Anthoine Blanker é um avançado de 20 anos de idade. Sem possibilidade de se impor no Ajax, assina pelo Vitória. Em Guimarães, às ordens de José Maria Pedroto, até nem se dá mal para um miúdo e marca oito golos em 28 jogos na 1.ª divisão nacional. É ele o primeiro holandês em Portugal, na época 1980-81. Seguem-se outros holandeses, como o extremo-esquerdo Peters (Espinho 1983-84) e o central Flóris (Olhanense 1986-87). O Sporting só aposta num jogador desta nacionalidade em janeiro 1987, quando contrata um avançado de 1,89 metros aoGroningen. Chama-se Petrus Johannes Houtman e chega a Alvalade com um título de melhor marcador da liga holandesa (1983) e sete golos em oito jogos pela seleção holandesa. Seguem-se-lhe Wolfswinkel e Bas Dost. A Holanda é o que está a dar, ainda por cima com a jogada Zeegelaar-Bas Dost no golo da vitória no Bonfim (1-0), para os 1/8 final da Taça de Portugal.

Ho-lan-da. Vamos lá então falar com um holandês. Hans van Breukelen. Se este nome não lhe soa familiar, pense em Veloso. Já está? Pois é, Van Breukelen é o guarda-redes do PSV Eindhoven na final europeia 1988. É ele quem impede o Benfica de se sagrar campeão europeu. Um momento inesquecível: Veloso corre para a bola, hesita ligeiramente, volta a correr e atira com o pé direito para o seu lado esquerdo. Van Breukelen lança-se e defende. É isso? Só isso? Não, claro que não. Van Breukelen tem uma memória de elefante e é o maior. Mesmo.

Hans Van Breukelen?
Sou eu mesmo, quem fala?

Rui Miguel Tovar, do Observador. Falámos em 2011 por ocasião do PSV-Benfica para a Liga Europa.
Claro que sim, Rui. Estás bom?

Ouço é mal.
Deixa-me desligar o som do carro, se faz favor.

[refrão da música “Fernando”] Isso é ABBA?
Com certeza.

Gostas?
Se gosto? Quem não gosta? ABBA é do best. “Waterloo”

“Chiquitita”
“Dancing Queen”


“Mamma mia”


“Take a Chance on Me”, “Voulez-vous”, “The Winner Takes It All”.

Desisto, és muito forte neste jogo.
Se quiseres, também fazemos para o Phil Collins. Ou para o Lionel Ritchie.

Errrrr, é melhor não. Só conseguiria para Queen.
Niiiiiiiiiiiiice, gosto muito também. Não tenho é nenhum CD deles aqui no carro. Uma pena. No próximo telefonema, quem sabe?

Isso é que era. Van Breuk…
Trata-me por Hans, se faz favor. É mais pessoal, ok Rui?

Muito bem. Hans, tenho uma pergunta pessoal para te fazer.
Go ahead.

Sabes que te conheci em 1992, durante a gala da Bola de Ouro?
Em Lisboa?

Exactamente, no Hotel Altis.
Sure, sure. Já me lembro.

[Tu queres ver?]
Lembro-me da gala e do hotel, não de ti. Ahahahahahah

[c’um caneco, lá se foi a esperança]
Foi a gala em que o Van Basten ganhou a terceira Bola de Ouro.

Pois, eu fui ao hotel para conhecer o meu ídolo.
Quem, eu?

[payback time] O Van Basten, ahahahahahahah.
Fair enough, nem vou argumentar. O Van Basten é um fora de série. Aquele golo na final do Euro-88 é um must.

Lembras-te?
Se me lembro? Mafriend, fui um espectador privilegiado daquele vólei. Ninguém viu aquele golo como eu.

Conta lá.
Aquilo não foi espectacular, nem fenomenal, muito menos extraordinário. Foi tudo isso elevado sei lá eu a quanto. Ficámos todos malucos. É bom quando se vê em campo o que praticámos nos treinos.

What?
Ahhhhhhh pois! O Van Basten fazia aquilo nos treinos da Holanda. Queríamos todos tomar banho, ele pedia-me para ficar à baliza, chamava quem quer que fosse para lhe cruzar a bola pouco depois do meio-campo e lá ia ele rematar daquele ângulo apertado. Ele foi aperfeiçoando esse gesto. É claro que tudo lhe saiu perfeito naquela tarde, mas isso também já acontecia de vez em quando nos treinos. E eu ali, tipo boneco, a levar com as bolas. Nesse dia, foi o Dasaev. Livrei-me de boa.

