O cenário com que as autoridades se depararam no passado domingo foi o mais recente deste género: “Várias crianças acorrentadas às suas camas com correntes e cadeados, na escuridão e num ambiente com cheiros nauseabundos“. David Allen Turpin, de 57 anos, e Louise Anna Turpin, de 49, mantinham os seus 13 filhos em cativeiro enquanto davam uma aparência de família perfeita através de fotografias que partilhavam frequentemente numa página de Facebook que o casal tinha em conjunto. Foi a filha de 17 anos — que “parecia ter 10” devido ao seu “tamanho pequeno” e “aparência magra” — que salvou os outros 12 irmãos. Na madrugada do passado domingo, a jovem conseguiu fugir pela janela e contar a “história perturbadora” às autoridades. Muito já se sabe, mas muito falta saber sobre o macabro caso — que está longe de ser único.

Viagens à Disneyland, fotos no Facebook e uma ‘família perfeita’. A história do casal que acorrentou os 13 filhos

O “monstro de Villa Balnearia”, Argentina

Domingo Bulacio transformou a filha numa escrava sexual durante 20 anos e teve oito filhos dela

“Desde o momento em que a minha mãe saiu de casa, tornei-me a mulher do meu pai. Ele batia-me e costumava perseguir-me em redor da casa com um pedaço de madeira quando me via a conversar com um vizinho ou simplesmente queria abusar de mim”, contou Antónia, a vítima, ao jornal local El Liberal, em declarações que foram reproduzidas por outros jornais argentinos.

A mãe deixou a família quando a filha tinha apenas sete anos. Os outros irmãos de Antonia — pensa-se que eram três — foram com a mãe, mas ela foi forçada a ficar, a pedido da mãe que a abandonava, para “desempenhar o papel” dela. Pouco tempo depois, quando Antonia tinha acabado de completar nove anos, o pai, Domingo Bernardino Bernacho Bulacio, conhecido apenas por Bernacho, de 57 anos, transformou a filha numa escrava sexual.

Ele não me mandou para a escola, não podia ter amigos, nunca me levava a nenhum sítio ou me dava sapatos novos. Ele era o meu pai. Eu não sabia o que era [que estava a acontecer] mas sei que não gostei. Ele batia-me”, disse Antonia ao jornal local El Liberal.

Durante duas décadas, desde 1996, Antonia foi “repetidamente violada pelo pai. Das violações resultaram oito filhos — testes de ADN feitos mais tarde confirmaram que eram mesmo filhos de Bernacho. O primeiro bebé nasceu quando tinha 14 anos. Agora, as oito crianças vivem com ela.

Bernacho — conhecido por “monstro da Villa Balnearia” — ouvido em tribunal (Foto de infobae/Twitter)

Os crimes aconteceram na cidade de Villa Balnearia, na província de Santiago del Estero, no norte da Argentina. O caso — considerado “um dos mais aberrantes da história mais recente da Argentina” — foi descoberto em abril de 2016, quando a vítima foi a uma clínica com um dos seus filhos e lhe pediram detalhes sobre o pai da criança. Nessa altura, Antonia contou a sua história aos médicos. Quando as autoridades foram informadas, Bernacho fugiu. Demorou 45 dias até a polícia o encontrar — na casa de familiares, a 58 quilómetros a sul da sua casa — e o deter. No final do ano passado, foi condenando pelo tribunal de Santiago del Estero a 12 anos e oito meses de prisão.

Em tribunal, Antonia, já com mais de trinta anos, deixou uma revelação: “Eu não sou a única. Há familiares dele que fazem o mesmo com as suas irmãs e filhas”, relatou o diário espanhol ABC. Em abril de 2014, Antonia chegou a suspeitar que o pai dela e pai dos seus filhos também abusava de uma das crianças que tinham tido.

O “monstro de Amstetten” do número 40 da rua Ybbsstrasse, Áustria

Josef Fritzl, o pai que violou a filha durante 24 anos, teve sete filhos dela e matou um deles

No bairro onde vivia, Josef Fritzl era um homem casado e de respeito perante todos aqueles que desconheciam a sua vida dupla. “A cave na minha casa pertencia-me a mim e unicamente a mim. Era o meu reino, ao qual só eu tinha acesso“, disse Fritzl — que ficou conhecido como o “monstro de Amstetten” — através do seu advogado, citado pela BBC. Tal como o caso de Bernacho, este foi considerado “um dos piores da história do crime” da Áustria.

Sem que a sua mulher (aparentemente) se apercebesse, Fritzl manteve a filha, Elizabeth, em cativeiro, trancada na cave da casa com o número 40 da rua Ybbsstrasse, em Amstetten, na Áustria. Antes, o pai forçou a filha a escrever uma carta, onde dizia que tinha fugido para se juntar a uma seita e pedia que não a procurassem.

Eletricista de profissão, Fritzl instalou fechaduras elétricas na cave, que só podiam ser abertas através de um código. A porta era feita de cimento que deslizava através de controlo remoto e estava escondida atrás de prateleiras na oficina que tinha na casa.

