As primeiras 72 horas de Trump enquanto presidente dos Estados Unidos foram recheadas de decisões polémicas. Esta terça-feira ordenou um blackout total aos funcionários da Agência de Proteção Ambiental. Segundo a Associated Press, a administração de Trump enviou um email a todos os funcionários da agência a impedi-los de comunicar com jornalistas ou de divulgar informações através dos canais da agência na Internet, e ainda congelou a admissão de novos funcionários.

Mas entre sexta e terça-feira, Trump fez mais. Muito mais. Aprovou a construção polémica dos dois oleodutos no norte do país suspensos por Obama, aprovou a continuação de James Comey à frente do FBI, começou a acabar com o Obamacare, rasgou o acordo comercial com a Ásia e já anunciou a renegociação do NAFTA. Foram 72 horas frenéticas.

James Comey fica no FBI, Mike Pompeo confirmado na CIA

Mike Pompeo já estava na lista de nomeados por Donald Trump como diretor da CIA, mas ainda precisava de ser ouvido e confirmado pelo Senado. No dia da tomada de posse, o Senado adiou para esta segunda-feira a decisão. Resultado: 66 senadores a favor, 32 contra e Mike Pompeo tornou-se oficialmente o novo diretor da agência de informações. E não demorou muito entre a confirmação e a tomada de posse: Pompeo fez o juramento, perante o vice-presidente Mike Pence, na noite desta segunda-feira.

Já no FBI, tudo indica que o atual diretor, James Comey, será mantido no lugar. Segundo o New York Times, Comey já comunicou aos agentes do FBI que Trump lhe propôs que se mantivesse no cargo, continuando o mandato de 10 anos que assumiu em 2013. James Comey tem estado no centro da polémica investigação aos emails de Hillary Clinton, tendo sido criticado tanto por Hillary como por Trump.

Hillary acusou Comey de ter contribuído para a sua derrota com o envio das conclusões da investigação a poucos dias da votação, e Trump… bom, Trump acusou-o de muitas coisas, sobretudo de ser corrupto e de não querer investigar o caso da utilização de uma conta de email pessoal para assuntos de Estado por Hillary Clinton. Entretanto, durante uma receção na Casa Branca às forças de segurança que vigiaram as cerimónias da tomada de posse, Trump e Comey pareceram muito próximos, com Trump a dizer em jeito de brincadeira: “Já é mais famoso do que eu!”.

Construção dos oleodutos avança

É a medida mais recente, resultado de uma intenção de Donald Trump já bem conhecida. O presidente dos EUA assinou esta terça-feira duas ordens executivas que permitem o avanço da construção de dois oleodutos no norte dos EUA — parte do Keystone XL e a fase final do Dakot Access. A construção da quarta fase do Keystone XL tinha sido rejeitada em novembro de 2015 pela administração de Obama, que em dezembro de 2016 suspendeu a construção do Dakota Access. A promessa de Trump estava feita desde 2015:

O Keystone XL é um oleoduto que atravessa partes do Canadá e dos EUA, que funciona desde 2010. A sua construção foi feita em três fases, e havia também uma proposta para construção de uma quarta fase, um novo oleoduto a partir do Canadá que fizesse o caminho através de uma rota mais curta. A proposta foi rejeitada por Barack Obama, afirmando que “aprovar este projeto iria comprometer a liderança” dos Estados Unidos “no que toca a agir seriamente para combater as alterações climáticas”.

Já o Dakota Access é uma conduta de petróleo de 1.885 quilómetros, entre os depósitos do Dakota do Norte e uma infraestrutura no estado do Illinois, a partir da qual se pode dar início à distribuição do crude. A construção arrancou em 2016 e deveria estar pronta em janeiro deste ano, mas o projeto foi muito criticado e a sua construção acabou por ser suspensa pela administração de Obama em dezembro. Inicialmente, foi questionada a utilidade do oleoduto tendo em conta as necessidades energéticas do país e o impacto ambiental da construção da estrutura. Depois, o oleoduto foi também contestado por tribos nativas cujos territórios, considerados sagrados, teriam de ser utilizados para a construção.

Obamacare: o princípio do fim

Entre a parada militar e o baile inaugural, Trump teve tempo para assinar um dos decretos mais polémicos, relativo ao Obamacare, a política de saúde iniciada na administração de Obama. Forte crítico do programa, Trump determinou que, enquanto a revogação não avança totalmente (ainda precisa de ser negociada no Congresso), tudo deverá ser feito para que a aplicação do programa seja diminuída ao mínimo.

“Até aos limites permitidos pela lei, o Secretário da Saúde e Serviços Humanos e os líderes de outros departamentos executivos e agências, com autoridade e responsabilidades ao abrigo do Ato [Obamacare], deverão exercer toda a autoridade e discernimento para isentar, protelar, garantir exceções ou atrasar a implementação de qualquer exigência do Ato que imponha um fardo orçamental a qualquer estado”, lê-se no documento. Trocado por miúdos: enquanto não der para abolir, a ordem é para tentar não aplicar.

NAFTA. Arrancam as renegociações com México e Canadá

“Vou renegociar o NAFTA. Se não conseguir fazer um excelente acordo, vamos ter de o rasgar. Vamos pôr esta economia a andar outra vez”. O prometido é devido, e Trump só precisou de um dia para anunciar o início da renegociação do tratado de comércio norte-americano (entre EUA, México e Canadá). O presidente norte-americano recebe Enrique Peña-Nieto, o presidente mexicano, no dia 31 de janeiro, e deverá estar para breve um encontro com o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau.

Acordo comercial com a Ásia rasgado

Logo na segunda-feira, Donald Trump assinou um decreto a cancelar o acordo Transpacífico, um acordo comercial entre doze países, incluindo os EUA, o México, a Austrália, o Japão e mais um conjunto de países asiáticos. Negociado ao longo de vários anos e assinado em 2015 por Barack Obama, o tratado nunca chegou a ser aprovado pelo Congresso, pelo que não teve efeitos concretos nas relações entre os EUA e a Ásia.

ONGs que promovam o aborto perdem financiamento público

Também na segunda-feira, Trump assinou um decreto a congelar o financiamento público das organizações não-governamentais que promovam o aborto, incluindo muitas organizações internacionais que apoiam as populações de países pobres. De acordo com o New York Times, os EUA são o maior financiador do mundo de organizações de planeamento familiar, pelo que esta decisão vai obrigar muitas organizações a ter de escolher entre o financiamento e o apoio ao aborto.