“Este livro trata-se de uma prestação de contas e não de um ajuste de contas. Este livro não é escrito contra ninguém.” As palavras de Manuel Braga da Cruz, ex-reitor da Universidade Católica e o responsável pela apresentação do livro de Cavaco Silva, resumiam bem o impacto que a primeira leitura da obra causou: Quinta-feira e outros dias está recheado de revelações e considerações pouco simpáticas para José Sócrates, um homem que Cavaco Silva começou a ver com crescente desconfiança, à medida que o eixo Belém-São Bento se ia deteriorando. É a inédita narração do ex-Presidente da República sobre os encontros com José Sócrates e o relato de como uma relação que começou com promessas de “cooperação silenciosa” terminou com acusações de “falta de lealdade institucional”. A primeira vez que Cavaco Silva conta a sua “narrativa”. Uma versão da história que deixa José Sócrates muito mal na fotografia.

E se era o ex-Presidente da República quem apresentava o livro, era o nome de José Sócrates que estava na cabeça da maioria das presentes que encheram a sala Almada Negreiros, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. “O professor não vai precisar que ninguém lhe compre exemplares”, comentava discretamente um dos convidados. Por muito que Manuel Braga da Cruz o negasse, este parecia ser o momento de ajuste de contas de Cavaco Silva com o passado.

O antigo Chefe de Estado seria institucional, como sempre fez gala de ser, de resto. Sobre José Sócrates, nem uma palavra. Nem era expectável que assim fosse. “Sempre fiz questão de prestar contas dos cargos públicos que exerci. O mesmo acontece agora. Este livro é, em primeiro lugar, uma prestação de contas aos portugueses pela forma como exerci as funções de Presidente da República”, começou por dizer Cavaco Silva.

O ex-Presidente da República repetiria a expressão “prestação de contas” pelo menos mais três vezes. Na plateia, os seus colaboradores mais fiéis, de Leonor Beleza a João de Deus Pinheiro, passando por Couto dos Santos ou Teresa Patrício Gouveia, assim como vários membros da sua Casa Civil, ouviram-no dizer com clareza: “Sem esta prestação de contas ficava incompleto o conhecimento de um tempo bastante complexo da vida nacional”.

O tempo complexo a que se referia Cavaco Silva foi o período que antecedeu e acompanhou o escândalo das alegadas escutas em Belém, no verão de 2009, a crise económica e financeira, o chumbo do PEC IV, a queda de José Sócrates e o pedido de resgate.

O Presidente da República, que chegou ao cargo com a aura de economista — e “não-político”, como sempre fez questão de se definir –, foi o mesmo que acompanhou a partir de Belém o caminho para o abismo que o país foi percorrendo. Acusado pelos opositores de nada ter feito para evitar o regaste, de ter sido conivente com a política do Governo socialista, Cavaco Silva aproveitou para fazer a sua defesa no livro que agora publica. Na apresentação da obra, ensaiou o mesmo, repetindo que os encontros semanais com José Sócrates eram a “via mais eficaz que um Presidente da República dispõe para influenciar o processo político de decisão”. Lido nas entrelinhas: Cavaco Silva assegura que não podia fazer mais.

Antes da intervenção do ex-Presidente da República, já Braga da Cruz tinha sugerido o mesmo, de forma mais clara. Cavaco Silva, defendeu o ex-reitor, “moveu-se sempre pela defesa do superior interesse nacional”. “Alertou, avisou, aconselhou. Nem sempre as suas advertências foram ouvidas, nem os seus conselhos foram ouvidos. Não conseguiu inverter a orientação do Governo“, afirmou.

Este, por isso, é o momento de repor a verdade. A verdade de Cavaco Silva, pelo menos. “O livro pretende informar os portugueses da forma como desenvolvi uma interação com o Governo. Para que os portugueses possam fazer o seu juízo esclarecido e informado. Toda a prestação de contas não pode deixar de se apoiar em factos rigorosos“, lembrou o antigo Presidente da República. À saída, e confrontado pelos jornalistas sobre se as revelações que fez no livro não eram um ajuste de contas com José Sócrates, o antigo Chefe de Estado escusou-se a fazer a comentários. “Não acrescento nada ao que está no livro, que é de um grande rigor factual”. Nem mais uma palavra.

Na plateia estavam também o antigo Presidente da República Ramalho Eanes e a mulher, além de Pedro Passos Coelho, Assunção Cristas, Maria Luís Albuquerque, António Pires de Lima e Marques Guedes (ver fotogaleria). O volume apresentado esta quinta-feira trata sobretudo do período em que Cavaco Silva coabitou com José Sócrates. Resta saber que revelações vai trazer a segunda metade da obra sobre o início e o fim do Governo de Pedro Passos Coelho.

Cavaco Silva despediu-se dos convidados, agradecendo a “dádiva” que a vida lhe deu por ter ocupado o cargo de Presidente da República. Agradeceu à “equipa de excelentes colaboradores” que o acompanhou e, em particular, ao seu Chefe da Casa Civil, José Manuel Nunes Liberato. E deixando também uma palavra aos portugueses: “O povo português deu-me a possibilidade de representar e defender Portugal como Presidente da República. Não esqueço esse apoio que repetidamente me foi dado pelo povo português”, sublinhou.

Mas o agradecimento especial seria para a mulher, Maria Cavaco Silva, a assistir a tudo a partir da primeira fila. “Sem ela não teria tido a carreira profissional e política que tive. Sem ela este livro não tinha existido“. E despediu-se: “Considero-me um homem de sorte. Um homem de muita sorte. A todos muito obrigado, a todos um abraço amigo”. Terminou como começou: aplaudido de pé. Foi o suspiro do cavaquismo no CCB.