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Han Kang. “Ainda tenho pesadelos. Escrever este livro transformou-me”

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A vida de Han Kang mudou quando, em 2016, venceu o Man Booker International com o livro "A Vegetariana". A sul-coreana passou por Portugal para lançar "Atos Humanos", sobre um massacre na Coreia.

"A tensão está lá, está a aumentar, mas temos de continuar", diz a sul-coreana, sobre a ameaça nuclear da Coreia do Norte.

Rui Oliveira / Global Imagens

É final de tarde no Porto e Han Kang está a sofrer com o jet lag. “Em Seul são três da manhã”, diz, simpaticamente, para justificar os olhos a quererem fechar-se e as quantidades de chá que beberica, na esperança de despertar. No domingo partiu da Coreia do Sul para participar na Feira do Livro do Porto. Agora está na Islândia, para ser destaque num festival literário.

O corrupio começou desde que a sul-coreana venceu o Man Booker International 2016, com o romance A Vegetariana. Publicado a Oriente em 2007, foi só quando uma tradutora inglesa resolveu sugerir o livro a um editor inglês e traduzi-lo que a história, sobre uma mulher banal que um dia causa alvoroço na família ao decidir tornar-se vegetariana, pôde chegar a um público mais alargado. E ao júri do Man Booker, que acabou por premiá-lo.

Até há uns dias, a ideia era centrar a entrevista no romance cujo sucesso, como admitiu na conversa que manteve com José Mário Silva na Feira do Livro do Porto, a surpreendeu. Há 10 anos, a crítica especializada sul-coreana elogiou A Vegetariana, mas a grande generalidade dos seus compatriotas não gostou do que leu, disse. E não, ela não é vegetariana. “Fazem-me sempre essa pergunta. Já fui, mas sentia-me fraca. Agora, quando me sinto fraca, tenho de comer carne”, respondeu a um membro do público.

han kang, a vegetariana

A entrevista, feita pelo Observador no Porto, passou a ter outro propósito a partir do momento em que, no dia 1 de setembro, chegou às livrarias Atos Humanos, sexto romance de Han Kang e o segundo a ser publicado em Portugal, ambos pela D. Quixote. A história recupera o massacre de 18 de maio de 1980 na região de Gwangju, na Coreia do Sul. Nesse dia, estudantes de norte a sul do país revoltaram-se contra o fecho de universidades e a falta de liberdade de expressão, mesmo sob regime ditatorial.

No entanto, na cidade de Gwangju, onde Han Kang nasceu em 1970, a resposta do exército foi tão violenta que a população acabou por se juntar ao protesto dos estudantes, formando uma comuna. Chun Doohwan, o ditador que subiu ao poder após o assassinato do também ditador Park Chung-hee, deu ordem para que a resposta fosse brutal. Foi um dos piores massacres na história do país, onde soldados dispararam contra crianças e jovens desarmados, e onde os milhares de mortos e desaparecidos ainda estão por contabilizar.

Kang (Han é o nome de família e Kang o nome próprio) e a família deixaram Gwangju quatro meses antes dos massacres. O pai queria apostar na carreira de escritor e, por isso, mudaram-se para Seul. “Nenhum membro da família morreu. Mas a mulher de um ex-namorado da minha tia foi morta. Lembro-me de imaginar como teria sido se a minha tia se tivesse casado com ele, se ela fosse a mulher. E senti uma grande ligação”, recorda ao Observador.

Apesar de ter apenas nove anos quando os massacres aconteceram, a escritora tem memórias fortes sobre esse período. Nessa altura, os familiares sussurravam em casa para discutir o caso sem que as crianças ouvissem. “Estavam todos muito preocupados porque os meus avós maternos moravam lá. A minha mãe tentava ligar mas as linhas estavam cortadas.” As notícias chegavam à pequena Kang através dos jornais ou da TV, embora distorcidas, como é típico numa ditadura. Dado o contexto familiar, ela sabia que as notícias não eram a verdade. Mas não podia falar com ninguém sobre isso, nem na rua, nem na escola, onde havia professores a dizer que a culpa era dos manifestantes. “Era perigoso discutir a verdade em público.”

