Rafaela Neves está mesmo na linha da frente. Empoleirada numa grade, a estudante de Sociologia de 19 anos aponta para a sua pele mestiça e olha para um dos cerca de 30 manifestantes do PNR que marcaram presença em frente à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), esta terça-feira. “Tu também és escurinho como eu, ai és, és!”, atira-lhe Rafaela, irónica no tom e com ar zombeteiro. Rafaela sente-se à vontade: além de estar à entrada da sua faculdade, tem cerca de 200 manifestantes do seu lado, a maioria alunos.

“Eu já vim a algumas manifestações e sei que muitas vezes a ironia é a melhor maneira de lidar com a tensão”, explica ao Observador, mais tarde. Pouco antes de se dirigir daquela forma a um militante do PNR, a manifestação teve o seu pico de maior tensão. Tudo começa quando um cone de sinalização de estrada é atirado do lado dos estudantes da FCSH para os manifestantes do PNR. Este só não cai em cima do presidente do partido nacionalista, José Pinto Coelho, porque um dos seus seguranças se coloca à frente.

José Pinto Coelho, de braços cruzados à direita, diz que os estudantes da FCSH são “uns comunistas do pior” (ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR)

“Mas o que é que estes cabrões querem?!”, lança José Pinto Coelho, visivelmente exaltado e com o cinto das calças nas mãos. Neste momento, só por força da polícia e de alguns dos seus camaradas, que o seguram, é que o presidente do PNR não avança em direção ao outro lado da barricada. “Calma, presidente!”, pedem-lhe os militantes. Pouco depois, os estudantes ensaiam algumas linhas de “Grândola Vila Morena”, que cantam com entusiasmo mas falhas na letra. Do lado do PNR, responde-se com o hino nacional, que é cantado com especial fervor. “Para o caralho!”, devolvem os estudantes. Neste momento, só uma das três faixas deste lado da Avenida de Berna está aberta aos carros. Ao volante, os condutores abrandam para contemplar a manifestação e a contra-manifestação, como se de um desastre de automóvel se tratasse.

Noutra ocasião, o vice-presidente do PNR, João Pais do Amaral, tentou impedir o jornalista do Observador de entrevistar simpatizantes do partido. “Só entrevistam quem eu deixar”, exigiu. De seguida, pediu à polícia para nos afastar da manifestação — algo que não teve seguimento.

Ao “Grândola Vila Morena” dos estudantes da FCSH, os militantes do PNR responderam com o hino nacional (ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR)

A polémica que traz tanto estudantes como militantes do PNR às portas da FCSH é conhecida. No início do mês, uma conferência sobre populismo, organizada por um núcleo liderado por um estudante da FCSH, a Nova Portugalidade, e que teria Jaime Nogueira Pinto como único orador. O evento acabou por ser cancelado após decisão uma reunião geral de alunos e também da direção da faculdade, alegando motivos de segurança. Muitos viram neste caso uma violação da liberdade de expressão. Entre estes, está o PNR.

“Após o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto mandado pela extrema-esquerda, que domina a faculdade, as pessoas e os portugueses indignaram-se, mas só o PNR tem coragem de vir à rua verbalizar aquilo que muita gente pensa. Porque em Portugal, esta extrema-esquerda, estes comunistas, mandam no país, e há uma direitinha inútil de CDS e PSD que nada faz e encolhe-se”, diz José Pinto Coelho. Sobre os manifestantes, apelidou-os de “uns comunistas do pior” e que “só aceitam a liberdade de expressão para estas grândolas e coisas tais e recusam a liberdade de expressão para aqueles que defendem Portugal e os portugueses como nós.”

Nem Jaime Nogueira Pinto, nem o fundador da Nova Portugalidade, Rafael Pinto Borges, estiveram presentes na manifestação ou associaram-se a ela.

Entre os manifestantes do PNR, está Rui Barbosa, de 43 anos, que veio vestido com um fato branco, uma máscara de gás e um pulverizador. O objetivo, explica, é “limpar esta hegemonia cultural marxista que está impregnada nesta faculdade”.

Rafaela não vê razões para o PNR ter vindo para a porta da faculdade onde começou a estudar este ano. “Infelizmente, houve alguém que viu razões para vir para aqui fazer esta manifestação, mas a mim parece-me que é um grupo muito mal-informado”, diz ao Observador. “Ninguém pôs em causa a liberdade de expressão de ninguém”, garante a estudante de Sociologia.

