“Afinal o que é isto da black friday?”, ouve-se perguntar na Rua Nova do Almada, em Lisboa. O relógio marca nove horas da manhã e as lojas do Chiado já estão a abrir as portas — uma hora mais cedo do que o habitual — para dar as boas-vindas à sexta-feira negra. Nas montras não faltam anúncios de descontos de 20% em toda a coleção com cores fluorescentes e letras bem grandes. Um bom prenúncio da tradição importada dos Estados Unidos da América que já contaminou o comércio em Portugal com reduções até 40% em todas as compras e até 80% em artigos selecionados. Uma minoria entra nas lojas com uma lista de compras definida e com as respetivas referências, os outros passam com indiferença pelas promoções. A esta hora a Rua Garrett está praticamente vazia e ninguém diria que estamos numa das zonas de compras mais importantes da capital — especialmente em dia de black friday.

“Agora abrem mais cedo?”, pergunta uma cliente atenta à entrada da Zara. “Não, foi só hoje para dar resposta ao fluxo de clientes que temos neste dia”, responde a funcionária. Para tal, as lojas do grupo Inditex reorganizaram as equipas para aumentar o número de lojistas, colocaram vários cestos de compras à entrada e criaram um sistema chamado sizing point para guardar os pedidos de clientes que vêm diretos do armazém da loja. Na loja online, o caso é outro: vários artigos chegaram mesmo a esgotar a partir da meia-noite e não há previsão de reposição do stock para responder à procura.

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Algumas marcas prolongam os descontos durante todo o fim de semana e englobam as lojas físicas e online com direito a portes grátis. (foto: André Marques/Observador)

Uma hora depois, já sem chuva e com um sol de outono, a movimentação aumenta. Maria Silva, de 18 anos, é um das consumidoras que vagueia de marca em marca em busca dos descontos mais económicos. “Sou estudante e o facto de não ter aulas ajudou para vir logo de manhã e não apanhar muita confusão”, diz ao Observador. “Mas eu não estou à procura de grandes descontos, estou à procura de boas oportunidades”, confessa ainda sem sacos na mão.

A amiga, Rita Martins, é que já não pode dizer o mesmo. “Comprei um casaco que queria e poupei cerca de 8€”, explica. “Estou sempre a seguir os preços para ver se vale a pena e se não estão inflacionados e sei que, pelo menos, esta compra valeu a pena”, diz, respondendo às notícias que alertaram para a possibilidade de uma black fraude em vez de uma black friday.

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Há cada vez mais lojas e marcas a promover até 40% de desconto em todas as compras e até 80% de desconto em artigos selecionados. (foto: André Marques/Observador)

Do outro lado da capital, no Centro Comercial Colombo, a confusão e congestionamento ao início da tarde não mentem: esta sexta-feira é negra. Se nos Estados Unidos, a black friday é sinónimo de milhares de pessoas a atropelarem-se em busca dos descontos que chegam aos 90%, em Portugal começa a ser sinónimo de filas intermináveis em direção aos provadores e caixas de pagamento. Lojas como a Pull&Bear, Stradivarius e H&M estão repletas de estudantes e são poucas as roupas que não estão num monte, viradas do avesso, à espera de serem arrumadas ou vendidas. “O que é que se passa hoje? É feriado ou assim?”, comenta uma família à entrada da Sephora. Tal como muitas das pessoas que passeiam pelo centro comercial às três da tarde, tiraram um dia de férias para fazer as compras de Natal.

Primark à parte — clara vencedora da corrida aos descontos, pelo menos à primeira vista –, não faltam sacos de compras de marcas como a Body Shop, Parfois e Sport Zone a passear pelo Colombo. Três das marcas que, este ano, sentem um maior fluxo e maior recetividade dos portugueses para este tipo de iniciativa, em comparação com 2015.

Ano após ano os dados são cada vez mais reveladores da recetividade dos clientes em Portugal ao conceito black friday. Podemos adiantar, a título de exemplo, que só nas primeiras horas da black friday as visitas ao site da Sport Zone aumentaram mais de 200%. E se verificarmos os dados comparativamente com o ano anterior, podemos afirmar que registamos também um crescimento bastante significativo”, afirma uma fonte da marca ao Observador.

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Lojas como a Forever 21, Stradivarius e Zara ofereceram cerca de 20% de desconto em todas as compras. (foto: André Marques/Observador)

Escusado será dizer que para os vendedores a black friday é a oportunidade perfeita para renovar o stock e, para os consumidores, o primeiro dia de compras de Natal que alia poupança ao consumo. Prova disso são os oito sacos grandes que Elena Borges carrega pelo centro comercial. “É a primeira vez que adiro à black friday e aproveitei para despachar as compras de Natal. Fiz uma lista de compras e aproveitei em várias lojas cerca 20% de desconto em todas as compras”, afirma a reformada de 69 anos. E quanto é que poupou? “Ainda não fiz contas, não vai ser uma grande diferença porque os artigos que comprei não são de valor elevado mas é sempre algum que se poupa. Partindo do princípio que os preços não foram aumentados para agora fazerem o desconto, mas isso é outra história.”