Obrigações do Tesouro

Investir em OTRV Agosto 2022? Só se quiser que o banco fique com os juros

Se aplicar menos de 3.962 euros, as comissões cobradas pela banca e os impostos que lhes estão associados deverão ser superiores aos juros líquidos a receber dos títulos. Fique longe.

Não participe na oferta pública de subscrição das novas Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) que está em curso até ao próximo dia 28 de julho: a remuneração é tão baixa que, se aplicar menos de 3.962 euros, os custos deverão ser superiores aos rendimentos.

Nesta nova emissão — as OTRV Agosto 2022 —, o IGCP, a entidade que gere a dívida pública portuguesa, cortou a taxa de juro. Os títulos pagam semestralmente o equivalente à Euribor a seis meses acrescida de 1,6 pontos percentuais, mas a taxa de juro nunca pode ser inferior a 1,6%. Na operação anterior, efetuada no passado mês de abril, a taxa de juro mínima era de 1,9%. Na primeira vez que foram lançadas OTRV, a taxa mínima era de 2,2%.

Não se sabe, à partida, qual será o rendimento efetivo das OTRV até agosto de 2022. Sabe-se que, agora, como a Euribor a seis meses é negativa, os investidores receberão os 1,6%, mas os operadores do mercado monetário acreditam que a taxa de referência suba até perto de 1% em 2022, colocando a remuneração provável no último semestre em 2,6%.

Ao contrário dos Certificados de Aforro e do Tesouro, as OTRV são subscritas junto da banca. É possível aplicar entre mil euros e um milhão de euros, em múltiplos de mil euros. No vencimento, cinco anos após a emissão, o montante é reembolsado na totalidade. Todavia, os intermediários financeiros cobram um grupo de comissões — de subscrição, de guarda de títulos, de pagamento de juros e de reembolso — que, conjuntamente com os impostos e outras despesas, pode mais do que anular todos os rendimentos.

Quanto rendem e quanto custam as OTRV Agosto 2022?
Mesmo para valores superiores a quatro mil euros, o retorno líquido de comissões, despesas e impostos que se espera das OTRV não justifica o investimento nas novas aplicações.
Montante aplicado Juros acumulados líquidos de IRS nos cinco anos Comissões, despesas e impostos cobrados pela banca nos cinco anos
1.000€ 73,20€ 268,54€
2.000€ 146,41€ 274,74€
3.000€ 219,60€ 282,14€
4.000€ 292,81€ 290,35€
5.000€ 366,00€ 298,56€
10.000€ 732,03€ 339,61€
15.000€ 1.098,03€ 380,66€
20.000€ 1.464,04 € 422,04€
Fonte: Observador. Cálculos aproximados usam preçários do Banco BPI, da Caixa Geral de Depósitos, do Millennium bcp, do Novo Banco e do Santander Totta a 18 de julho de 2017. Assumem subscrição ao balcão por um investidor de Portugal continental, que as OTRV Agosto 2022 são os únicos títulos em carteira durante cinco anos, a Euribor a seis meses entre -0,27% e 1% nesses cinco anos e uma taxa de IRS sobre os juros de 28%.

O impacte das comissões e dos impostos é maior nas aplicações de montante inferior. No entanto, mesmo em aplicações superiores, a rentabilidade líquida é magra. Num investimento de 20 mil euros, a rentabilidade anual líquida é de 1,33%, em média, nos cinco maiores bancos portugueses. Cerca de 90% dos investidores que participaram na última oferta pública de subscrição aplicaram até 20 mil euros.

Porém, o retorno pode ser superior:

  • Se a Euribor a seis meses subir mais e mais rapidamente do que os operadores do mercado monetário esperam agora;
  • Se os investidores aplicarem mais dinheiro (porque dilui o efeito das comissões);
  • Se os investidores optarem por intermediários financeiros mais baratos;
  • Se os bancos reduzirem as comissões;
  • Se os investidores tiverem outros títulos na carteira (que diluam o impacto da comissão de guarda); ou
  • Se os investidores venderem os títulos na bolsa antes do vencimento a um preço alto.

De qualquer maneira, é pouco provável que consigam ganhar mais do que se aplicarem o mesmo dinheiro nos Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM), disponíveis em alguns balcões dos CTT e no AforroNet a partir de mil euros. Ao contrário das OTRV, o rendimento dos cinco anos é conhecido no momento da subscrição, exceto o prémio na taxa de juro do quarto e do quinto ano. Para quem subscrever neste mês de julho, os CTPM garantem uma rentabilidade anual líquida mínima de 1,61%. Este retorno pode subir até 2,10% por ano, como explicámos em “A inflação está a arrasar a sua poupança. Saiba o que fazer para a combater”.

David Almas é analista financeiro independente registado na CMVM com o número oito. O autor trabalha subordinado ao Código Deontológico dos Jornalistas.

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