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Liga dos Campeões

Liga dos Campeões. Jogar nas nuvens e adormecer no inferno

Benfica vencia Besiktas por 3-0 ao intervalo, com golos de Guedes, Nelson Semedo e Fejsa. Na segunda parte, os turcos reagiram e engoliram os encarnados: 3-3. Luz será o palco da decisão vs. Nápoles.

Aboubakar, avançado emprestado pelo FCP, fez o 3-3 aos 89'

AFP/Getty Images

Autor
  • Hugo Tavares da Silva

Foi aos 53 minutos que um argentino vestiu a pele de Rui Costa, Kaká, Giancarlo Antognoni ou um outro camisola 10 qualquer. Salvio, que já tinha estado em destaque noutros golos, isolou Mitroglou e o grego já sorria a pensar no 4-0. Fabrício, o ex-guarda-redes do FC Porto, saiu-se bem, mas aquela bola é já típica para o avançado helénico, que gosta de a tocar como se fosse um top spin no ténis de mesa, como Henry fazia tão bem. A bola, caprichosa, saiu ao lado. Muito, muito poucos centímetros separaram-na de um beijo suave ao poste direito. Rui Vitória colocou a mão na face, como que sentindo que aquilo ia fechar as contas. Seria o quatro-zero. Não foi e o Besiktas acabaria por recuperar: 3-3.

Do céu ao inferno, foi assim o jogo em Istambul, que prometia a primeira vitória em solo turco para os encarnados. Uma primeira parte de sonho, com três golos de Gonçalo Guedes, Nelson Semedo e Fejsa, transformar-se-ia num pesadelo, com rezas pelo meio para o apito final chegar. Claro que isto fez lembrar aquela final da Liga dos Campeões épica, em que o Milan vencia o Liverpool por 3-0 ao intervalo. Os ingleses acabariam por virar e vencer nos penáltis, com Dudek a ser o super-herói. “O futebol é isto”: ahhhh, o cliché sempre aqui à beira do pensamento…

Fejsa voltou ao onze de Rui Vitória. O sérvio não jogava desde 1 de novembro, altura em que se magoou com o Dinamo Kiev, na Luz, na véspera de uma ida ao Dragão. O Benfica transforma-se com o sérvio: ganha agressividade e um homem que vale por dois a fechar espaços. Ederson também recuperou a titularidade.

A coisa começou bem para os visitantes, que viram um remate de Eliseu, logo aos três minutos, a esbarrar no poste da baliza do Besiktas. O golo surgiu sete minutos depois, por Gonçalo Guedes. O avançado aproveitou uma aventura (falhada) de Salvio para fintar o guarda-redes e empurrar para a baliza deserta, 1-0. Guedes tem crescido muito. Já não se sente um garoto entre graúdos. Sabe que é mais um e que pode ser importante.

Apesar dos avisos dos rivais, seria o Benfica a marcar novamente. E com categoria, senhoras e senhores. Salvio investiu numa diagonal da direita para o centro e requisitou uma tabela com Nelson Semedo, que por ali andava no meio a fazer lembrar os laterais de Pep Guardiola, que têm permissão para vadiar na cancha. O lateral enganou toda a gente, recebeu, virou-se e chutou com a canhota. Um golaço, 2-0.

À meia hora de jogo o Benfica chegou ao terceiro golo da noite. Desta vez, de uma forma hilariante. Foi preciso a bola viajar três vezes até ao ferro da baliza de Fabrício para Fejsa explicar àquela gente como se fazia. Okay, nós explicamos: Mitroglou cabeceou à trave, depois de um belo cruzamento da direita. Na recarga, Mitroglou cabeceou… à trave. Oi? A sério. Para ajudar à festa, Salvio cabeceou e… bola no poste. Hein!? Sem brincadeiras, foi mesmo assim. Até que apareceu o regressado Fejsa, para fazer a bola envolver-se com as redes da baliza turca. Três-zero e já se pintava a primeira vitória dos encarnados na Turquia.

