António José Conceição Oliveira. Atrás daquele bigode, escondem-se 14 títulos de campeão português, oito como jogador (1969, 1971, 1972, 1973, 1975, 1976, 1977 e 1981), dois como treinador (1989 e 1994) e quatro como adjunto (1983, 1984, 1987 e 1991). Sempre pelo Benfica.

A este currículo, Toni ainda acumula oito Taças de Portugal (três como jogador, uma como treinador e quatro como adjunto) mais uma Supertaça nacional (como jogador). Na seleção portuguesa, 33 internacionalizações AA e um segundo lugar na Minicopa do Brasil-1972, o grande feito de Portugal entre os Magriços-1966 e o Euro-2000.

A este palmarés, Toni soma um outro título, o de memória prodigiosa. Ao longo desta entrevista, o homem de 70 anos vai do Matateu até ao Suker.

Começo pelo início. Qual é a memória futebolística de Toni enquanto criança/adolescente?
A mais nítida é o relato empolgante do meu pai sobre o Matateu. O meu pai era do Beleneneses e eu segui-o nessa aventura. Nasci no ano em que o Belenenses foi campeão nacional.

Em 1946?
Nem mais. Cresci a ouvir o meu pai falar insistentemente do Belenenses e do Matateu. O grande Matateu. Nunca o vi jogar no Belenenses. Só depois no Atlético e, mais tarde ainda, no Canadá. Aí, tive a oportunidade de o conhecer, de apertar-lhe a mão. De sentir o ídolo de toda uma geração e, sobretudo, o do meu pai. Curiosamente, tenho um livro sobre o Matateu na minha mesa de cabeceira. Chama-se a “Oitava Maravilha” e é do Fernando Correia.

Com um pai assim tão belenense, o Toni ia muito ao futebol?
Nãããããã. Outros tempos, sabes? Morava em Mogofores e a equipa de 1.ª divisão mais perto de casa era a Académica. Uma viagem até Coimbra demorava tempo, tempo.

Pois, imagino: o meu pai fala sempre do esticão de uma viagem da Lourinhã até Lisboa para ver o Sporting-Manchester United em 1964.
Pois, claro. Antigamente, quem morava longe do futebol, raramente via um jogo de 1.ª divisão.

Quantos é que o Toni viu?
Dois.

Quais, quais?
Um Académica-Belenenses, em que um amigo do meu pai foi buscar-nos a casa, num Volkswagen. Estás a ver, naquela época? Só havia três/quatro carros e, de repente, estás sentado dentro de um deles a caminho do Calhabé. O Belenenses deu 5-0, com uma catrefada de golos de um Estêvão, que, mais tarde, encontrei-o em Lisboa. Nesse jogo, tinha uns 14 anos. Deve ter sido em 1960.

E o outro jogo?
Uns dois anos mais tarde, um Académica-Sporting. Ganhou a Académica. Ou 4-3 ou 4-2. O Lourenço marcou três golos.

Na altura, o Toni já jogava?
Sim, no Anadia. Ia para os treinos de bicicleta. Acabava a escola e lá ia eu. Em Lisboa, ia de eléctrico para os treinos do Benfica. Aliás, ia de eléctrico e depois ainda apanhava um autocarro para o estádio.

Como é que um homem vai do Anadia para o Benfica?
Comecemos pelo início, pelo Anadia. Fui júnior do Anadia durante dois anos. Jogávamos na 1.a divisão do distrital de Aveiro e defrontávamos equipas como Beira-Mar, Sanjoanense e Ovarense. Nesses dois anos, conseguimos o apuramento para o campeonato nacional. E numa dessas séries, tocou-nos a Académica e o FC Porto. Perdemos 3-1 nas Antas mas ganhámos 3-1 em casa, ao FC Porto de Artur Jorge, Vieira Nunes, Ribeiro Cardoso, Eugénio Alves. Depois, fomos ganhar 3-0 a Coimbra e foi esse o grande passo.