Kang e a família deixaram Gwangju quatro meses antes do massacre. Mas os avós ficaram. © Rui Oliveira / Global Imagens

Mas houve um episódio que ela ouviu às escondidas e que foi central para a história de Atos Humanos. A família que comprou o hanok dos Han — casa tradicional sul-coreana — em Gwangju perdeu um filho no massacre. Chamava-se Dong-ho e é a personagem central de todo o livro. “Quis focar-me na dignidade daquelas pessoas que, mesmo correndo risco de vida e de sofrerem atrocidades, lutaram. Então pensei neste rapaz, Dong-ho. Ele queria fazer alguma coisa, mesmo tão novo e inocente, e tomou uma decisão trágica, que foi a de ficar na Câmara Provincial na última noite. Quando eu era pequena, era muito difícil para mim perceber porque é que algumas pessoas decidiram ficar lá, sabendo que o Exército chegaria a qualquer momento e que os poderia matar.”

É Dong-ho, um rapaz que não resistiu a seguir o melhor amigo até à manifestação, quem narra o primeiro dos seis capítulos do livro — todos têm narrador diferente. As descrições de Kang dos corpos a apodrecerem, a incharem e a serem comidos por larvas não estão ali para chocar, mas para descrever uma realidade que foi dura. Nos capítulos que se seguem, o tempo vai passando para lá daqueles dias do massacre. 1985. 1990. Já não há massacre mas há memórias da tragédia e feridas por curar. Coisa difícil de se fazer quando a ditadura ainda era uma realidade.

O realismo e o ambiente gótico do segundo capítulo são especialmente tocantes. Nele, Kang deu voz a Jeong-dae, o melhor amigo de quem Dong-ho se perdeu e que acaba morto. É através dele que o leitor chega até onde normalmente não se vai. À pilha de corpos, à indignidade com que são tratados pelo regime mesmo quando já não respiram. O que pensou e o que sentiu uma vítima imediatamente antes de morrer. Jeong-dae descreve os seus últimos momentos em vida e os primeiros na morte, enquanto o seu espírito tenta perceber o que está a acontecer. As descrições são fortes. E o que podia resvalar para a vulgaridade ou o esoterismo é, na verdade, uma das mais bem conseguidas narrações de Atos Humanos.

“Desde o início que queria fazer isso. Ainda hoje há desaparecidos que não estão contabilizados no número total de mortos. Quando visitas o cemitério em Gwangju, há campas vazias, porque eles ainda não foram encontrados. Neste capítulo quis dar-lhes voz. Imaginei um conjunto de almas vulneráveis”, explica a vencedora do Man Booker International. Essas almas fazem o mesmo que os vivos: buscam os seus amigos e parentes na confusão.

“Atos Humanos” tem 232 páginas e custa 14,90€.

O que mais a marcou foi ter encontrado, com 11 anos, um livro de fotografias com o retrato de uma rapariga com o rosto mutilado, cortado por uma baioneta. “Houve algo dentro de mim, lá muito no fundo, que se partiu”, recorda no épílogo do livro. Mas por entre as fotografias chocantes de violência estavam também “imagens de gente muito corajosa, que era contra a violência e que formou filas na rua para doar sangue, que partilhou comida no mercado, que levava gratuitamente nos táxis os revoltosos”.

As memórias desse período acompanharam-na sempre, mas a ideia de escrever sobre o massacre é recente. Apesar de ter sido escrito durante a chegada ao poder de Park Geun-hye, filha do ditador Park Chung-hee, em 2013, recusa que tenha decidido partir para o livro por causa disso. “Tive duas motivações. Por um lado, queria fazer algo por Gwangju. Por outro, sentia que tinha de escrever, que tinha de responder a questões fundamentais que eu tinha.” O empurrão decisivo surgiu em 2009, quando seis pessoas morreram num protesto em Seul. Mais uma vez, houve acusações de excesso de força por parte da polícia. Esse ato de violência recordou-a do passado.

Park Geun-hye foi destituída a 10 de marco de 2017 e está presa neste momento. Antes de isso acontecer, Kang participou nos grandes protestos de velas contra a sua governação. “É uma combinação estranha porque a vela é um objeto que remete à calma e à paz. Foi muito bonito ver tanta gente a segurar velas com o objetivo de mudar a sociedade.”

