Diz-se que em política tudo o que parece é. E Assunção Cristas parece estar em campanha eleitoral. Só que não está, diz ela. “Boa sorte para a sua campanha”, ouve dizer na baixa de Setúbal, enquanto distribui folhetos com a sua fotografia num fundo vermelho e verde, estilo bandeira de Portugal. Mas apressa-se a retificar: “Isto não é campanha, é ouvir Portugal”. A ideia é a mesma, ouvir os problemas e queixas dos portugueses, eleitores, e preparar terreno para 2019. Foi o que aconteceu esta terça-feira em Setúbal, no âmbito das jornadas parlamentares do CDS que decorrem naquele distrito. Cristas pegou nos flyers e, à semelhança do que tinha feito em Lisboa, entrou de passo apressado em todas as lojas do trajeto. Só que, numa ourivesaria, encontrou um público difícil.

“Para mim o CDS acabou, mas também não voto no PS, não voto em nenhum. Nos próximos tempos não contem com o meu voto, e eu até cheguei a votar no Passos Coelho, mas nunca mais“. A queixa é do dono de uma ourivesaria da baixa setubalense, que ainda está zangado pela “máquina” que o ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais Paulo Núncio, do CDS, o “obrigou” a comprar. “Fomos massacrados, eu fui obrigado a comprar aquela máquina com o software específico para meses depois dizerem que já não servia: só fiscalizam os pequeninos, os grandes dos Panama Papers safam-se sempre”, insistia, dizendo que era o que ouvia nos jornais. Mas Cristas não se ficou, e quis “explicar”. “Estou aqui para ouvir o que as pessoas pensam e para repor alguma verdade”, dizia, enquanto tentava explicar a sua versão da história, nomeadamente sobre os paraísos fiscais.

Foram cerca de 10 minutos de “debate” intenso. Primeiro sobre Paulo Núncio, depois, mais alargado, sobre a descrença nos políticos. Cristas ia acenando, compreendendo, partilhando os problemas com o seu interlocutor. “Eu, enquanto ministra da Agricultura também sofri com Paulo Núncio, e tentei mudar algumas coisas”, dizia, a espaços, antes de defender a estratégia do anterior governo para combater os paraísos fiscais. Mas o dono da ourivesaria já tinha passado por aquilo, já tinha feito as mesma queixas à anterior ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, que, sendo deputada eleita por Setúbal, também já lá tinha estado em campanha. O ponto é esse: “Já estou habituado, só vêm cá ouvir-nos quando estão em campanha”, dizia. Mas o argumento de Assunção Cristas também era precisamente esse: “Está habituado na altura das campanhas, não é dois anos antes, como nós estamos a fazer”.

Pode não ter conquistado (já) o voto daquele eleitor descrente, que dizia que só voltaria a exercer o direito de voto quando surgisse alguém que o “convencesse de que valia a pena”, mas a líder do CDS tentou: pediu-lhe que lhe enviasse um e-mail com as suas preocupações, e prometeu que estaria atenta. É isso que diz o folheto que anda a distribuir: “Sabemos que as pessoas sentem muitas vezes um distanciamento da política, mas eu acredito na proximidade, por isso lanço-lhe o convite para conversar comigo, para me fazer chegar as suas ideias e as suas preocupações”, lê-se.

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Faltam dois anos para as eleições, mas o CDS sabe que só teve um resultado tão bom em Lisboa, nas autárquicas, porque Assunção Cristas foi cedo para o terreno. A ideia é repetir a estratégia. Antes do passeio pela baixa de Setúbal, a comitiva das jornadas parlamentares do CDS tinha estado no hospital de Setúbal, reunida com a administração e a constatar as condições em que os serviços de saúde se encontram. “Vimos que a urgência está subdimensionada para as necessidades, muito pequena, com muitas macas nos corredores, com muitas macas no serviço de observação. Mostraram-nos tudo, sem nos esconderem nada, precisamente para nos sensibilizarem para a necessidade de haver um investimento nesta área dos serviços de urgência”, começou por dizer aos jornalistas, sublinhando que o hospital São Bernardo tinha um investimento previsto de 8 milhões de euros para a construção de um novo edifício para os serviços de urgência, que mereceu luz verde do Ministério da Saúde, mas que acabaria por bater na trave do Ministério das Finanças. “O Governo não faz os investimentos necessários nos serviços de saúde”, concluiu, exigindo que esse investimento seja feito.

O segundo dia das jornadas parlamentares dos centristas é dedicado precisamente à saúde, estando previsto para a tarde um debate sobre as formas de “repensar” o Serviço Nacional de Saúde.