O fundador da Altice fez um mea culpa aos investidores, aos clientes, mas também aos colaboradores do grupo francês, dono da PT, com quem falou, pela primeira vez em três anos, esta semana. “E nem me atiraram tomates, nem fizeram críticas”, afirmou esta quarta-feira Patrick Drahi numa conferência com analistas.

Voltar às origens, parar de ir às comprar, reduzir dívida e dedicar mais atenção à satisfação dos clientes. Estes foram os compromissos assumidos pela gestão do grupo francês que, pelo menos para já, travaram a queda sofrida pelas ações nas últimas semanas. A Altice valorizou quase 8% na bolsa de Amesterdão, depois de caído mais de 50% nas últimas semanas, interrompendo um ciclo de oito sessões negativas.

Evolução da cotação da Altice nos últimos três meses

O milionário Patrich Drahi, que reassumiu funções como presidente não executivo do grupo francês, acabou por ser o protagonista da conferencia com os investidores em Barcelona, realizada dias depois de terem sido anunciadas grandes mudanças na estrutura governativa da Altice, e após dias de forte queda das ações do grupo na bolsa de Amesterdão.

O anúncio referia apenas o novo presidente executivo, Dexter Goei — que substituiu Michel Combes — e o administrador financeiro (CFO) Dennis Okhvijsen. Mas Drahi fez questão de aparecer na conferência de empresas do setor em Barcelona, organizada pelo banco de investimento Morgan Stanley. E foi o principal destinatário das perguntas dos analistas.

A Altice vai manter a estratégia, mas o foco tem de ir para a sua implementação em cada mercado. Drahi reconhece que o grupo falhou na implementação de um modelo de negócios que mostrou resultados no passado recente. E falhou sobretudo em França, onde a operadora SFR perdeu 75 mil clientes, num mercado que até está a crescer.

«O principal problema na Franca é a gestão. Não se tratou de todo de um problema da concorrência. Nós gerimos mal a venda de conteúdos. Os clientes saíram porque não soubemos lidar com eles, não vendemos bem o produto”, disse. A prioridade passa a ser uma gestão concentrada na satisfação dos clientes. E uma grande atenção aos detalhes dessa relação. E porque isso aconteceu? Drahi reconhece que a mega-reestruturação que levou à saída de 5000 em 15 mil colaboradores na operadora francesa não ajudou na relação com o cliente. Houve alguma desorganização e pessoas insatisfeitas neste processo onde o patrão da Altice não poupou a lei do trabalho francesa.

Drahi não aponta publicamente o dedo a Michel Combes que foi o presidente executivo nos últimos trimestres, precisamente no período apontado como aquele em que as coisas começaram a correr mal. Mas deixou no ar a ideia de que esta poder ser uma crise de crescimento.

O grupo fazia uma grande aquisição num país e passado seis meses avançava para outro país e para outro grande negócio, ilustrou Drahi. De França para Portugal e para os Estados Unidos, das telecomunicações e do cabo para os media. E não teve a oportunidade de aplicar o modelo de negócio da Altice de A a Z. O que promete fazer agora. Drahi deu ainda palco a Armando Pereira, apesar do português não estar fisicamente na conferência. A nova estrutura da Altice dá poder ao acionista português, que é visto como o homem de confiança de Drahi. Armando Pereira vai dirigir o negócio de telecomunicações, é perante ele que todos os responsáveis nacionais vão responder.

O foco na redução da dívida que está quase nos 50 mil milhões de euros foi outra promessa feita aos investidores. O elevado nível de alavancagem do grupo que cresceu com aquisições financiadas com dívida é uma das principais preocupações sobre a sustentabilidade da Altice a médio e longo prazo. E quando o grupo apresentou resultados no terceiro trimestre aquém do crescimento de receitas e EBITDA (margem operacional) anunciados, disparou o final de alarme que colocou as ações sob alta pressão.

O presidente executivo prometeu reduzir a dívida e anunciou venda de ativos não estratégicos, referindo como exemplo as torres de telecomunicações. “Vamos voltar às origens”, disse Dennis Okhuijsen que afastou também mais aquisições. Sobre o acordo para comprar a Media Capital em Portugal, um negócio de 440 milhões de euros que aguarda aprovação da Autoridade da Concorrência, nem uma palavra. Ficaram também promessas de voltar a crescer no curto prazo.