Atos Humanos relata o comportamento dos revoltosos, a censura sobre os livros e as peças de teatro, as vivências dos presos políticos e as agressões que todos — os revoltosos, os funcionários da editora, os detidos — sofreram por parte das autoridades. É ficção, mas o realismo nas descrições deve-se a muitas horas a ler sobre os anos da ditadora. “A minha intenção inicial era ler todos os documentos a que conseguisse ter acesso”, escreve a autora no último capítulo, onde surge também ela como narradora. Interrompeu os outros afazeres, até evitou estar com amigos. Após dois meses imersa em documentos difíceis, onde se incluíam relatos de vítimas, Han Kang sentiu-se incapaz de continuar. Começou a ter pesadelos.

Na apresentação que fez na Feira do Livro, confidenciou que, quando entregou o manuscrito ao editor, pediu-lhe que o publicasse o mais rapidamente possível, para se ver livre da nuvem negra. No entanto, ainda tem pesadelos. Sobretudo quando tem de regressar a Atos Humanos e a entrevistas como esta. Na noite em que aterrou no Porto, sonhou com o massacre de Gwangju. “Depois de escrever este livro gostava de me focar num lado mais leve da Humanidade”, admite. Precisa de mais essa mudança, após a transformação forte que este livro lhe causou. “Não quero desistir de nada, quero ser positiva. Não tem sido fácil.” O companheiro de cela de Kim jin-su pergunta no livro: “Serão os seres humanos fundamentalmente cruéis?” Devolvemos a pergunta à autora.

O processo de escrever este livro transformou-me”, começa por dizer. “Cada livro que escrevo transforma-me, de certa maneira. Mas este livro transformou-me muito. Como se estas pessoas me estivessem a empurrar para algum lado. Começa com uma cena com cadáveres, que são a prova da violência humana, da crueldade. Daí, vai até Dong-ho, que é o centro da história. Vamos apanhando os fragmentos dele. Com sorte, chegaremos ao seu coração.”

Depois da negritude de “Atos Humanos” a autora sente necessidade de falar de temas mais positivos. Nada fácil, dado o momento de tensão nuclear que se vive na Península coreana. © Rui Oliveira / Global Imagens

Quando começou a escrever esta história, pensou que o livro podia funcionar como uma forma de preservar a verdade do que aconteceu. Mas sempre enquanto ficção. No fim, decidiu tornar-se numa personagem, narrando o último capítulo. “Para me usar a mim própria como uma ponte entre a realidade e esta ficção. Assim eu, que estou a viver no presente, torno-me parte desta ficção”, explica.

Depois de o publicar na Coreia do Sul, há três anos, choveram elogios. E convites dos amigos para almoçar. “Para me agradecerem e para partilharem as memórias do massacre também.” O livro tem sido reeditado repetidamente e as pessoas ainda falam dele. “É como um milagre. Para a geração que já nasceu depois de 1980, este livro tornou-se uma espécie de porta de entrada para este período histórico.”

Neste momento, está a escrever um conto de ficção. “Os meus livros são sempre sobre as minhas questões. A questão em que estou a trabalhar agora é: o que é que nos faz humanos? Qual é limite da natureza humana? Quanto é que devemos amar para nos mantermos humanos?” São estas as questões atuais da vencedora do Man Booker Internacional Prize, surgidas após Atos Humanos. “O amor não era o meu tema antes de Atos Humanos. Uma vez escrevi uma história de amor, mas este livro será mais sobre de quanto amor precisamos para nos mantermos o mais humanos possível.”

Amor e positividade. Não vai ser fácil, dado o momento que se vive hoje na Península da Coreia, com as TVs de todo o mundo concentradas na ameaça nuclear da Coreia do Norte. Na Feira do Livro do Porto, Kang disse que a violência no mundo é omnipresente. “Estou preocupada com as consequências mais imediatas do nuclear. Porque a seguir ao teste houve um terramoto. A radioatividade libertada preocupa-me, como Fukushima”, admite ao Observador. De resto, a vida continua na Coreia do Sul. “A tensão está lá, está a aumentar, mas temos de continuar.”

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