O post que a ex-engenheira informática da Uber, Susan J. Fowler, escreveu no seu blogue pessoal, no domingo, incendiou a imprensa, a internet e as mais altas chefias da tecnológica. O líder Travis Kalanick não lhe ficou indiferente. A magnata Arianna Huffington também não. Nem os utilizadores da app, que funciona como intermediária para o transporte de pessoas, que reativaram a campanha #deleteUber nas redes sociais.

Os relatos que Susan Fowler faz de situações de assédio sexual e discriminação de género dentro dos escritórios da empresa – apesar de alegadamente denunciados ao departamento de recursos humanos – levaram o líder Travis Kalanick a contratar o ex-procurador-geral norte-americano, Eric Holder, para conduzir uma investigação independente ao que se passou. E levaram Ariana Huffington, fundadora do Huffington Post e um dos braços direitos de Kalanick na administração da empresa, a dizer que iria envolver-se no processo.

“Travis falou com muita honestidade sobre os erros que fez – e sobre como quer que os eventos das últimas 48 horas sirvam para construir uma Uber melhor. Foi ótimo ver os colaboradores a responsabilizar as chefias. E também vejo como minha responsabilidade assumir a liderança da equipa nesta questão. A mudança não costuma acontecer sem um catalisador. Espero que, ao termos este tempo para compreender o que está errado e resolvê-lo, estejam a contribuir para construir uma Uber melhor e para melhorar a situação das mulheres em toda a indústria [tecnológica]”, lê-se na nota de Arianna Huffington.

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A polémica, a ficar-se por aqui, era já suficiente, mas o the New York Times agudizou-a esta quinta-feira, ao publicar um texto onde revela a cultura organizacional “desenfreada” e de “obsessão” que se vive nos escritórios daquela que é a empresa mais valiosa do mercado privado de startups tecnológicas. O unicórnio (empresa que vale mais de mil milhões de dólares) Uber está avaliado em 68 mil milhões de dólares (64 mil milhões de euros), de acordo com a base de dados CB Insights, mas como não está cotada em bolsa, não é obrigada a apresentar dados sobre colaboradores ou resultados.

Segundo o que é revelado pelo The New York Times, os colaboradores da Uber são obrigados a subscrever os 14 valores da empresa quando são contratados, que incluem estarem “obcecados” e “sempre apressados”, com ênfase na “meritocracia” – os melhores chegarão ao topo da carreira pelos esforços que demonstrarem no processo. Nada que já não constasse nos corredores daquela que é a cultura habitual de startups de Silicon Valley, mas que se tornou discussão pública na sequência do texto de Susan Fowler.

Os relatos de 30 colaboradores (atuais e antigos) da Uber, o acesso a vários emails internos, conversas de chat e conversas de reuniões que foram gravadas descrevem uma cultura que se baseia em pôr colaboradores contra colaboradores e onde surgem acusações com várias formas: um gestor que fez um insulto homofóbico a um subordinado durante um confronto ou outro que ameaçou bater com um taco de beisebol noutro membro da sua equipa.

Pedido de desculpa “por deixar a empresa chegar a este ponto”

Na terça-feira, Kalanick esteve reunido durante 90 minutos com vários membros da equipa e, de acordo com o que foi descrito por cinco das pessoas presentes, a reunião foi “emocional” e o líder pediu desculpa por ter deixado que a empresa e a cultura da empresa chegassem a este ponto. “O que posso prometer é que vou tentar melhorar dia após dia e que estou autentica e completamente dedicado a chegar ao fundo desta questão”, disse, citado pelo jornal norte-americano.

Os trabalhadores da Uber ouvidos pelo jornal disseram que estavam contentes com a forma como Travis reagiu à polémica e que agora a empresa estava mais preparada para lidar com este tipo de questões. O que é certo é que a tecnológica, além de ser a mais valiosa do mercado de investimento em capital de risco da história, concorre também para ser a mais polémica. Dos vazios legais em que opera aos conflitos de regulação, guerras que trava com o setor do táxi e as autoridades de vários países, aos carros autónomos e às ambições monopolistas de Kalanick, não faltam tópicos para discussão.

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Além das declarações de Susana, a Uber enfrenta três processos judiciais em dois países por assédio sexual ou abusos verbais por parte de superiores hierárquicos e, de acordo com o mesmo jornal, há mais colaboradores com vontade de fazer o mesmo. A responsável pelos recursos humanos da Uber, Liane Hornsey, emitiu um comunicado onde diz estar “totalmente comprometida em sarar as feridas do passado e em construir uma melhor cultura organizacional para todas as pessoas”.

As consequências já estão, contudo, na estrada, que é como quem diz, na conta dos utilizadores. A campanha #deleteuber voltou às redes sociais depois do post de Susan, o que levou a uma onda de protestos e ao apagar de várias contas. Em resposta, a Uber está a enviar uma nota aos utilizadores que tentem apagar a sua conta, dizendo que toda a gente na empresa está a sofrer com o que foi revelado por Susan e que é prioridade da empresa fazer alterações nos próximo meses.

Já em 2015 tinha sido notícia uma festa da empresa em Las Vegas, na qual Kalanick contratou Beyoncé para fazer um espetáculo privado para os colaboradores da empresa no bar do Palms Hotel. Dessa noite, há relatos de consumo de cocaína nas casas de banho e outros comportamentos excêntricos. Mas foi o relato de Susan que incendiou a questão, com vários colaboradores a ameaçarem sair da empresa e a enviar currículos para concorrentes da indústria.

O ambiente vivido no ecossistema de startups, sobretudo em Silicon Valley, é muitas vezes descrito como de alta pressão e risco, com longas horas de trabalho seguidas e um foco colocado no crescimento do produto, dos utilizadores e do mercado, o que leva a situações de tensão emocional acrescidas. A Business Insider chamou-lhe “o lado negro das startups“, num artigo que conta história de suicídios de vários líderes de tecnológicas.

De acordo com um estudo de 2015, desenvolvido por quatro académicos norte-americanos (Michael Freeman, Sheri L. Johnson, Paige J. Staudenmaier e Mackenzie Zisser), 49% dos empreendedores que participaram admitem sofrer com uma doença mental. Só a depressão atingia cerca de 30% dos inquiridos, seguida do distúrbio do défice de atenção e hiperatividade (29%) e os distúrbios de ansiedade (27%).

Também há dor e pânico nas startups. E não é preciso ter vergonha

Ao Observador, o português João Santos Pereira, 35 anos, contou, num artigo sobre o projeto português CEO World – que organiza reuniões de “CEO anónimos” para ajudar a superar problemas -, que ser líder de uma empresa “é muito solitário”. “Sofremos do efeito sanduíche, em que a nossa equipa está por baixo e os investidores por cima. Quando as coisas correm mal ou surgem dúvidas, às vezes é difícil saber com quem é que se vai falar”, disse. A Uber é a sanduíche mais valiosa do mercado. Vale 65 mil milhões de euros, mais do que a bolsa portuguesa toda.

As reuniões de “CEO anónimos” que ajudam a superar os problemas