Vinho

Lígia cruzou-se com o vinho e mandou construir uma adega de design no Dão

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Deixou a advocacia pelo vinho, a convite do pai, e meteu o nariz a fundo na empresa que hoje controla. Lígia Santos é CEO da Caminhos Cruzados, que agora tem uma adega futurista no coração do Dão.

A adega demorou dois anos a ser construída e ficou concluída em 2017.

@Joao Pedro Correia

São três horas de caminho entre Lisboa e Nelas, na região do Dão, onde fica a nova adega da empresa Caminhos Cruzados. Até lá chegarmos há um espetáculo triste, de árvores queimadas e terra enegrecida nas margens da estrada. Os fogos que este ano devastaram o país deixaram um rasto persistente no distrito de Viseu, mas quis o vento que as vinhas e a adega de design de Lígia Santos fossem poupadas.

“Bem-vindos a nossa casa”, diz a CEO da empresa vinícola à entrada do novo edifício, resultado de um investimento de 2 milhões de euros. Há vinhas, cuja folhagem ligeiramente dourada anuncia a presença de um outono carregado, de ambos os lados do carreiro de pedra. Ao fundo, a adega — duas colunas de betão vão ao encontro uma da outra, formando uma cruz à imagem e semelhança do símbolo usado nos rótulos.

A enologia conta com os nomes Manuel Vieira e Carlos Magalhães, dois enólogos particularmente conhecidos no Dão. ©Ana Cristina Marques/Observador

A obra projetada pelo arquiteto Nuno Pinto Cardoso está inserida na centenária Quinta da Teixuga (que dá nome aos topos de gama da empresa, sendo que o primeiro tinto, colheita de 2014, só deverá chegar ao mercado em setembro de 2018). Os cuidados ambientais estão pontualmente presentes na adega, seja pelo mecanismo no topo da estrutura que permite o armazenamento da água da chuva (o período de seca que vivemos ainda não permitiu atestar a sua eficácia), seja pelas muitas claraboias que inundam o interior de luz natural.

A nova adega é a menina dos olhos bonitos de Lígia Santos, que cresceu com a marca que o pai fundou. A Caminhos Cruzados surge oficialmente em 2012 no centro de Nelas, altura em que ocupou uma antiga adega que, nos idos anos 1960, pertenceu a um graneleiro de extrema importância local. Não demorou muito para que o projeto que cresceu tanto em tão pouco tempo precisasse de espaço para respirar — a equipa ainda se lembra de como teve de parar o trânsito para entrar com cubas na adega.

Lígia Santos trocou uma carreira na advocacia para se dedicar à Caminhos Cruzados. @Divulgação

O dia da mudança para a nova adega, 24 de agosto, ficou marcado na memória de Lígia. Não só pela estreia do novo escritório, mas porque a data assinala o arranque (cedo, muito cedo) da vindima — o ano quente assim o obrigou. Curiosamente, este foi também o primeiro ano em que Lígia conseguiu não abdicar da vindima (o que acontecia sucessivamente por motivos profissionais). Durante dois meses, a jovem mulher que deixou a carreira na advocacia para se entregar ao negócio do vinho mudou-se de Lisboa para Nelas. “A parte da prova é extraordinária, mas isolada da produção… não vou dizer que não faz sentido, mas agora vejo a história toda. É engraçado como é possível ver um ano num copo de vinho”, comenta.

A empresa tem as seguintes marcas: Terras de Nelas, Terras de Santar, Titular e Teixuga. © Ana Cristina Marques/Observador

Lígia está há três anos e meio na Caminhos Cruzados. Começou na parte comercial e foi gradualmente metendo o nariz no vinho. “Antes, gostava de vinho — como se diz no currículo — na ótica do utilizador”, brinca, ao mesmo tempo que conta que a única ligação com o néctar remetia para a produção caseira dos avós e para as vezes em que o pai incentivou os filhos a provarem diferentes rótulos.

Entrar para a empresa foi decisão tomada após um namoro longo, mas hoje é fácil encontrá-la na nova adega, seja no espaço de provas, com direito a lareira acesa nos dias mais frios e vista para a sala com 135 barricas, seja na loja, onde as diferentes referências da casa (Terras de Nelas, Terras de Santar, Titular e Teixuga) invadem as prateleiras e um vídeo de apresentação passa ininterruptamente — de todas as vezes, termina com o slogan “O novo Dão”.

“Somos novos no vinho, na medida em que não temos uma empresa histórica, e também temos uma equipa jovem, estando, muito provavelmente, numa das regiões mais tradicionais do país”, garante Lígia, que defende que a empresa da qual é o rosto representa uma proposta diferente e moderna — a adega de betão, futurista e construída com cuidados ambientais, parece ser prova disso.

A adega está aberta para visitas a partir de seis euros por pessoa, sendo que há vários programas preparados, desde o piquenique na vinha aos workshops e almoços/jantares na adega. Quinta da Teixuga, Estrada Municipal Algeraz, Carvalhal Redondo, Nelas (tel.: 232 940 195)

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