“No matter how, temos de agarrar o Queiroz” /premium

25 Junho 2018

O iraniano Ali Daei é só o maior. Ninguém no mundo marca tantos golos como ele a nível de selecções (109). E ninguém no mundo consegue interromper o treino do Irão como ele

Frankfurt, 17 de Junho. Entre os 46 jogadores de Portugal e Irão para o Mundial-2006, só um se mantém em prova (Ronaldo). Um e meio, vá. Porque Ali Daei é suplente desse 2-0 e está agora aqui bem perto de nós. Já perto dos 50 anos, o icónico avançado surpreende o treino do Irão e provoca um rebuliço engraçado entre os jogadores, sejam os mais novos ou os já veteranos. Ali Daei é Ali Daei e vice-versa, como diria o outro.

Dono de um recorde inultrapassável de 109 golos pela selecção (Ronaldo ainda tem 85), Ali Daei mantém a forma e esbanja charme entre os presentes, Carlos Queiroz incluído. A admiração é mútua. Espera lá, 109 golos. Como assim? Ali Daei começa a marcar em Junho de 1993 e só pára em Março de 2006. Pelo meio, dez bis, cinco hat-tricks, quatro póqueres e um penta (7-0 ao Sri Lanka). Dos 109 golos, cinco vs Europa (Bósnia-3, Ucrânia, Macedónia), quatro vs América do Norte e Centro (Canadá, Panamá, Costa Rica, México), dois vs América do Sul (Paraguai, Equador), dois vs África (Togo, Egipto) e o resto aos asiáticos. Os melhores clientes? Maldivas e Laos, oito cada. O melhor desempenho? Quatro à Coreia do Sul nos quartos de final da Taça Ásia 1996. Ali Daei, senhoras e senhores. Ei-lo ao vivo e a cores, numa rápida entrevista de onze minutos entre inglês e persa.

Com que idade se apercebeu do jeito para o futebol?
Desde muito cedo. Comecei a jogar nas ruas, como qualquer criança, e entusiasmei-me. A minha primeira memória é uma bola de futebol, portanto só podia dar jogador.

Do que se lembra da primeira participação do Irão no Mundial, em 1978?
Tinha nove anos e lembro-me perfeitamente dos jogos de madrugada no Irão. Pedia à minha mãe para acordar-me a meio da noite, ahahahah.

Quando é que se estreou pelo Irão?
Em 1993, com o Paquistão, para um torneio em Teerão. Só tinha 23 anos e jogava no Persepolis.

Como é que se sente quando olha para o seu currículo e vê 109 golos?
Um sonho, tudo continua a ser um sonho. Incrível.

Qual a maior alegria ao serviço do Irão?
A qualificação para o Mundial-1998, no playoff com a Austrália. Na segunda mão, em Melbourne, estávamos a perder 2-0 até aos 75 minutos e empatámos 2-2 aos 79′. Foi uma alegria imensa, a maior de todas, sem dúvida alguma.

E a maior deceção?
Talvez aquele jogo com o Bahrain, para o 3.º e 4.º lugares da Taça da Ásia-2004. Fomos eliminados pela China nos penáltis e o Bahrain já foi jogado com esforço.

Qual a melhor proposta recusada?
Tive algumas, sim. As mais importantes da Premier League. Só que, como estava sem contrato, o negócio nunca se fez [no Irão, não há contratos entre clubes e futebolistas; daí que seja um mercado por explorar, verdade? sem contratos, não há cláusulas de rescisão; sem cláusulas, cadê os empresários? aaaaargggghhhhhhhhhhh].

No Bayern, treinou com Kahn, Effenberg, Matthäus, entre outros. Que tal?
Foi a maior experiência de sempre, estar ali rodeado de quase toda uma seleção alemã. Só foi pena ter-me aventurado na Europa um pouco tarde, aos 27/28 anos. Se fosse mais cedo, teria outro tipo de sorte. Mas ir para o Bayern fez-me crescer, num clube formidável, cheio de craques mundiais.

"Queiroz mudou a nossa selecção para melhor e o seu trabalho foi notável, com duas qualificações seguidas, algo nunca visto. E duas qualificações tranquilas, sem sobressaltos, o que é também inédito."
Ali Daei

Segue-se o Hertha Berlim, porquê?
Acredita, a proposta do Hertha era superior à do Bayern. Como não tinha espaço no Bayern, com tantas individualidades notáveis, acabei por jogar no Hertha e foi onde me destaquei. Joguei muito na Liga dos Campeões e marquei muitos golos [um célebre ao Chelsea, a garantir a vitória por 2-1, e outro famoso ao Milan num 1-1 em pleno Giuseppe Meazza]

Qual é a sua opinião sobre Carlos Queiroz?
Queiroz? Mudou a nossa selecção para melhor e o seu trabalho foi notável, com duas qualificações seguidas, algo nunca visto. E duas qualificações tranquilas, sem sobressaltos, o que é também inédito. Além disso, apresentou-nos jovens de valor, foi buscar recursos que desconhecíamos a equipas menores. É um trabalho de base fantástico. No matter how, temos de agarrar o Queiroz por mais anos.

O que espera deste Mundial?
A mensagem é sempre a mesma: confiança para grandes cometimentos. Tudo dependia do primeiro jogo. Se ganhássemos a Marrocos, era uma coisa. Se perdessemos, era outra. Agora só falta incomodar Portugal e Ronaldo. Vamos a isso, ahahahahah.

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