A importância do acaso na história do mundo tem um peso que é muitas vezes subvalorizado. Diz-nos o passado que quando Cristóvão Colombo avistou a pequena ilha que hoje conhecemos como San Salvador, nas Bahamas, estaria convencido que finalmente tinha descoberto o caminho marítimo para a Índia. Sem saber, porém, que estava quase no extremo oposto daquilo que pretendia. Surge a pergunta: isso tirou valor à sua conquista? Aquilo que 53.795 almas hoje testemunharam no Estádio da Luz é perfeitamente comparável com o que aconteceu no Atlântico, há uns 525 anos. Assim como Colombo, André Almeida alcançou por acaso o melhor golo da sua carreira e, consequentemente, a vitória da sua equipa, que sofreu sérias dificuldades frente a um Portimonense que nunca baixou os braços.

A bola começou a rolar pelas 21h e foram precisos apenas quatro minutos para os adeptos benfiquistas acreditarem que este jogo seria fácil: após cruzamento venenoso de André Almeida, Jonas remata com classe por cima da trave da baliza defendida por Ricardo Ferreira. Justamente quando a confiança encarnada começava a crescer, Wellington, avançado brasileiro dos “bianconeri” algarvios, assustou a Luz com um remate perigoso que Bruno Varela sacudiu.

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Benfica-Portimonense, 2-1

Estádio da Luz, em Lisboa

Árbitro: Gonçalo Martins

Benfica: Varela, Almeida, Luisão, Lisandro (Filipe Augusto, 62′), Eliseu; Zivkovic, Pizzi, Samaris, Cervi (Salvio, 45′), Jonas e Seferovic

Suplentes não utilizados: Júlio César, Gabriel Barbosa, Krovinovic e Rafa

Treinador: Rui Vitória

Portimonense: Ricardo, Ricardo Pessoa, Lucas, Ruben Fernandes, Hackman, Pedro Sá, Nakajima (Filipe, 64′), Paulinho, Ewerton (Dener, 45′), Wellinton (Manafá, 73′) e Fabrício

Suplentes não utilizados: Carlos, Ryuki, Pires, Rosell

Treinador: Vítor Oliveira

 

Golos: Fabrício (56′), Jonas (60′, g.p.), André Almeida (78′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Ewerton (21′), Pedro Sá (49′), Paulinho (76′) e Ricardo Ferreira (84′); cartão vermelho a Hackman (59′)

Os minutos foram-se passando e aos poucos ia-se percebendo que a equipa de Vítor Oliveira, o mago das subidas de divisão (já conta com dez, cinco delas consecutivas), ia jogar olhos nos olhos com este Benfica que se apresentou com duas surpresas no onze inicial: o extremo Zivkovic e o trinco Samaris. Aproveitando a fase de recobro de Salvio, o sérvio quis mostrar serviço e passou toda a primeira parte a causar dores de cabeça à equipa adversária. Rápido e com magia nos pés, o extremo foi sempre uma seta apontada à baliza adversária, trabalhando bem tanto com Jonas como com o “comandante” Pizzi. A equipa encarnada carregava, mas o Portimonense mostrava-se osso duro de roer, com um meio-campo trabalhador (boas exibições de Nakajima e Pedro Sá) que era rápido a lançar o contra-ataque, quase sempre liderado por Fabrício, possante avançado que ainda vai dar que falar esta época.

A pouco mais de 15 minutos do intervalo, ambos os lado começaram a reduzir de intensidade até que o apito de Gonçalo Martins enviou toda a gente para o balneário. Por essa altura assistia-se a um jogo onde os da casa faziam-se valer do talento individual e os visitantes do forte espírito de equipa que os unia.

O regresso ao jogo, por sua vez, trouxe um Benfica mais aguerrido, decidido a marcar e resolver de uma vez o destino da partida. Terá o resultado do Sporting pressionado Rui Vitória? Talvez. A verdade é que Cervi deu lugar a Salvio e do outro lado, no reino dos Algarves, também houve mudanças, com Vítor Oliveira a refrescar o miolo com Dener a entrar para a posição de Ewerton. O Benfica ameaçava de mansinho, com lances inofensivos como o livre de Zivkovic que bateu na barreira e rendeu um canto inofensivo. Quando menos se esperava, a Luz calou-se quando Fabrício recebe a bola ainda no meio campo e desata a cavalgar junto à linha. Luisão e os seus rins ficam para trás e o avançado brasileiro marca com um remate colocado, sem hipótese para Varela. Justamente quando as coisas começava a parecer mais complicadas, Salvio cai na grande área com um empurrão de Hackman. Fazem-se soar os assobios e Gonçalo Martins assinala penálti, antes de expulsar o defesa do Portimonense. Com frieza, Jonas atira para o fundo da baliza e tudo volta à estaca zero.

A batalha foi-se intensificando e os algarvios, mesmo com 10 jogadores em campo, foram dando cabo da cabeça de Rui Vitória, que voltou a mexer na equipa tirando Lisandro López (que estava a fazer uma sólida exibição) e pondo no seu lugar Filipe Augusto, obrigando Samaris a recuar para o eixo defensivo encarnado. O correr do tempo ia pesando cada vez mais e o Benfica começava a perceber que podia voltar a perder pontos. Jimenez entrou para tentar contrariar isso, mas a solução não nasceu dos pés do “super suplente” encarnado. O herói seria o André Almeida, o eterno patinho feio do clube da Luz.

Aos 79′, numa das várias arrancadas que foi fazendo pela ala direita, Almeida chega quase ao limite do campo e descobre a América pensado que era a Ásia: ao tentar cruzar, marca um golo fabuloso, em que a bola desenha um ângulo apertado e entra no canto oposto da baliza de Ricardo Ferreira. Por outras palavras, fez por acaso aquilo que Ricardo Quaresma faz com intenção. Com a Luz em plena explosão Almeida corre para os adeptos e por fim, tudo aparenta acabar bem.

O Portimonense não se deixou ir a baixo, continuou a lutar heroicamente e só não regressou ao Barlavento com um meritório empate porque o video-árbitro, polemicamente (como sempre), ditou que Manafá estava em fora de jogo quando cruzou para Fabrício e este meteu a bola na baliza benfiquista.