Para a mudança Anadia-Académica?
Sim. Lembro-me perfeitamente de todos esses dias. O capitão [Mário Wilson, então treinador da equipa principal da Académica] tirou notas desse 3-0 e foi à Anadia falar com o meu pai. Parece hoje: ia ter uma aula de História às duas da tarde e vi passar um Fiat 600. Lá dentro, estava o Mário Wilson. Conhecia-o da colecção de cromos, que saía nos rebuçados. Juntos, fomos ter com o meu pai, que tinha uma tipografia numa oficina. A ideia do capitão era falar com o meu pai para que ele concordasse com a minha ida para Coimbra, que ficava a 30 quilómetros de Anadia. Havia então uma lei escolar em que a Académica tinha a possibilidade de recrutar jogadores a 40 km de Coimbra. Aí começou a minha grande aventura… com um senão: à saída da Anadia, o Fiat 600 não pegava e eu tive de empurrá-lo. Lá dentro, o Mário Wilson e um senhor da Académica chamado Augusto Martins.

E como foi em Coimbra?
Ainda fiz duas épocas de júnior, com uma grande equipa. Chegaram comigo o Mário Campos, o Pedrosa do Vilafranquense e o Pinheiro. Juntos, percorremos o caminho dos juniores e também fizemos parte da grande Académica, que acabou em segundo lugar do campeonato, a três pontos do Benfica.

Em 1966-67?
Isso mesmo, a mesma época em que perdemos a final da Taça de Portugal com o Vitória de Setúbal. Foi uma final inédita com dois prolongamentos! Se o Jacinto João não fizesse o golo, aquilo arrastava-se para outro dia. Outros tempos em que não havia cá penáltis. Nessa final, os mais novos – eu pela Académica e o Vítor Baptista mais o Tomé pelo V. Setúbal – saíram bem vistos. Foi o nosso passaporte para os grandes. Eu para o Benfica, como o Vítor [Baptista], e o Tomé para o Sporting. Eu, entretanto, acabara o sétimo ano, agora 12.º, e estava a tirar Direito em Coimbra. Com a ida para o Benfica, transferi o curso para Lisboa, mas era inconciliável.

Como foi a transferência para o Benfica: li num jornal da época que custou 1300 contos, é verdade?
Sim, sim. Foi isso. Naquele tempo, 1300 era dinheiro, sim, mas não era uma quantia astronómica. Só para teres uma ideia, um carro Austin custava 50 contos, um andar 400 contos. Olha, o Praia, que chegou ao Benfica no mesmo ano que eu, custou 2 mil contos [e só jogou 22 vezes, até 1970]. Mas aqui há um pormenor a reter. O Dr. João Rodrigues tinha dois amores: a Académica e o Benfica. Como tinha ligações ao Benfica, foi ele o responsável pela minha ida para Lisboa. E há o sr. Otto Glória, então treinador do Benfica. Chamava-me a força de natureza.

No Benfica, ganha campeonato e Taça de Portugal na estreia em 1968/69.
Lembro-me tão bem como se fosse hoje. Primeiro a pré-época de sonho, ao lado do sr. Coluna, do sr. Simões, do sr. José Augusto. Uma digressão de mais de 30 dias pelas Américas. Fomos ao Brasil, onde me estreei a 8 do 8 de 68, em Belém do Pará, com o Clube do Remo, e fiquei com a bola do jogo, uma bola bonita e branca da conhecida marca Drible. Depois fomos à Argentina, para o Torneio Pentagonal, e aí defrontámos Boca Juniors, Santos, River Plate e Nacional.

