Na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, dedicou grande parte do seu discurso a um tema que está a pesar no bolso dos portugueses: a subida do preço dos combustíveis. O chefe do Executivo frisou que a crise energética, gerada após os conflitos internacionais, está a afetar todo o mundo, sendo que “nenhum país está imune” aos impactos “sociais e consequências indesejáveis” do fenómeno.

Perante a ONU, Luís Montenegro disse ser uma “crise sem sentido”, que é “prejudicial para toda a gente”. “Devemos pôr fim a este masoquismo coletivo e fechar este capítulo. Temos o dever de não esquecer as lições de 1970 e evitar repetir o que aconteceu”, lembrou. O primeiro-ministro considerou ser importante “lidar com as consequências” da subida do preço dos combustíveis. “Por um lado, é urgente terminar os conflitos ativos. Por outro, devemos discutir como complementar e mitigar a crise energética.”

“Acredito que será benéfico discutir os mecanismos de como os preços do petróleo são determinados”, salientou Luís Montenegro, que admitiu que a questão “não tem uma solução” fácil. “É complexo e difícil. Pergunto-me por que motivo é que estamos tão dependentes da especulação e da volatilidade dos mercados, que afetam o setor produtivo”, assumiu o líder do PSD.

Montenegro critica “ações agressivas do Irão” e sai em defesa da Ucrânia

Numa “ordem internacional” que se viu abalada por “guerras e conflitos geopolíticos”, Luís Montenegro criticou duramente as “ações agressivas do Irão”, incluindo “os ataques em países vizinhos, em embarcações e infraestruturas civis”. O primeiro-ministro defendeu que o “bloqueio” do Estreito de Ormuz deve terminar, para que a “liberdade de navegação” se consagre. Na mesma senda, o chefe do Executivo mostrou a sua oposição à imposição de portagens no Mar Vermelho.

No Médio Oriente, Luís Montenegro lamentou as vítimas que os conflitos já causaram, defendendo a solução de dois Estados, referindo que as duas nações — Israel e Palestina — devem “coexistir em paz e segurança”.

Já na Ucrânia, o primeiro-ministro foi bastante mais enfático no apoio ao país invadido. Luís Montenegro condenou a “guerra brutal e a ilegal agressão” da Rússia, pedindo uma paz justa e duradoura. Na Assembleia-Geral, o primeiro-ministro garantiu: “A Ucrânia é um parceiro e tem o total apoio de Portugal e da União Europeia”.

Montenegro lembra alterações climáticas

“Em Portugal, sentimos os impactos devastadores das alterações climáticas”, constatou Luís Montenegro perante os Estados-membros da Assembleia-Geral da ONU, elencando: “Incêndios florestais, erosão da costa e degradação dos ecossistemas marítimos”. “Mais frequentemente, há eventos climáticos intensos, como tempestades, tornados e cheias”, disse o primeiro-ministro.

É por isso que Portugal aposta na “transição energética”. “Mais de 70% da produção energética vem de fontes renováveis”, apontou. “As mudanças climáticas e a liberdade de navegação são prioridades comuns da nossa política. O mar e o oceano. Proteger a diversidade marítima, lidar com a ameaça da subida do mar e assegurar a liberdade dos mares têm de estar na agenda dos oceanos”, disse Luís Montenegro.

O tributo a Guterres e a reforma no Conselho de Segurança

Luís Montenegro aproveitou o discurso para elogiar o trabalho de António Guterres à frente da instituição, principalmente pelo “respeito pela Carta das Nações Unidas, o respeito pelo Direito Internacional e o multilateralismo”. O primeiro-ministro salientou que o secretário-geral fez um “trabalho incansável” nestes últimos dez anos.

Para Luís Montenegro, as Nações Unidas são uma “obra-prima” política da Humanidade, defendendo ainda o multilateralismo. No entanto, o chefe do Executivo defendeu que o Conselho de Segurança das Nações Unidas — o órgão mais importante — precisa de ser mais “transparente, mais democrático e mais representativo”.

Lembrando ainda a importância do português no mundo, o primeiro-ministro agradeceu a “confiança depositada” em Portugal que permitiu a eleição à primeira volta para um lugar neste órgão para o biénio 2027-28. “A partir de janeiro, Portugal levará para o Conselho de Segurança, como membro não permanente, uma vocação global e uma cultura de diálogo e de construção de pontes”, assegurou, sublinhando que o país conhece bem os desafios com que se confrontam os países menos avançados.

Segundo Luís Montenegro, no Conselho de Segurança, “Portugal estará empenhado em três grandes prioridades: prevenir, cooperar e proteger”. “Prevenir as crises e os conflitos com grave impacto humano, que infelizmente grassam em vários continentes, porque não há conflitos de primeira e de segunda classe. Todos nos interpelam. Todos”, assegurou.

Em segundo lugar, “cooperar e desenvolver parcerias, num Conselho mais transparente, mais representativo e mais democrático”. “E proteger a dignidade humana, combatendo a pobreza e salvaguardando os direitos fundamentais, a segurança alimentar e o futuro das novas gerações”, acrescentou.

O primeiro-ministro prometeu ainda empenho para tornar o Conselho de Segurança “mais representativo, o que passa por lugares permanentes para África, o Brasil e a Índia, assim refletindo a evolução do mundo”.