A inovação tecnológica e as novas diretivas europeias para o setor financeiro podem “revolucionar” a banca e, se o setor não der uma resposta adequada, só com a nova diretiva de pagamentos pode esfumar-se 25% a 40% do produto bancário líquido dos bancos. A expressão “revolucionar” é de Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, e a projeção é da consultora Roland Berger, também citada por Carlos Costa num discurso esta terça-feira em Lisboa. O governador do Banco de Portugal avisa os bancos que, além de investirem em inovação internamente, devem olhar para as chamadas fintech como potenciais aliadas para combater empresas que podem ser uma ameaça bem maior para os bancos — e que Carlos Costa chama de “Techfin”: empresas como a Google, Facebook, Amazon e Apple.

A distinção entre fintech e “techfin” não consta da versão formal do discurso de Carlos Costa (disponível, na íntegra, aqui) mas foi uma das notas de improviso do governador do Banco de Portugal numa conferência organizada pela Associação Portuguesa de Bancos (APB) e pela SIBS sobre o futuro do setor bancário, a Banking Summit. Se todos já conhecem a expressão fintech para descrever as pequenas empresas — startups, normalmente –, que querem propor serviços inovadores e potencialmente disruptivos, Carlos Costa sublinha o impacto que podem ter outras empresas que, ao contrário das fintech, são empresas que já têm uma posição importante em alguns setores e, agora, estão cada vez mais a entrar nos serviços financeiros.

A nova diretiva dos pagamentos, DSP2 (ou PSD2, na sigla anglo-saxónica) “contribui para a criação de um mercado único para os serviços de pagamento promotor da concorrência, que incentiva a inovação e a mudança, ao introduzir a possibilidade de criação dos serviços de informação sobre contas e dos serviços de iniciação de pagamentos por prestadores que se consideram ‘terceiros’ na relação entre o utilizador e o seu banco”, diz Carlos Costa.

“Esta abertura a prestadores de serviços que se consideram ‘terceiros’ na relação entre o utilizador e o seu banco abre o espaço para a entrada de novos concorrentes que detêm uma vantagem tecnológica, como as fintech, e se especializam em nichos de mercado ou que dispõem e operam já com bases gigantes, como a Google, o Facebook, a Amazon e a Apple, e têm experiência na gestão de ‘big data’” — estas são as empresas que o governador do Banco de Portugal chama de “Techfin”.

É neste contexto que os bancos devem olhar para as fintech “não apenas como concorrentes dos prestadores tradicionais” mas, sobretudo, como empresas que podem ser instituições complementares ou parceiras”, nota Carlos Costa, acrescentando que estas “podem ser instrumentais, ajudando os incumbentes a ultrapassar as condicionantes associadas ao baixo crescimento da atividade e à baixa rentabilidade e, ainda, a restabelecer e reforçar os níveis de confiança e de reputação, postos em causa com a crise financeira de 2007”.

O acesso a novas tecnologias e a utilização de inteligência artificial vão determinar uma transformação do lado da oferta, na medida em que permitem extrair mais informação das bases de dados de que os bancos dispõem. Desse modo, vão permitir uma melhor adequação da oferta das instituições financeiras às necessidades dos seus clientes, quer ao nível do retalho (robo-advice) através da promoção de produtos de crédito ou poupança ajustados às preferências dos financiados ou dos aforradores, quer através da conceção de propostas de investimento e de gestão de património que tiram partido da capacidade de operar com mais produtos e mais mercados e conceber produtos ajustados a perfis mais finos de preferências reveladas pelos investidores (wealth management).

O governador d0 Banco de Portugal diz que se os bancos responderem com “inércia”, vão confrontar-se “com uma compressão das margens e limitação de cross-subsidiation, acabando por se tornar meras plataformas de captação de depósitos e de colocação de produtos, com a criação de valor a ocorrer fora da sua esfera, levando ou a uma progressiva perda de contacto com os clientes, ou a uma incapacidade de os trabalhar de forma autónoma”.

Nesse contexto, “o conhecimento/contacto transfere-se para gigantes digitais que, já possuindo acesso a vastos conjuntos de informação dos clientes, começarão a focar-se na cadeia de valor do sector bancário, podendo, no limite, originar um efeito de crowding out dos bancos”, avisa Carlos Costa.

A alternativa, será uma “profunda transformação do sector, em que os bancos internalizam as novas tecnologias, através da aquisição ou do desenvolvimento interno de fintechs e soluções tecnológicas afins. Neste cenário, os bancos tiram partido da confiança e notoriedade histórica que têm junto dos seus clientes para promover soluções cada vez mais focadas nas necessidades dos consumidores, que lhes permitem capturar novas fontes de receita ao mesmo tempo que reduzem vários custos de funcionamento”.

“Até quando serão necessárias tão vastas redes de balcões?”

Carlos Costa sublinha que “os bancos têm de se adaptar a uma nova realidade do lado da procura, confrontados com clientes que procuram soluções flexíveis, personalizadas, imediatas, em qualquer sítio a qualquer momento, reformulando a sua própria oferta”. E têm também de estar constantemente a refletir sobre se têm a estrutura mais adequada: “à medida que novos players totalmente digitais entram no mercado providos de licenças para operar em livre prestação de serviços, começa-se a questionar até quando será necessária uma tão vasta rede de balcões como aquela que ainda caracteriza os sistemas bancários de vários países Europeus”.

A resposta a esta questão vai depender do grau de literacia financeira e digital da população, da forma como as diversas gerações valorizam a confidencialidade das suas informações bancárias e da medida em que a proteção de dados seja assegurada. Na ausência de literacia digital e, em particular, do entendimento das implicações que a maior partilha de informação financeira comporta, os clientes bancários ficam expostos a ações ilegais e fraudes.”

“Importa, pois”, remata Carlos Costa, “que as diversas instituições, e em particular os bancos, promovam a consciencialização dos clientes bem como os níveis mínimos de literacia financeira e digital para que estes entendam que o aumento de opções e produtos traz consigo um maior grau de responsabilização”.

Num outro improviso em relação ao discurso formal, o governador do Banco de Portugal alertou para o risco de se criarem condições para “enganos” em setores ou instrumentos vistos como ativos, como, suspeita Carlos Costa, “alguns que estão em voga”, numa clara referência ao fenómeno das criptomoedas.