E então?
Marquei dois golos: um ao Gilmar, do Santos, e outro ao Carizzo, do River, nomes grandes do futebol mundial e ambos tinham idade para ser meus pais. Ainda fomos aos EUA para o confronto com o Santos de Pelé, no Giants Stadium, em Nova Iorque (3-3). Na primeira parte, ganhámos 3-1, mas acabámos por empatar 3-3. O curioso é que o intervalo durou 20/25 minutos porque um dirigente do Benfica não nos deixou entrar em campo enquanto não nos pagassem o cachê. Então andaram a recolher o dinheiro pelas bilheteiras. Quando ficou tudo pago, entrámos em campo. E o Pelé deu a volta àquilo, embora o Humberto Coelho tenha feito uma marcação exemplar que lhe garantiu o lugar de titular por muitos e bons anos, além de ter ficado com a camisola do Pelé. Outro pormenor, ainda relativo ao dinheiro. O cachê com Eusébio era uma coisa, sem ele era outra. Então, foi a primeira vez que vi retirarem-lhe líquido do joelho para que ele entrasse em campo.

E nos jogos a sério dessa época de estreia?
Lembro-me da festa do título em Tomar, a 27 de Abril, depois de termos jogado a meio da semana em São João da Madeira, num jogo de repetição com a Sanjoanense. Enfim… [o jogo é inicialmente disputado a 29 de Setembro, com vitória benfiquista por 2-0, com golos de Simões e Coluna, mas é anulado e repetido por protesto da Sanjoanense, sob alegação de estarem 12 jogadores aquando da substituição de guarda-redes, com a saída do lesionado José Henrique para a entrada de Nascimento].

E na Taça de Portugal?
Olha, defrontámos o ASA de Luanda na primeira vez que fui a Angola e que serviu também para conviver com benfiquistas brancos e negros num país em guerra. Na final, tínhamos a Académica pela frente e ganhámos 2-1 no prolongamento, num jogo marcado pela contestação dos “estudantes” à política do governo, de tal forma que o almirante Américo Tomás nem compareceu. É a grande manifestação contra o regime. Pela primeira vez, a final não foi transmitida em directo pela televisão. Na altura, o Alberto Martins, actual ministro da Justiça, era a bandeira da revolta. O estádio, completamente cheio, serviu de manifestação de oposição ao regime. Lembra-te que estamos em 1969, a cinco anos de Abril 1974.

Sobra a Taça dos Campeões.
Só falhámos aí. Fomos eliminados pelo Ajax. Vencemos 3-1 em Amesterdão na primeira vez que vi e senti neve. Na segunda mão, em Lisboa, o talento de Cruijff, Haan e Cª veio ao de cima e perdemos também por 3-1. Tivemos de fazer terceiro jogo, em Paris. 0-0 aos 90 minutos e empatámos [risos] 3-0 no prolongamento. Foi pena, mas temos ”desculpa” porque eles foram à final.

Se juntarmos final e Taça dos Campeões, o Toni tem uma história para contar.
As finais não foram feitas para serem jogadas e sim para serem ganhas. É uma verdade incontestável, só há aqui um senão: esse Benfica de 1988, em que entrei a meio para substituir o Ebbe Skovdahl, não foi feito para chegar à final da Taça dos Campeões. Quer dizer, não havia nenhum plano nesse sentido, nenhuma meta pré-estabelecida. Tudo aquilo foi-se fazendo à medida que íamos avançando. E fomos à final, com um mérito indiscutível, porque só sofremos um golo naquela que foi a nossa única derrota [1-0 em Bruxelas com o Anderlecht]. Sejamos realistas: o Benfica era inferior ao PSV.

Sim?
Eles tinham o Van Breukelen, o Ronald Koeman, o Lerby, o Van Aerle, aquele baixinho número 8 [Vanenburg], o Kieft. A esmagadora maioria foi campeão europeu pela Holanda, um mês depois. Nós tínhamos muita classe com Mozer, Elzo, Diamantino, Shéu e Rui Águas, nunca me esquecerei dos seus dois golos de cabeça na meia-final ao Steaua. Mas o PSV era mais forte. E há outro aspecto, nós ficámos sem o Diamantino, que se lesionou gravemente a quatro dias da final, num jogo com o Vitória de Guimarães [3-0 na Luz], e abdicámos do Rui Águas no início da segunda parte dessa final, também por lesão. Se já não éramos tão fortes quanto eles, com essas duas baixas mais desnivelado ficou o embate. Mesmo assim, obrigámos o PSV a jogar na expectativa, até que chegou a hora dos penáltis.

