João Lourenço completou esta quarta-feira o seu 50.º dia como Presidente de República de Angola retirando a liderança da Sonangol e a gestão do canal público de televisão aos filhos do ex-chefe de Estado, José Eduardo dos Santos.

Depois da “razia” de exonerações nas administrações de empresas públicas e outros organismos do Estado que herdou do anterior Presidente, que esteve no cargo 38 anos, até 26 de setembro, João Lourenço exonerou esta quarta-feira Isabel dos Santos de presidente do conselho de administração da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol).

Também esta quarta-feira, 50 dias após a posse como terceiro Presidente da República, João Lourenço, general na reserva, de 62 anos, mandou cessar o contrato com a empresa Semba Comunicação tem como sócios os irmãos Welwitshea ‘Tchizé’ e José Paulino dos Santos ‘Coreon Du’, outros dois filhos de José Eduardo dos Santos, para gestão do canal 2 da Televisão Pública de Angola (TPA).

[Veja no vídeo quem são os três filhos de José Eduardo dos Santos que perderam poder no mesmo dia]

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O Fundo Soberano de Angola (FSDEA), que gere ativos do Estado de 5 mil milhões de dólares, liderado por José Filomeno dos Santos, outro dos filhos do ex-chefe de Estado, é para já o único a escapar às exonerações decididas por João Lourenço.

No sábado, aproveitando as comemorações do 42.º aniversário da independência angolana, João Lourenço alertou para os “inúmeros obstáculos no caminho” deste mandato, mas garantiu que as metas que assumiu, desde logo no combate à corrupção, são para encarar “com a devida seriedade e responsabilidade”.

“Sei que existem inúmeros obstáculos no caminho que pretendemos percorrer, mas temos de reagir e mobilizar todas as energias para que esse cumprimento se efetive nos prazos definidos”, apontou.

No Banco Nacional de Angola, e depois de tirar a confiança política em público, criticando a gestão do governador Valter Filipe, nomeado por José Eduardo dos Santos em 2016, João Lourenço colocou no lugar José de Lima Massano, que regressa após a exoneração em 2015, classificando-o como um “homem íntegro e trabalhador”.

Inesperada foi a rescisão, ordenada pelo Presidente, do contrato de exploração de laboratórios de análises com a empresa Bromangol, acusada pelos empresários de encarecer a importação de alimentos por ser a única reconhecida pelo Estado para realizar as obrigatórias análises laboratoriais.

Acresce a exoneração de funções nomeadas pelo anterior chefe de Estado do responsável pelo Secretariado Executivo do Conselho Nacional do Sistema de Controlo e Qualidade, Jorge Gaudens Pontes Sebastião, que alguma imprensa local aponta como sócio de José Filomeno dos Santos na Bromangol.

Entre todos os decretos de exoneração que João Lourenço assinou em praticamente 50 dias de governação, destaque ainda para as mudanças profundas na comunicação social estatal, que se seguiram à própria extinção do Gabinete de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional e Marketing da Administração (GRECIMA), órgão liderado pelo influente ex-ministro Manuel Rabelais, desde 2012 responsável pela imagem da Presidência de José Eduardo dos Santos.

Foram ainda exonerados os conselhos de administração da Televisão Pública de Angola (TPA), Rádio Nacional de Angola (RNA), Edições novembro e da Agência Angola Press (Angop). No caso da TPA, saiu Hélder Manuel Bárber Dias dos Santos do cargo de presidente do conselho de administração, além de Gonçalves Ihanjica e outros cinco administradores executivos e dois não executivos.

A televisão pública, criticada por observadores nacionais e internacionais pelo excesso de cobertura dada à campanha eleitoral do MPLA, e de João Lourenço, é liderada desde terça-feira por José Fernando Gonçalves Guerreiro.

Da empresa Edições Novembro, que publica o Jornal de Angola, foi exonerado José Ribeiro do cargo de presidente do Conselho de Administração, sendo este também diretor daquele diário estatal e autor dos habituais editoriais críticos às alegadas ingerências de Portugal em Angola, substituído nas funções por Victor Emanuel Nelson da Silva.

Igualmente tida como surpreendente foi a exoneração de Carlos Sumbula do cargo de presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Diamantes de Angola (Endiama), a segunda maior empresa nacional, e que já este ano tinha sido reconduzido nas funções – que ocupava desde 2009 – por José Eduardo dos Santos.

Para controlar as receitas do setor diamantífero, onde precisamente Isabel dos Santos e o marido, Sindika Dokolo, têm vários interesses, o novo Presidente angolano colocou o economista José Manuel Ganga Júnior, antigo diretor-geral da Sociedade Mineira de Catoca, responsável por 75% da produção diamantífera anual do país.

Nos primeiros 50 dias de governação de João Lourenço foi ainda afastada a administração da Empresa de Comercialização de Diamantes (Sodiam), nomeada em julho e que era liderada por Beatriz Jacinto de Sousa, lugar ocupado agora por Eugénio Bravo da Rosa.