Como é que a Holanda campeã europeia em 1988 é eliminada nos oitavos do Mundial-90 e não chega à final do Euro-92?
Em 1988, éramos uma grande e feliz família. Primeiro, estava a equipa. Depois, o indivíduo. Em 1990, já não foi assim. Alguns jogadores já jogavam para eles próprios. Em 1992, tivemos azar nas meias-finais com a Dinamarca. Eu não consegui defender nenhum penálti e, para cúmulo, o Schmeichel adivinhou o remate do Van Basten.

Como é que ele estava depois desse falhanço?
Não é preciso dizer, nem se explica por palavras. Tu imaginas, não imaginas?

Sim.
Agora potencia isso ao exagero e talvez entendas a frustração dele.

Pois. E tu, tens 11 títulos na carreira e só começas a ganhar nos thirtysomething. Qual foi o segredo?
Tens razão, fui um trintão sortudo. Comecei no Utrecht, onde nasci, e lá fui aos poucos, sem ser muito exuberante. Aos 20 anos, na primeira época, só fiz um jogo. Aos 21, mais seis. Aos 22, afirmei-me como titular.

Saíste do Utrecht aos 26. E logo para Inglaterra. Como é que um jogador, seja holandês ou o que for, troca de país em 1982?
Entendo a tua pergunta, Rui. Foi um movimento atípico mas a oportunidade surgiu e tinha de a aproveitar. Fui para o Nottingham Forest, que se sagrara campeão europeu em dois anos seguidos, 1979 e 1980, para substituir o grande Peter Shilton [de malas aviadas para o Southampton] e para trabalhar sob as ordens de Brian Clough, um carismático treinador inglês, ainda hoje reconhecido em todo o mundo.

Nessa altura, o campeonato inglês já era como hoje o vemos, com os estádios cheios, os adeptos a cantar, apoiar e aplaudir?
Sim, sim. Aliás, a minha transferência do Utrecht para o Nottingham Forest também se deveu a essa alegria de espírito. Quando regressei à Holanda, dizia sempre que podia que aquele silêncio era confrangedor. Os ingleses é que sabem divertir-se num jogo de futebol.

E porquê o regresso à Holanda?
Olha Rui, voltei a casa uns dois anos depois, porque o PSV Eindhoven chamou-me e sobretudo porque o meu sonho era chegar à seleção holandesa.

Mas o Nottingham Forest proibia-te?
Sim.

Whaaaaat?
É verdade. O Brian Clough proibia-me de ir à selecção. “Para quê ir à seleção, com o risco de te lesionares, se quem te paga o ordenado somos nós?”, perguntava-me, meio afirmativamente. Mas tudo bem, na boa. Diverti-me imenso em Nottingham, absorvi toda aquela mística, substitui o grande Peter Shilton e cheguei às meias-finais da Taça UEFA em 1983-84. Só não fomos à final porque o Anderlecht ganhou-nos a segunda mão por 3-0, depois de ter perdido em Nottingham por 2-0. Anos depois, a UEFA descobriu que o árbitro do segundo jogo foi aliciado. Comprovou-se corrupção mas já não se podia fazer nada.

E regressas à Holanda em 1984?
Sim, para o PSV.

Só cinco anos depois é que te transformas uma figura pública.
Ahahah, boa, boa.

Em 1988, defendes o penálti de Veloso (Benfica) na final da Taça dos Campeões em Estugarda e ainda o de Belanov (URSS) na final do Europeu de seleções em Munique. Penálti master, e em território inimigo (Alemanha). Há alguma explicação para esses dois momentos?
Há, e não é nenhuma ciência. Quer no PSV quer na seleção, tínhamos um adjunto que estudava todos os pormenores dos adversários. Nos penáltis, eu já sabia mais ou menos a técnica dos marcadores. Só para veres, adivinhei os remates de Elzo e Hajry. Quando chegou o do Veloso, eu sabia que ele atirar para aquele lado, àquela velocidade.