E aí é que foram elas: dos 12 remates, só falha Veloso (defesa de Van Breukelen).
Se não fosse esse penálti falhado, Veloso teria sido eleito o melhor em campo. Foi soberbo na resposta ao esforço físico durante os 120 minutos. Depois teve aquele momento.

Algum arrependimento?
Não. [começa a rir-se] Bem, o suplente do Silvino era o Bento. Se já houvesse três substituições, metia o Bento, porque ele uma vez, em 77/78 [primeira eliminatória da Taça dos Campeões], qualificou o Benfica. Sim, ele é que nos qualificou: 0-0 na Luz e 0-0 em Moscovo. Prolongamento, penáltis e o Bento defende o primeiro [remate de Iurine]. O segundo [de Nikonov] foi para fora. O terceiro [de Belenkov] foi golo, mas aí já nós estávamos bem à vontade. E foi o Bento quem marcou o penálti que nos apurou para a ronda seguinte. Bola para um lado, guarda-redes para o outro: 4-1 naquele frio. Ai se houvesse três substituições. O Silvino entende.

Se juntarmos Benfica e PSV, o Toni tem outra história para contar.
Ahhhh é verdade, aquela eliminatória em 1974-75. Pois é: em casa de ferreiro, espeto de pau. A dez minutos do fim, lá em Eindhoven, no estádio deles que é da Philips, houve um apagão. Não se via nada, eheheh. Ficámos uns vinte e tal minutos ali no campo, até porque não estávamos no Terceiro Mundo. Estávamos na Holanda e eles garantiram logo ao árbitro [o italiano Michlotti] que o reparo não seria demorado. Assim foi. Voltou a luz, retomámos o jogo e acabámo-lo da mesma forma com que começámos: zero a zero. Esse jogo também teve um episódio curioso, porque no início da segunda parte [53 minutos] houve uma substituição de guarda-redes: saiu o José Henrique, lesionado pelo René van Kerkhof, cujo irmão Willy também jogava lá e até lhe anularam um golo por outra falta sobre o guarda-redes ainda na primeiraparte, e entrou o Bento. E o Bento esteve impecável. Defendeu muito, embora nós tivéssemos atacado com regularidade. Lembro-me perfeitamente de um tiraço do Eusébio e defesa para canto de Van Beveren.

Na primeira mão, 0-0. E na segunda?
Aconteceu taça, perdemos 2-1. Eles marcaram primeiro pelo tal Wily van Kerkhof [11minutos]. Esse e o irmão gémeo René eram, de facto, as estrelas da equipa. Tinham estado no Mundial-74 e tudo. Nós empatámos logo a seguir [17’]: cruzamento de Eusébio e golo de Humberto, que ainda atiraria ao poste nessa primeira parte. Depois, estivemos ali como se costuma dizer no vai-não vai, 1-1 a prolongar-se, os golos fora já valiam, eles defendiam-se bem, nós não atinávamos com a baliza e eles fizeram o 2-1 muito perto do fim [aos 85’, por Willy van der Kuijlen, ainda hoje o melhor marcador da história do campeonato holandês, com 311 golos]. Outro pormenor que me lembro desse jogo na Luz, com luz [risos], foi dos jogadores do PSV distribuírem tulipas pelos adeptos antes do apito inicial. Outra cultura.

