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José Silva, técnico informático do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça (IGFE) a quem a juíza Cláudia Pina aplicou a medida de coação de prisão preventiva no seguimento do primeiro interrogatório da operação e-toupeira no Tribunal de Instrução Criminal (TIC), terá tido um encontro com Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, no estádio da Luz em janeiro.

Por que razão a alegada toupeira ficou presa e Paulo Gonçalves foi libertado?

A informação, avançada esta sexta-feira pelo Correio da Manhã, tem como base uma conversa que terá sido interceptada pelos inspetores da Unidade de Combate à Corrupção da PJ durante as escutas telefónicas feitas ao arguido acusado agora de um crime de corrupção passiva, um de favorecimento pessoal, quatro de violação de segredo de Justiça, um crime de falsidade informática e nove crimes de acesso ilegítimo e burla informática, em paralelo com ações de vigilância não só a José Silva mas também a Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica acusado de um crime de corrupção ativa e quatro de violação de segredo de Justiça em co-autoria (está por isso proibido de contactar os restantes arguidos no caso).

Em janeiro, numa dessas ações de vigilância, o funcionário judicial terá sido fotografado no piso 1 do estádio da Luz a conversar com Paulo Gonçalves, seguindo-se o alegado encontro com o presidente do Benfica. De referir que, nesse mês, os encarnados fizeram apenas dois encontros em casa, ambos a contar para a Primeira Liga: no dia 3, receberam o Sporting no dérbi a contar para a penúltima jornada da primeira volta (1-1); no dia 20, defrontaram o Desp. Chaves na 19.ª ronda (3-0).

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O Correio da Manhã adianta ainda mais um dado que pode ser importante no desenrolar deste processo: os inspectores da PJ terão encontrado na gaveta do gabinete de Paulo Gonçalves, nos escritórios da SAD no estádio da Luz, um currículo de Fernando Rocha, sobrinho de José Silva que a Sábado avançou que teria sido contratado como funcionário do Museu Cosme Damião, informação que o Benfica desmentiu na terça-feira em comunicado oficial publicado no seu site.

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Acrescente-se que nem Luís Filipe Vieira, nem a SAD do Benfica estão indiciados de qualquer crime no seguimento da operação e-toupeira. Como o Observador tinha referido na passada terça-feira, o presidente dos encarnados encontra-se em cc em pelo menos dois emails enviados por Paulo Gonçalves requisitando convites para Júlio Loureiro, funcionário judicial e antigo observador de árbitros que também é arguido, para o Benfica-FC Porto e o Benfica-Estoril da última temporada (1 e 5 de abril).

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Paulo Gonçalves está seguro na SAD do Benfica

Apesar da recomendação do Ministério Público para que Paulo Gonçalves, o outro arguido da operação e-toupeira que esteve detido antes do primeiro interrogatório, fosse impedido de entrar no estádio da Luz no mínimo durante 30 dias, a juíza Cláudia Pina aplicou como única medida de coação a proibição de contacto com os outros arguidos e o assessor jurídico, que deixou o Campus da Justiça perto das 22h30 de quarta-feira, deslocou-se esta quinta-feira, de forma breve, às instalações da SAD encarnada, seguindo-se nos próximos dias a preparação da defesa no caso com o advogado, Carlos Pinto Abreu.

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Como admitiu Nuno Gaioso, vice-presidente e administrador da SAD, à SIC Notícias, todo este processo criou “um problema reputacional ao Benfica”. No entanto, o dirigente defendeu também na quarta-feira que “nunca nenhuma dessas matérias foi objeto de decisão ou deliberação nas reuniões da SAD”. Em paralelo, cerca de uma hora depois, também o Benfica emitiu um comunicado no seu site oficial, reafirmando “a sua convicção e confiança de que o Dr. Paulo Gonçalves poderá no decurso do processo demonstrar a licitude de todos os seus procedimentos e condutas”.

Paulo Gonçalves, portista de coração e “vieirista” de profissão

A posição de Paulo Gonçalves na estrutura das águias não parece, nesta altura, minimamente abalada no seguimento deste caso (que se junta a outros como o dos emails), algo que deverá ser “ratificado” no início da próxima semana, altura em que os administradores da SAD do Benfica se deverão encontrar numa reunião ordinária da sociedade. Ainda assim, o jornal O Jogo fala em algumas divisões internas de dirigentes que não estarão a favor da continuidade do assessor jurídico.

PJ estará em busca de mais duas “toupeiras” na região Centro

O Jornal de Notícias (conteúdo fechado) noticia também esta sexta-feira que a PJ estará à procura de mais duas “toupeiras” no sistema de justiça, que tiveram intervenções no interesse do Benfica. Na passada terça-feira, o Observador já tinha adiantado este cenário de que, além de José Silva e Júlio Loureiro, dois dos elementos da rede de contactos de Paulo Gonçalves, a investigação da PJ não ficaria por aí e que outros funcionários judiciais deveriam ser constituídos arguidos em breve.

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Segundo a publicação, uma auditoria do Instituto de Gestão e Equipamentos da Justiça (IGEF) terá permitido perceber que houve mais consultas ao denominado processo dos emails (além daquelas que foram detetadas e colocadas na investigação) através do programa Citius. Neste caso, as mesmas terão sido feitas através de tribunais no centro do país, entre Aveiro e Santarém, e não de Braga, como aconteceu por exemplo no caso de José Silva, que ficou em prisão preventiva após o primeiro interrogatório no Tribunal de Instrução Criminal (TIC) de Lisboa, na passada quarta-feira.

Esta será assim uma das principais linhas de investigação futuras, até por forma a perceber se existiam mais circuitos de fuga de informação, além da perceção e apuramento que o Benfica, enquanto pessoa coletiva, teria neste tipo de situações.