Josef Fritzl, pai de Elizabeth, com quem teve sete filhos (Foto de Negativxcrexp/Twitter)

Desde 1984, quando Elizabeth tinha 18 anos, até à data em que o caso foi descoberto, em 2008, passaram 24 anos. Fritzl violava a filha enquanto ela estava acorrentada à parede. Durante esse tempo, a Elizabeth engravidou sete vezes. Três dos filhos — Alexander, Monika e Lisa — foram “adotados” por Fritzl e pela sua mulher, mãe de Elizabeth. Outros três — Kerstin, Stefan e Felix — ficaram presos com a mãe na cave da casa, com pouco mais de 60 metros quadrados. Fritzl conseguiu explicar “de forma muito plausível” como três dos seus netos aparentemente apareceram à sua porta, revelaram os serviços sociais locais na altura. Uma das sete crianças morreu e Fritzl queimou o corpo e espalhou as cinzas no jardim da sua casa, como o próprio admitiu.

O caso foi descoberto em 2008, quando o filho mais velho de Elizabeth que vivia com ela na cave ficou doente e ela convenceu Fritzl a levá-lo ao hospital. A equipa médica percebeu que algo estava errado e alertou a polícia. Quando foi descoberta, a jovem teve que ser colocada em coma induzido depois de sofrer ataques de cólicas causados ​​por deficiência de oxigénio e problemas renais.

O “monstro de Amstetten” foi condenado a prisão perpétua por crimes de violação, incesto, assassinato e escravização. Fritzl já tinha sido condenado antes e cumprido um período na prisão por ter violado uma mulher em Linz, outra cidade austríaca, em 1967. O juiz ordenou que Fritzl fosse internado numa instituição psiquiátrica segura. Em tribunal, o homem chegou a ser considerado deficiente emocional pelo psiquiatra Adelheid Kastner. Mais tarde, após ter sido submetido a uma avaliação psiquiátrica ordenada pelo tribunal, veio a descobrir-se que Fritzl esteve consciente das suas ações durante todo período de 24 anos. “Desculpa do fundo do meu coração. Infelizmente, não posso mudar nada agora”, disse Fritzl na altura.

Natascha Kampusch, a “menina da cave” do número 60 Heine Strasse, Áustria

Wolfgang Přiklopil, o fã de Hitler que abusou de Natascha Kampusch durante oito anos

“3.096 dias”. É este o título do livro lançado em 2010, escrito por Natascha Kampusch, que conta a história de uma jovem aprisionada entre 1998 e 2006, na Aústria. Não é um livro de ficção. Natascha foi mesmo mantida em cativeiro durante 3.096 dias, cerca de oito anos e meio. O caso foi assunto em jornais de todo o mundo. Natascha deu várias entrevistas, nas quais falou acerca da dificuldade de lidar com a atenção dos media. “A vida em liberdade não é tão boa quanto eu imaginava”, disse, na altura, ao jornal austríaco Krone. Mesmo assim, Natascha chegou a ter um programa de entrevistas seu.

A jovem recebeu duras críticas e foi acusada de estar a aproveitar-se do que lhe aconteceu para conseguir fama. Foi também criticada por nunca ter explicado os detalhes dos oito anos e meio que viveu em cativeiro. Chegou mesmos receber acusações de ter mentido sobre o que aconteceu. “Fugi de um inimigo e de repente tinha dezenas de inimigos, milhares até em fóruns da internet”, disse na época.

A primeira entrevista de Natascha Kampusch foi transmitida em mais de 200 canais. (Foto de HLN_BE/Twitter)

Em 1998, quando tinha apenas dez anos, Natascha foi abordada por Wolfgang Priklopil quando ia a caminho da escola e levada para dentro de uma carrinha com destino ao número 60 Heine Strasse, na cidade de Strasshof, nos subúrbios de Viena, capital da Áustria — a cerca de meia hora de distância da casa onde Natascha vivia com os pais. Nessa morada, Priklopil, um antigo engenheiro de telecomunicações, tinha à sua espera um compartimento de seis metros quadrados sem janelas, com paredes à prova do som, debaixo da garagem.

Natascha conseguiu escapar em agosto de 2006, quando tinha 18 anos e Priklopil 44. Natascha estava a limpar o carro do seu agressor no jardim e aproveitou o momento em que ele estava ao telefone e o portão estava destrancado. Fugiu até casa de uma mulher, onde pediu ajuda.

Wolfgang Priklopil tinha 44 anos quando Natascha fugiu (Foto de thepainterflynn/Twitter)

Oito horas depois de Natascha ter fugido, Wolfgang Priklopil — que tinha o livro “Mein Kampf”, de Hitler, na prateleira de um móvel da sua casa — suicidou-se, atirando-se para a frente de um comboio em Viena. “Por vezes, simbolicamente falando, ele era o meu apoio e, outras vezes, aquele que me batia. No meu ponto de vista a sua morte não era necessária. [Priklopil] foi parte importante da minha vida e, por isso, sinto tristeza por ele”, disse Natascha no primeiro comunicado de imprensa depois de ter fugido. Especialistas definiram este afeto que Natascha ganhou pelo seu agressor como síndrome de Estolcomo — quando a vítima cria laços com o criminoso e chega até a colaborar com ele.

A verdade é que Priklopil tinha duas versões de si próprio: aquela em que lhe batia e abusa sexualmente de Natascha e outra em que lhe dava alimentos e, até, lhe lia histórias. Muitas noites, a jovem era obrigada a dormir de mãos amarradas a ele. Com o passar do tempo, Natascha passou a poder sair da cave e limpar a casa do agressor, sempre nua ou seminua — a forma que Priklopil arranjou para prevenir que fugisse. Natascha chegou a sair de casa ao lado de Priklopil, mas sempre sob a ameaça de que, se tentasse fugir, seria morta por ele, tal como a sua família.