Nessa altura, o Toni já era o craque saloio?
Essas coisas que se dizem têm piada. A história foi esta: naquele tempo não havia equipas técnicas. Só treinadores. Eu ficava então sempre a ajudar o capitão a treinar os guarda-redes e dava-lhes a folha seca. Sabes, aqueles remates cortados com efeito de banana? Eles não gostavam nada disso. Ficavam lixados e diziam-me “olha-me este, armado em craque saloio, ó caraças”. Nós ainda interpretámos o “saloio” como “parolo”, mas ali, naquele momento, o craque saloio era pela positiva, pela valorização da pessoa. Vinha de uma aldeia, sim, mas tinha subido na vida. Era esse o ponto de vista a reter. Mais tarde, o Mário Wilson começou a chamar-me o cavalão.

Era o cavalão, mas o Toni tem lances que o definem como exemplo de generosidade e fair play, que dificilmente encontra paralelo na muito diversificada tribo do futebol.
Só tenho um lance marcante na minha carreira. Com o Marco Aurélio, do FC Porto [1-1 na Luz, a 21 Janeiro 1979]. Nunca quis que aquilo acontecesse, a fractura da tíbia e do perónio. Caminhava para o fim da minha carreira e aquilo abalou-me. Quando vi a situação do Marco Aurélio, não consegui, chorei e pedi para sair. Foi um dia negro. Mas o sr. Pedroto, treinador do FC Porto, serenou-me os ânimos, levantou-me o moral, assim como outras pessoas ligadas ao Benfica e ao FC Porto. Até cheguei a ir ao Porto para visitar o Marco Aurélio ao hospital.

Quando lhe pergunto sobre o fair play, só penso num Benfica-Belenenses na Luz em 1970, quando o Toni protege o árbitro da fúria dos adeptos.
Ah, esse dia. A gente não estava a jogar nada mas o árbitro, que se chamava João Nogueira, também estava para embirrar naquele dia. Já tinha expulsado o Malta da Silva e o Torres, o bom gigante. Às tantas, com 0-0 no marcador, apercebo-me que os adeptos da baliza sul, do terceiro anel, começavam a invadir o campo. Disse ao árbitro para entrar no seu balneário e protegi-o. O Estêvão [jogador do Belenenses] ajudou-me e, juntos, cobrimos o João Nogueira em direcção às escadas. Ele escapou de boa, mas ainda levou uns guarda-chuvas nas costas. O jogo não acabou e o Benfica apanhou oito jogos de suspensão. Passámos a jogar no Jamor e perdemos 1-0 logo na estreia com a CUF. O Otto Glória foi despedido e quem o substituiu foi o José Augusto.

E o Benfica ainda ganhou a Taça de Portugal, certo?
Três-um ao Sporting. Na véspera dessa final, eu estava em Mafra a cumprir serviço militar e foi o José Augusto quem me foi buscar ali perto de Torres Vedras, em Paúl. Metemo-nos no carro, fui dormir ao hotel Praia Mar, em Carcavelos, com a equipa e joguei a defesa-esquerdo com o Sporting.

Defesa-esquerdo?
Às vezes, era assim. Jogava à esquerda. Também à direita. E, às vezes, a central. Fui lateral-esquerdo na Minicopa-72, por exemplo.

Muito bem, continue.
Ganhámos 3-1. À meia-noite, foram levar-me numa carrinha para o Livramento, também ao pé de Torres Vedras, e no dia seguinte regressei a Mafra para acabar a recruta.

Na época seguinte (70/71), chega Jimmy Hagan, um treinador inglês. Não é ele que o castiga na véspera do jogo de despedida do Eusébio?
Não fui só eu. Havia mais dois envolvidos: o Humberto [Coelho] e o Nelinho. No treino da véspera, o Jimmy Hagan pediu-nos para saltar os painéis de publicidade. O plantel do Benfica era formado por 30 jogadores e nós os três estávamos no fim do pelotão. Como estávamos em fila indiana e não queríamos saltar todos uns em cima dos outros, o Jimmy Hagan chateou-se e alegou que não fizemos o exercício correctamente. Por isso, não fomos convocados. Nessa noite, o sr. presidente Borges Coutinho falou com o treinador e ele lá nos colocou na lista dos convocados para a festa de despedida do Eusébio, cujos bilhetes foram vendidos pelos próprios jogadores do Benfica na Baixa e em outros pontos de Lisboa. No jogo, só entrámos na segunda parte. No dia seguinte, o Jimmy Hagan pediu a demissão e o Borges Coutinho aceitou.

