A escalada da retórica belicista entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos atingiu o vermelho. Na terça-feira, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, avisou os norte-coreanos que seriam sujeitos a um ataque de “fogo, fúria e, francamente, poder” como o mundo jamais tinha visto se continuassem com os seus testes nucleares. Na volta do correio, chegou o tom ameaçador de Kim Jong-Un líder da Coreia do Norte, que criticou Trump: “um diálogo sólido não é possível com um tipo tão desprovido de razão, pelo que a única solução é usar força absoluta”, disse Kim que ameaçou estar a planear um ataque para base militar de Guam, na Coreia do Sul, já para agosto. Na quarta-feira, o secretário de Estado da Defesa, James Mattis, disse que, se a Coreia do Norte escolhesse atacar os Estados Unidos ou os seus aliados, arriscaria com isso o fim do regime e dos seus habitantes.

No meio destas placas tectónicas fica o Japão que, desde janeiro de 2017 está a ensinar à população, através da emissão de pequenas brochuras, simulacros, explicações públicas nas escolas, centros comunitários, lares de terceira idade e empresas públicas, como reagir na eventualidade de um ataque da Coreia do Norte. Para muitos japoneses esta é uma realidade nova, já que não se realizavam exercícios de preparação para um conflito desde a Segunda Guerra Mundial, quando o país foi atingido por duas bombas atómicas — uma na cidade de Hiroshima e outra em Nagasaki — e ficou proibido de ter um exército.

Mas, mesmo que não se lembrem dos ataques, o efeito devastador que as bombas atómicas provocou nas cidades atingidas — e o lastro de radioatividade que matou milhares de pessoas já muito depois de as bombas terem caído, infiltrando-se no solo, na água e na pele — perpassa a cultura e o imaginário coletivo japonês e o medo de que algo parecido possa acontecer é real tal como é real a ameaça da Coreia do Norte já que o Japão é aliado dos Estados Unidos e dos culpados da separação das “duas Coreias”.

Com receio de que os mísseis caiam cada vez mais perto, alguns municípios japoneses já estão a simular evacuações ante um possível ataque. Mas alguns cidadãos, como se vê neste vídeo, não parecem estar muito convencidos de que estas medidas resultem. “Dizem-nos para nos escondermos atrás de uma parede, mas não sei se isso servirá de muito se realmente cair um míssil”. Uma das povoações com mais iniciativas de sensibilização é Oga, a uns meros 300 quilómetros do local onde caíram os últimos mísseis de teste da Coreia do Norte, no mar do Japão.

Todos os dias, instruções detalhadas sobre o que fazer são impressas em todos os mais de 70 jornais que circulam no país e nos 43 canais de que dispõem, os japoneses também não lhes podem escapar. A venda de abrigos anti-bomba aumentaram tanto que agora há uma lista de espera, apesar de custarem cerca de 250 mil euros.

A Oribe Seiki Seisakusho, uma das principais empresas no ramo da venda de objetos que possam mitigar os efeitos de um ataque, já vendeu, segundo a Newsweek, 50 purificadores de ar feitos na Suíça, por 5,000 euros cada um, que “prometem” diminuir o efeito de gases tóxicos e radiação.

Os vizinhos diretos da Coreia do Norte, os coreanos do Sul, também estão preocupados até porque também lá os norte-americanos mantêm uma forte presença militar, sendo esta a base do THAAD, o sistema de defesa anti-míssil mais avançado dos Estados Unidos. Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, já pediu aos seus generais que preparem as tropas — e disse que a o seu país deveria tornar-se “mais auto-suficiente na face da necessidade urgente de assegurar as capacidades de defesa do país contra as provocações da Coreia do Norte”. O objetivo agora é “construir um corpo militar que vença as adversidades, que seja confiante”, disse numa reunião com os seus chefes militares.

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