“O Presidente decidiu vir ver o desfile”, diz Nuno Baltazar meio incrédulo. A mensagem é dada à equipa composta por modelos e aderecistas que, agora, têm de apressar tudo. Toca de vestir manequins, ajeitar roupas e acertar cabelos. Falar com os jornalistas? Não agora, que o designer precisa de se preparar para receber Marcelo Rebelo de Sousa que, à falta de um S. Pedro bem-disposto, veio abençoar o último dia de desfiles no Portugal Fashion.

Foram selfies atrás de beijinhos atrás de selfies, assim que o Presidente da República entrou na Alfândega do Porto. Mas de selfies e beijinhos já todos estavam à espera. A surpresa, essa, aconteceu quando Marcelo disse querer ficar mais um pouco e se sentou na fila da frente para ver passar as criações de Nuno Baltazar. O local do desfile, que ocupou um edifício no exterior da Alfândega, encheu num ápice. E foi num ápice que tudo aconteceu.

As luzes suspensas, a cair do teto, foram abanadas de maneira a dispersar os focos de luz, ao mesmo tempo que música mexicana começou a tocar. Daí a nada entravam as primeiras manequins cujas roupas tiveram como inspiração o universo pessoal de Frida Kahlo, a pintora mexicana conhecida pelas sobrancelhas grossas e um talento sem igual. Transparências, volumes, silhuetas definidas, folhos e corres garridas marcaram o desfile, que contou ainda com a presença de Raquel Strada e de Jessica Athayde.

Nuno Baltazar foi encontrar inspiração na vida pessoal (e agitada) da pintora mexicana Frida Kahlo. Foto Ugo Camera

Frida esteve em todo o lado. Na palete de cores usada (do preto aos azuis, verdes e laranjas), nas coroas de flores no topo das cabeças das manequins e nas frases gravadas no calçado e impressas em t-shirts e cartazes, retiradas de uma carta em tempos trocada entre a pintora e o marido Diego Rivera — a mais marcante foi aquela escrita em letras garrafais no fundo do cenário: “I was born a bitch, I was born a painter”.

Momentos depois, finda a apresentação, Nuno Baltazar explicava ao Observador que a coleção — com vestidos curtos e casacos compridos, conjugações de cores arrojadas e materiais antagónicos — tem um carácter intemporal. “Deixei de dar estações às coleções. Para mim esta é a coleção número 26 porque a primavera e o verão mudaram. As coleções precisam de ser cada vez mais dinâmicas, com peças quentes e outras menos quentes.” Segundo o designer de moda, no futuro não serão os tecidos a ditar as estações, mas sim as cores.

Uma ponte para a intemporalidade

Sem época e sem data. Também é dessa forma que Carla Pontes olha para as coleções que cria, e a que foi apresentada ao início da tarde não foge à regra. Batizada de “Wind” (“vento” em inglês), a nova linha pretende ser “um sopro de memórias”, uma vez que a designer foi buscar detalhes e pormenores às nove coleções anteriores. “Há uma série de volumetrias, texturas e padrões que se repetem. Mudam apenas o styling e a atitude”, conta, já o desfile terminou e as arrumações começaram.

Carla Pontes trouxe inspirações de coleções anteriores para provar que a moda também pode ser intemporal. © Ugo Camera

A coleção de Carla Pontes tem uma mensagem subliminar, isto é, mostrar ao comprador que as peças da marca homónima são intemporais e podem ser usadas continuamente, até passadas de geração em geração como se de uma peça de mobília vintage se tratasse. É a jogar com a exigência do tempo e também a contrariar as contínuas tendências da moda que a designer aposta nos detalhes e no minimalismo — adeus costuras, olá conforto.

Pontes usa materiais como a lã e o algodão, tem preferência por volumetrias orgânicas, pela sobreposição de camadas (porque não usar um camisolão por cima de um vestido?) e por tonalidades neutras. Nem de propósito, a passerelle deste sábado foi inundada por tons negros, crus e azuis muito claros, que foram depois contrastados com toranjas e mostardas ousados.

Do mar gelado à neve ainda mais gelada

Mas nem só de coleções sem tempo se fez o último dia da 40º edição do Portugal Fashion, que arrancou com Luís Buchinho a apresentar as suas propostas para o próximo outono-inverno inspiradas nos 900 quilómetros da costa portuguesa (sem contar com as ilhas). Tal como aconteceu no desfile na Semana da Moda de Paris, os pescadores, as varinas, as falésias e os mares sem fim voltaram a estar em grande destaque e, desta vez, o mar salgado português invadiu o circular Silo-Auto, no coração da Invicta.

A coleção de Luís Buchinho desfilou no Silo-Auto, um parque de estacionamento. © Ugo Camera

Hugo Costa também… deu à costa. Depois de ter escalado até ao 9º arrondissement, em Paris, para apresentar a sua coleção inspirada no primeiro homem a chegar ao Polo Sul — leia-se Roadl Amundsen –, veio ao Porto trazer mais frio (e criatividade) a um dia já de si gelado.

Nevou em Paris. Na passerelle de Hugo Costa

Mas não veio sozinho: a ele juntaram-se uma mão cheia de marcas dedicadas ao calçado (Ambitious, Dkode, Fly London, J J Heitor Shoes, J. Reinaldo e Nobrand) e nomes bem conhecidos do mercado português (Micaela Oliveira, Lion of Porches, Dielmar e Ana Sousa). O último desfile da noite coube a Miguel Vieira, que há não muito tempo regressou à Semana da Moda de Nova Iorque para apresentar tecidos com efeito amarrotado e não só.

A 40º edição do Portugal Fashion, que arrancou no passado dia 22, trouxe-nos 31 desfiles, 15 criadores, seis marcas de vestuário, seis marcas de calçado e dez jovens designers. Só faltou mesmo Sara Sampaio atravessar a rua e juntar-se a esta alfândega da moda.