Estar triste e aproveitar a tristeza parece ser típico dos portugueses. Quando se pergunta a um português se está bem, a resposta mais usual é um “mais ou menos”. Mas desengane-se quem pensa que isso é mau. É que o povo português tira o melhor proveito possível da sua tristeza.

O mais recente relatório da União Europeia sobre felicidade, o World Happiness Report, coloca Portugal no 93º lugar do ranking de felicidade entre 157 países. A BBC foi à descoberta da melancolia portuguesa, que tem os seus benefícios.

O psicólogo australiano Joseph Forgas descobriu, em 2008, que a tristeza melhora a memória. Em dias cinzentos, as pessoas recordam as coisas com maior detalhe do que aquilo que sucede nos dias mais agradáveis. Outro estudo revela que a tristeza também pode servir como “detetor de mentiras”, uma vez que quando temos sentimentos negativos julgamos melhor as situações e os outros.

A saudade e o fado

A nostalgia é própria dos portugueses ou não tivéssemos nós a palavra “saudade” e o fado que canta as mágoas da nação. A “tristeza alegre” de Portugal está contida numa só palavra: Saudade. A palavra que não se traduz mas que se pode tentar explicar como a dor da perda, do sentir falta de uma pessoa, de um lugar ou de um momento. A psicóloga Mariana Miranda afirma que a tristeza é uma parte importante da nossa vida, tal como a alegria. Tudo faz parte. Pelo que não compreende como é que alguém pode evita-la.

Eu quero sentir tudo de todas as formas [assim como Álvaro de Campos]. Porquê fazer uma pintura apenas com uma cor?

Mariana Miranda diz que evitar a tristeza “diminui-nos” e que “há na verdade muita beleza na tristeza”. Os portugueses têm muito a ensinar sobre a beleza escondida na melancolia, que pode estar presente na comida e na música.

O cozinheiro José Prata, que trabalha no Mercado da Ribeira, em Lisboa, criou uma linha agridoce de chocolates chamada “Saudade” e explica que “até se pode sentir saudade de uma galinha, mas tem de ser da galinha certa”. Segundo José Prata, o que torna a saudade tolerável é o facto de poder ser partilhada. Até na mesa.

Os portugueses também adoram ouvir música triste e não é por acaso que inventaram o fado. Mas este tipo de música tem os seus benefícios. Investigadores da Free University of Berlin, Stefan Koelsch e Liila Taruffi, publicaram um estudo que revela que a música triste regula o humor e ajuda à imaginação.

O fado surgiu há quase dois séculos, nos bairros da classe trabalhadora de Lisboa, e começou por ser interpretado por prostitutas e pelas mulheres dos pescadores, que podiam ou não voltar do mar, ou seja, por pessoas que sofriam. Fado significa “destino” e os portugueses são um povo que acredita que o seu destino está traçado e que não há como fugir dele, por mais cruel que se mostre.

O fadista amador Marco Henriques explica que qualquer um pode cantar fado, não é preciso ter um vozeirão pois “o fado vem do coração”. Já uma das mais conhecidas fadistas da atualidade, Cuca Roseta, afirma que o fado é “um presente das tuas emoções e é muito íntimo”.