Esse presidente era dos bons, não era?
O Dr. Borges Coutinho era uma figura de grande prestígio, respeitado e admirado. Foi piloto da RAF [Royal Air Force] da Segunda Guerra Mundial, era alto como uma viga, para aí 1,88 m de altura, e estava sempre impecavelmente vestido. Era um gentleman tipicamente britânico, que queria ser mais chefe de departamento de futebol do que presidente. A sua paixão pelo futebol era enorme e conseguiu criar laços de família com jogadores importantes, como Simões, Eusébio, Humberto. Quando ele ia ao balneário, lá vinha chumbo. A nossa sorte, a dos jogadores, é que era raro, muito raro, porque felizmente o Benfica ganhava quase sempre.

Tanto assim era que o Benfica até se dava ao luxo de dispensar figuras como o Toni, o Humberto, o Eusébio e o Diamantino para o campeonato norte-americano.
Pois era. Outros tempos, em que o Benfica era campeão nacional a quatro/cinco jornadas do fim. Portanto, esse à-vontade permitia ao Benfica negociar esses contratos em que nós passávamos as férias a jogar futebol. Mas é verdade, fomos jogar todos juntos para o Las Vegas Quicksilver em 1977, de Maio a Agosto. Foram três meses engraçados. Conhecemos a primeira Disneylândia, que ainda não era em Orlando, e sim perto de Los Angeles. Fomos a Washington visitar o Capitólio e a Casa Branca. Em Las Vegas havia, os casinos e aquela agitação toda.

Por falar em agitação, o Toni jogou com o Vítor Baptista.
O Vítor. Que fenómeno. Se jogasse hoje e o Benfica o vendesse a algum clube, encaixava dinheiro que nunca mais acabava. Aquele golo ao Sporting [1-0 para o Benfica em Fevereiro 1978] em que ele perdeu o brinco faz parte da história do futebol. Foi dos melhores momentos que vi: pára a bola no peito e remata de primeira ao ângulo. Depois, a excentricidade do Vítor: todos à procura do brinco como se fosse agulha em palheiro! No final, em vez de irmos para o balneário, andámos à procura do brinco, com os homens da relva. Ainda tentei comprar um brinco parecido, mas a brincadeira custava 12 contos.

E aquela brincadeira em Chipre?
Ai, ai. Essa também é boa, mas já é um Vítor Baptista em baixo de forma, agarrado à droga. Naquela altura, não havia charters. Fizemos escala em Atenas para jogar em Chipre. Fomos num avião da TWA. Quando chegámos ao hotel, o sr. Juca, o seleccionador, avisou-nos do treino às sete da tarde. Vieram todos, menos o Vítor [gargalhadas ecoam]. Só no final do treino é que o Vítor aparece de fato de treino. Disse que não tinha ouvido nada… [e sai outra gargalhada] Meteram-no num avião de volta para Lisboa e nem ficou para ver o jogo.

O Toni acaba a carreira em Maio de 1981 e reinventa-se como adjunto de Eriksson.
Completamente. Conhecemo-nos em 1982, quando ele foi para o Benfica como treinador principal, recém-vencedor de uma Taça UEFA pelo IFK Gotemburgo. O adjunto era eu. No primeiro treino, ele diz-me isto: “Vou separar o plantel em três grupos. Tu ficas a treinar remates à baliza, eu divido os outros dois em minijogos de 4×4 e 6×6.” E eu a olhar para ele. Mas então, espera lá, ele quer bola no primeiro treino? No meu tempo, os primeiros 15 dias era calçar as sapatinhas e correr na mata. Bola, nem vê-la! Com Eriksson, sempre bola. E repetia os exercícios até à exaustão. Uns trabalhavam a organização defensiva, outros a transição para o ataque. O que o ponta-de-lança devia fazer quando o lateral-direito recuperava a bola para iniciar um ataque? E um médio, corria para onde? O Eriksson tinha tudo isso planeado na cabeça dele.