O futebol dos visitantes enchia o campo. Era ousado, arriscado, tinha categoria. O Benfica conseguia fazer o que provavelmente é o mais difícil fazer no futebol: jogar e mover-se entre linhas, como se diz agora, jogando em triângulos. Os homens de branco ficavam especados a vê-los jogar. Estava fácil. E bonito. Intervalo em Istambul.

Benfica's Ljubomir Fejsa (2R) celebrates with his teammates after scoring a goal against Besiktas during the UEFA Champions League Group B football match between Besiktas Istanbul and Benfica Lisbon at Vodafone arena on November 23, 2016 in Istanbul . / AFP / OZAN KOSE (Photo credit should read OZAN KOSE/AFP/Getty Images)

Fejsa festeja o 3-0 com os seus companheiros (OZAN KOSE/AFP/Getty Images)

A segunda parte até começou com duas oportunidades para o Benfica, por Fejsa e Salvio. Depois, aos 53 minutos, a tal oportunidade com que começa este texto. Mitroglou falhou, isolado, e cancelou o quatro-zero. Seria aqui que tudo mudaria. Foi o turning point, assim mesmo, em inglês, para parecer mais cool. E dramático.

Bastariam cinco minutos para o Besiktas reduzir, cortesia de Tosun. O médio esquerdo, destro, aplicou uma remate à Majder do futebol de praia e enganou Ederson pela primeira vez. Foi um senhor golaço! Os turcos continuariam fortes, a jogar mais e melhor, com mais intensidade na procura pela bola. O Benfica estava desligado, parecia adormecido. Inler, um ex-Nápoles e ex-Leicester, ajudava a serenar a bola nos pés dos turcos. Por esta altura, já estavam em campo Rafa e Samaris. Vitória estava preocupado.

Besiktas' Portuguese midfielder Ricardo Quaresma (L) celebrates with teammate Cameroonian forward Vincent Aboubakar (R) after scoring a goal against Napoli during the UEFA Champions League football match between Besiktas and Napoli at the Vodafone Arena Stadium on November 1, 2016 in Istanbul. / AFP / OZAN KOSE (Photo credit should read OZAN KOSE/AFP/Getty Images)

Quaresma celebra o 3-2, de penálti (OZAN KOSE/AFP/Getty Images)

E bem. Aos 83′, o braço de Lindelof obrigou o árbitro a apitar para penálti. Ricardo Quaresma assumiu, fez um acordo com o poste, para empurrar a bola para dentro em vez de a cuspir para fora, e celebrou o 3-2. Estava muuuuito perigoso o jogo. Era óbvio que aquilo ia acender ainda mais os adeptos do Besiktas, que precisam de pouco para puxar pela sua equipa com uma paixão louca.

Claro que os fantasmas da Luz soaram na cabeça de muita gente. Na primeira jornada do Grupo B, o Benfica vencia já depois dos 90 quando Talisca bateu um livre direto e selou o um-um. Foi galo. Podia acontecer o mesmo filme outra vez, mas sem o brasileiro como estrela principal. O canhoto está lesionado. Mas foi uma cara conhecida a imitá-lo. Aos 89′.

As bolas continuavam a voar na área do Benfica, que estava com as anti-aéreas frouxas. As pernas idem. As ideias já não existiam. Não se faziam quatro passes seguidos, a baliza rival era uma miragem. Até que, a um mero minuto dos 90, a bola pingou na área — Eliseu e Lindelof facilitaram — e Aboubakar aproveitou para fazer o 3-3. O avançado emprestado pelo FC Porto imitou portanto o que fizera no ano passado na Luz, embora nesse caso tenha dado a vitória aos dragões.

Ponto final em Istambul. Ele há coisas: de 3-0 para 3-3 foram 58 minutos de distância. O Benfica quebrou, talvez tenha achado que a vantagem era gorda o suficiente e que bastava defender, esquecendo-se de jogar. Ou então foram as pernas, que traíram os jogadores de vermelho. Seja como for, o fado das águias será decidido no Estádio da Luz, dentro de duas semanas, contra o Maradona FC. Perdão, contra o Nápoles de Hamsik.

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