas também criar uma proximidade real que permita conversar com todos, estabelecendo um diálogo aberto e livre, com perguntas e respostas que ajudem a perceber que testemunhos corajosos geram sempre mais coragem.

Assim como a audácia e a força de médicos, investigadores e cuidadores também nos torna mais fortes e audazes para enfrentar os imprevistos e fazer tudo para que a vida não pare.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

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