Ainda são amigos?
Muuuito. Damo-nos bem desde aí. Por isso, quando há algum stresse, ele telefona-me. Em 2010, ele convidou-me para trabalhar ao serviço da Costa do Marfim. Aceitei e fui ver potenciais adversários deles para a segunda fase. Assisti ao vivo ao Espanha-Suíça e ao Chile-Espanha. Quando Portugal deu 7-0 à Coreia do Norte, lá se foi o meu trabalho [risos].

Por falar em goleadas. Em Maio 1994, o Toni ganha 6-3 em Alvalade. Menos de um ano depois, em Março 1995, o Toni perde 6-3 com o Monaco e sai do Bordéus. Explique-me lá esta viagem.
O 6-3 em Alvalade é um jogo inesquecível, claro. Como o 7-1. Ou até o 3-0 de há um ano. Quando me deram a notícia do 3-0 na Luz, porque não pude ver o jogo, nem fiquei muito admirado. Os dérbis têm aquela vantagem de nos surpreender.

Pois. Em 1974…
Já sei, já sei o que me vais dizer: o 5-3 em Alvalade.

Isso mesmo.
Lá está, foste buscar outro bom exemplo. Nessa época, a de 1973-74, é mais especial porque o Benfica ganhou os dois dérbis, na Luz e em Alvalade, e é o Sporting a sagrar-se campeão.

Estávamos a falar dos dois 6-3 da carreira do Toni.
É verdade, vamos lá. O 6-3 em Alvalade é um jogo irrepetível, com um João em grande, grande, grande forma. Marcar três golos na primeira parte não é para qualquer um. Fora, menos ainda. Então se for o jogo do título e na casa do maior rival…

Alguma vez viu uma exibição individual daquele nível ou superior?
Eu joguei com o Eusébio, sabes?

E qual foi o maior génio que viu, tanto como a jogador como a treinador?
Chalana. Ele fazia coisas incríveis, desbloqueava problemas, desbravava caminhos, era uma máquina. Tão novo e tão genial. Nessa altura, o nosso plantel era impressionante com homens de personalidade e classe como Bento, Alberto, Humberto Coelho, Shéu, João Alves, Nené, Vítor Baptista. Havia mais. O Benfica tinha um plantel completamente à parte.

Ganhou tudo, não?
Esse plantel é o da série de 56 jogos sem perder. Lá pelo meio, e não digas isto a ninguém [gargalhadas], perdemos o título para o Porto.

Cinquenta e seis jogos sem perder?
Em casa era mais fácil, claro. Fora, havia o público em cima de nós e ainda os pelados. Lembro-me do pelado no Bessa, no Riopele [andava por lá um tal de Jorge Jesus] e na Vila da Feira. Quando íamos jogar num pelado, costumávamos passar a semana a treinar no campo número 3 do Estádio da Luz, que é onde é agora o novo estádio. Ou então íamos treinar à Casa Pia. Assim não sentíamos tanto a diferença de relvado para pelado.

Continuamos a adiar a conversa do 6-3 em França.
Tens razão. Na época seguinte ao 6-3 em Alvalade, que empurra o Benfica para o título de campeão nacional 1993-94, sou vítima de um resultado idêntico. Lembro-me perfeitamente de tudo, tintim por tintim. No jogo anterior, em Estrasburgo, onde jogava o Mostovoi, para a Taça de França, ganhámos 2-0 e perdemos os nossos dois centrais. Um foi expulso durante os 90 minutos, o outro no prolongamento. Para o jogo no Monaco, tive de lançar dois miúdos de 18 anos para o centro da defesa. Eram os tempos em que um plantel tinha 18/19 jogadores e o mercado de inverno só se permitia uma substituição. Não é como agora em que há 25/26 jogadores.

