O torneio feminino de hóquei em gelo tornou-se, de forma inevitável, um dos grandes focos dos Jogos Olímpicos de Inverno devido à participação da equipa unificada da Coreia numa grande competição 27 anos depois de terem marcado presença no Campeonato do Mundo Sub-20 de futebol, em Portugal. Não ganharam nenhum dos cinco jogos, foram goleadas em quase todos, conseguiram marcar apenas dois golos (o primeiro dos quais apontado por uma jogadora que até nasceu nos Estados Unidos, tendo depois avançado com a naturalização sul-coreana) e sofreram 28. No entanto, houve outras vitórias.

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Do ambiente de festa que conseguiu ser criado na Gangneung Ice Arena à claque norte-coreana que fez os encantos de toda a gente, passando também por uma parte mais diplomática e política de aproximação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul (no primeiro encontro contra a Suíça, Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, esteve na tribuna entre Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, e Kim Yo Jong, irmã do líder Kim Jong Un), tudo correu da melhor forma e já se começa a falar de novas experiências do conjunto unificado em futuras grandes competições desportivas.

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Ainda assim, houve outra história que dominou o arranque da competição: a das irmãs Hannah e Marissa Brandt, que iriam competir pelas equipas dos Estados Unidos e da Coreia, respetivamente. Após nascer em Seul, Marissa, também conhecida por Park Yoon-jung, foi adotada com apenas quatro meses pelos pais biológicos de Hannah, dois anos mais nova, e daí nasceu uma relação muito próxima, no mundo desportivo (começaram na dança, na ginástica e na patinagem artística, passando depois para o hóquei em gelo) e fora dele. E jogaram sempre juntas, até cada uma ir para a sua faculdade.

Cada uma teve o seu triunfo: Marissa, apesar das derrotas sucessivas que deixaram a Coreia no oitavo e último lugar da classificação, aproveitou a oportunidade para conhecer mais do seu país de nascimento e apresentá-lo também à irmã; Hannah, apesar da derrota na fase de grupos com o Canadá, conseguiu chegar à tão desejada final. E ganhar, no desempate. Mas se o hóquei em gelo feminino começou com uma história entre irmãs, acabou por ser decidido por duas gémeas.

Nascidas a 3 de julho de 1989 na Dakota do Norte, as Lamoureux são as grandes heroínas do momento nos Estados Unidos, depois do triunfo das americanas frente ao Canadá na final de hóquei em gelo feminino, quebrando um jejum de 20 anos sem medalhas de ouro na competição (e com três finais perdidas para as canadianas pelo meio, entre 2002, 2010 e 2014). Monique, no terceiro e último período, fez o empate a dois que levou a decisão para prolongamento a seis minutos do fim; Jocelyne apontou o golo que decidiu a final no shootout (e que golo, acrescente-se).

Monique e Jocelyne Lamoureux perderam a final olímpica em 2010 e 2014 (ano da foto), mas venceram em 2018 (Harry How/Getty Images)

Todo o percurso até ao momento foi feito em conjunto: na Peewee A, na Shattuck-St. Mary School, nos Minnesota Golden Gophers, nos North Dakota Fighting Sioux, na seleção. Iam somando títulos atrás de títulos, como os seis Mundiais entre 2009 e 2017 (perderam apenas uma vez na final, em 2012). Faltava o ouro olímpico, “impedido” pelo Canadá em 2010 (2-0) e em 2014 (3-2, após prolongamento). Agora, têm o currículo cheio. E com intervenção direta nessa inversão de desfecho: como Monique contou à NBC logo após o final do encontro, o movimento de Jocelyne que decidiu a final tem sido treinado pelas gémeas com um dos técnicos americanos, Peter Elander. E até tem nome: “Oops, I did it again”.