Quando viu a página do evento “Populismo ou democracia? O Brexit, Trump e Le Pen” no Facebook, Rafaela registou-se como “interessada”. Desde que foi estudar para a FCSH, procura envolver-se em vários eventos ou, pelo menos, estar presente neles. O tema, à partida pareceu-lhe interessante. Depois, mudou de ideias. “A verdade é que eu não me informei e não fui procurar quem é que estava a organizar a conferência, nem sabia quem era o senhor que ia lá falar”, diz. “Só depois quando me disseram quem eles eram achei que podiam tocar em assuntos que me podiam deixar desconfortável.”

Entre os contra-manifestantes, não parece haver um consenso em relação à possibilidade de permitir, ou não, a realização de qualquer conferência. Rafaela começa por explicar que “deve haver espaço” mas também acredita que “a Associação de Estudantes e a faculdade não têm de dar o seu apoio” a todas as iniciativas. Para João Freitas, 23 anos, que estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, “não está em causa a pessoa que vai falar, mas os valores implícitos que estão por trás do evento, que são o colonialismo e o fascismo”. Já Alexandre Correia, 21 anos, estudante no Instituto Superior Técnico, diz que o “o outro lado nunca quis debater, porque a partir do momento que a sua posição está cristalizada não há espaço nenhum para o debate”.

Por outro lado, Sérgio Vitorino, 43 anos, tradutor e antigo dirigente associativo na FCSH nos anos 1990, acredita que podia ter havido espaço para a conferência. “Quando há um discurso que não é abertamente racista e que não faz o apelo ao ódio, ninguém pode ser impedido de falar”, diz. “Ideias como as que são defendidas por Jaime Nogueira Pinto e pelo grupo da Nova Portugalidade devem ser combatidos de forma mais inteligente.”

Sérgio Vitorino, ao centro, acredita que a conferência de Jaime Nogueira Pinto devia ter acontecido, mas concorda com a postura da AE, que se desvinculou do evento (HUGO AMARAL / OBSERVADOR)

Antes da manifestação do PNR, o pátio de entrada na FCSH estava invulgarmente cheio — até para uma tarde de sol, mesmo que fria, como foi a desta terça-feira. Em contraponto ao protesto do partido de José Pinto Coelho, decorreram dois eventos — o primeiro, para assinalar o Dia Mundial da Luta Contra a Discriminação Racial, a cargo da AE; o segundo, convocado por ex-alunos, para falar sobre jornalismo e media.

Um dia antes, na véspera, representantes da AE da FCSH explicavam que estas iniciativas não eram em “reação” à manifestação do PNR. Ainda assim, sobretudo no primeiro painel, foram recorrentes as menções ao protesto marcado duas semanas antes por aquele partido. Perante uma plateia que começou em cerca de 30 alunos e que deve ter passado as duas centenas, os oradores não deixavam de fazer menções à manifestação que aconteceria dentro de poucas horas.

“O que se vai passar hoje na faculdade é uma vergonha”, disse Henrique Chaves, estudante de Sociologia e membro da Frente Anti-Racista. Por outro lado, José Falcão, da SOS Racismo, congratula-se pelo número de pessoas que tem à frente. “Há muitos anos que não via tanta gente numa sessão destas na faculdade”, diz. “Não me parece que estivesse aqui tanta gente se não fosse por causa dos atrasados mentais que aí vêm hoje”, acrescentou. Na plateia respondem: “Estava, estava!”. José Falcão discorda: “Não estava nada! Mas isto é um incentivo. Aproveitemo-lo!”.

De um lado para o outro, os manifestantes trocaram insultos de “fascistas!” (ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR)

Numa destas sessões, Rafaela pediu o microfone. O tom de pele mestiço — é filha de pai moçambicano e mãe portuguesa — leva a que, nas suas palavras, lhe seja por vezes dado o “privilégio branco”. Sobre os seus “amigos pretos”, lamenta que a maior parte “não tenha consciência da discriminação que lhes é dirigida” e recorre a uma história. “Estávamos num café e percebemos logo que o dono começou a tratar-nos de forma diferente só porque éramos pretos”, recorda. “Eu notei e disse aos meus amigos que devíamos ir embora, que não devíamos dar lucro ao café. Mas eles não viram mal nenhum. Disseram que ‘podemos ser pretos mas vamos mostrar que não somos pobres'”, explica. A plateia segue as suas palavras com atenção, sobretudo quando conta que a sua avó “incentiva toda a gente na família a casar com brancos” e que “se sente inferior”.

Sobre a FCSH, Rafaela diz mais tarde: “É uma faculdade onde me sinto bem-vinda”. “Sinceramente, acho que o que fizemos é o mais correto”, diz, de regresso à fila da frente da manifestação do PNR que fez ricochete contra o partido nacionalista.

Ainda foram duas horas de “frente a frente”, às 20h09 os apoiantes do PNR desmobilizaram e tudo regressou à normalidade.