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Todos os países estão a beneficiar dos preços do petróleo mais reduzidos e dos juros baixos proporcionados pela política agressiva do Banco Central Europeu (BCE). Mas alguns países estão a crescer mais rapidamente do que outros porque as decisões políticas recentes foram diferentes de país para país, afirma Mario Draghi. Porque é que Espanha está a crescer mais de 3% (ao passo que Portugal conseguiu 1,6%, em termos homólogos, no terceiro trimestre)? “Espanha fez reformas e reparou o setor bancário mais rapidamente do que os outros, o que se provou ter sido algo crucial“, afirma o presidente do BCE.

Em entrevista ao El País, feita em Frankfurt em antecipação a uma visita, hoje, de Draghi a Espanha, o presidente do BCE defende que “Espanha está a sair da crise mais rapidamente porque fez mais reformas estruturais” do que os outros países. Isso ajudou o país-vizinho, diz Draghi, a corrigir a perda de competitividade da economia que, em Espanha e em vários outros países, foi um dos problemas que se acumularam na década de 2000 e que levaram à crise.

Mario Draghi diz que os países não podem esquecer-se de corrigir problemas de competitividade e de manter as contas públicas em ordem — o que passa não só por cumprir os limites máximos do défice mas, também, por “manter margens de segurança” que permitam acudir à economia em períodos de crise mais aguda. Só dessa forma poderá haver “confiança” entre os Estados-membros de que as regras serão cumpridas porque, como lembra Mario Draghi, a zona euro é uma estrutura baseada em regras, não tanto em instituições. “Só se existir confiança entre os países poderemos caminhar no sentido de maior integração“, avisa o italiano à frente do BCE.

Draghi estancou a escalada da crise do euro, no verão de 2012, prometendo fazer “tudo o que for necessário” para salvar a moeda única. E, depois, foi o rosto de outra decisão inédita, no início de 2015, de lançar um programa inédito de compra de dívida que está a ser decisivo para a “retoma robusta” que Draghi diz existir na União Europeia. Agora, Draghi diz que não gostaria de ter de intervir uma terceira vez para evitar o colapso: “espero que não“, diz Mario Draghi, ao El País.

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Espero que não. A crise resultou em tempos muito difíceis para toda a gente. Aprendemos, espero eu, as lições e a agenda de política económica foi desenhada com base nessas lições”

Um relatório recente do BCE indica que a zona euro está em risco de um “choque grave”, em parte devido à incerteza eleitoral em vários países. Na entrevista ao El País, Mario Draghi lamenta que “a incerteza política é um fator dominante“. “A questão é saber quanto é que esta incerteza política vai afetar a recuperação económica”, afirma o presidente do BCE, que defende que, no que aos bancos diz respeito, eles estão muito mais bem capitalizados do que estavam antes da crise.

Mas há quem critique as medidas do BCE e acuse o banco central de estar a fazer mais mal do que bem quando mantém os juros baixos (ou mesmo negativos, retirando rentabilidade aos bancos). Mario Draghi responde às críticas dizendo que “estamos conscientes de que as taxas de juro baixas afetam as margens de rentabilidade de alguns bancos, mas também têm efeitos positivos para a rentabilidade dos bancos porque [as taxas de juro baixas] suportam a recuperação económica, reduzindo as imparidades no crédito e aumentando o valor dos ativos”.

Além disso, diz Draghi, “também não podemos negar que existem pessoas, como reformados sem dívida que arrendam casas, que podem ser penalizadas pelas taxas de juro baixas. A única resposta honesta que posso dar é que as taxas de juro baixas são essenciais para a recuperação da economia, e quando essa recuperação for atingida, as taxas de juro vão subir”.