Como?
No Verão anterior, em 1987, o Benfica foi a penáltis com o Deportivo no Teresa Herrera, um famoso torneio de Verão. Pelo menos, acho que foi esse torneio. O Benfica ganhou ao Everton nos penáltis e também ganhou a final nos penáltis, ao Deportivo. Nesse desempate, o Veloso falhou um penálti, para defesa do guarda-redes. Da mesma forma que falhou com o PSV. Para a minha direita, com a bola quase rasteira.

E o penálti do Belanov?
A mesma coisa, a mesma ciência, entre aspas claro. Baseámo-nos num penálti que ele tinha marcado no Mundial do México, dois anos antes. Se não me engano, foi à Bélgica. Remate forte, para a direita do guarda-redes, como o Veloso, mas com força. Nesse caso, era preciso estar no sítio certo, ainda antes de a bola cair lá. Foi o que aconteceu. Mal o árbitro apitou e o Belanov começou a correr, mergulhei com convicção para o meu lado direito e a bola bateu-me nos punhos.

Costumas ver essas finais em vídeo ou DVD?
Estás a brincar? Claro que sim. Todos os anos.

E isso deixa-te orgulhoso?
Claro que sim. Repara, tinha 32 anos. Quando uma pessoa passa uma carreira inteira a subir, a subir e depois vê todo o esforço recompensado , é uma sensação única. Estava no céu. Sobretudo com a defesa do penálti do Veloso. Significou uma taça. Literalmente. Mas o que me orgulha mais é a reação do Van der Sar, quando defende o penálti do Anelka em 2008, que dá a Liga dos Campeões ao Manchester United. Ele foi o herói e, ainda no relvado ou no balneário, já não me recordo bem, disse que eu tinha sido a sua inspiração. Que ele [Van der Sar] tinha-se lembrado de mim, porque defendera o remate do Veloso. Isso foi o mais importante. Mexeu comigo, sabes? Emociona-me.

De volta aos teus tempos no PSV.
Sabes o que me aconteceu no regresso à Holanda?

Nem ideia.
Defendi dois penáltis do Sporting. Vai lá ver esse jogo aos jornais: PSV-Sporting em agosto 1984.

Do Sporting?
Num torneio de Verão em Madrid.

De quem?
Durante o jogo, defendi um penálti do Virgílio.

Outro lateral-direito, chi-ça. E depois?
Aquilo era um torneio estranho, todos os jogos iam a penáltis, mesmo sem empate.

Whaaaat?
Nesse dia, ganhámos 1-0. Golo do Brylle. Aliás, ganhámos esse torneio.

E, mesmo assim, foram a penáltis com o Sporting?
Yup. Defendi o último, já não me lembro de quem [Gabriel, mais um lateral-direito]. Lembro-me é do penálti anterior, marcado pelo guarda-redes do Sporting, um húngaro chamado Katzirz. Queres saber o mais incrível?

Ah pois quero.
Esse desempate de penáltis acabou 4-4. O jogo acabou com vitória para o PSV, fomos para os penáltis e acabou 4-4. Que torneio mais incrível, ahahahah.

Sporting 1984, Benfica 1988. Só te falta o Porto.
Ischhhhhh, isso foi 5-0 em Eindhoven. Que grande noite. Tudo nos saiu bem. Goleámos uma equipa bastante boa, que vencera a Taça dos Campeões no ano anterior ao nosso. No Porto, nas Antas não é? Perdemos 2-0. E com um golo do Rui Águas, não foi? Olha, só agora é que relacionei. Ele esteve na final de maio de 1988 e depois nessa eliminatória, meio ano depois. Engraçado. Mas, como disse, ganhámos 5-0 e decidimos tudo na primeira mão, em casa.

Lembras-te dos golos e tudo?
Yup. Dois do Ronald Koeman, e nenhum de penálti. Ele era tramado. Dois dele, um do Kieft, um do Ellerman e outro do Janssen. Lembro-me da curiosidade de o Romário não ter marcado.

Romário. Pois foi, jogaste com ele. Como é que era?
[ri-se] [continua a rir-se] [não pára de rir] [é agora, ele está mesmo a acabar de rir] [não, afinal não, continua] Esse Romário, eu não sei bem. É um ser humano tão porreiro e é tão irritante [annoying]. Às vezes, apetecia-me beijá-lo, outras esmurrá-lo. A sério. Ele era capaz de virar um jogo do avesso. E também era capaz de virar a nossa vida do avesso.

Beeem, many thanks Hans. Abraço
Rui, o prazer foi meu. Abraço e até à próxima.