Monaco-Bordéus, tempo e resultado.
Aos 15/20 minutos, já havia 3-0 para eles. Conseguimos reagir: 3-2, 4-2 e 4-3 perto do fim. Depois, 5-3 e 6-3. O Monaco tinha um avançado sensacional chamado Sonny Anderson. Nessa noite, marcou quatro golos. Tinha ainda o Ikpeba e o Thuram. Historicamente, o Monaco chama sempre jogadores com nome. Podem nem ser campeões, mas há ali critério para a qualidade.

E o Toni com o Zidane no Bordéus?
Se me perguntassem se ele ia ser o que foi, digo-te que nunca imaginei. Lembro-me, isso sim, é do presidente Alain Afflelou dizer-me nos primeiros tempos que o Zidane só durava 60 minutos. Eu contestava e dizia-lhe que um jogador daqueles não durava só 60 minutos. Em Dezembro/Janeiro, fui ver o tempo de utilização dos jogadores do Bordéus e o Zidane estava destacado no primeiro lugar. A ver se o vejo agora em Lisboa, quando o Real Madrid vier jogar com o Sporting. Ainda não sei bem qual o hotel, mas hei-de saber e visitá-lo. Quero dar-lhe um abraço. Conheço-o há mais de 20 anos, já viste? Ele cresceu imenso desde que saiu do Bordéus. Na Juventus, ganhou corpo e disciplina táctica. Aquilo lá em Itália não se brinca em serviço. No Real Madrid, voltou a superar-se, já mais maduro que nunca.

A seguir a esse 6-3 no Monaco, como foi a vida do Toni?
Perdemos no dia 22 Março. Quatro dias depois, a 26, o tal presidente Afflelou telefonou-me e despediu-me.

Assim, sem mais nem menos?
E ele telefonou-me de Paris. O Afflelou não morava em Bordéus.

E depois?
Fiquei em Bordéus até final de Maio. E voltei a Portugal sem que o Afflelou cumprisse o prometido durante o acto da contratação, ali na casa do João Rodrigues. Se o apanhar por aí, digo-lhe que faltou ao prometido.

Na época seguinte, o Toni foi para o Sevilha.
Olha, perguntavas há pouco por um génio da bola. Disse-te Chalana e, entretanto, já descobrimos o Zidane. Dou-te outro: Suker. Que jogador. Estrela mesmo.

Um Sevilha confuso, não?
Quando lá cheguei, o clube estava mergulhado numa crise com a descida de divisão. De repente, a força popular daquela gente devolveu o clube à 1.ª e a Liga passou de 20 para 22 clubes. Na estreia, jogámos em casa com o Tenerife do Jupp Heynckes. Não tinha sido esse o sorteio mas, pronto, adiante. Estamos empatados 0-0 até aos 90 minutos, quando um defesa nosso chamado Jiménez mete a canela à bola e faz autogolo.

Começa o calvário.
Fui despedido à oitava jornada, no meu dia de anos: 14 Outubro. Perdemos 3-0 em casa com o Espanyol, treinado pelo Camacho, vê lá bem. Nem tudo foi mau, atenção. Ainda hoje, tenho uma placa do Sevilha com os jogadores que lancei da equipa B.

Boa, boa. Quem são eles?
Uns quantos: Carlitos, um extremo baixinho, rápido e bom de bola. O Salva, outro. E este chegou à selecção espanhola. Não me lembro dos outros. Tenho a placa na minha casa da Aroeira. Se estivesse lá, dizia-te todos. E ainda tínhamos o Suker, o Oulida, um holandês do Ajax, mais o Peixe. Só que o Peixe, por exemplo, estava lesionado. E o Suker, sozinho, não podia ganhar os jogos todos.