Stephen Hawking

Morreu Stephen Hawking, o génio da Física que resistiu à doença com humor

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O físico britânico morreu na madrugada desta quarta-feira aos 76 anos, confirmou a família. "O nosso pai foi um grande cientista e um homem extraordinário", afirmaram os filhos em comunicado.

AFP/Getty Images

Stephen Hawking, o físico britânico que revolucionou a forma como olhamos para o Universo, morreu na madrugada desta quarta-feira, anunciou um porta-voz da família, citado pela agência Associated Press. Os filhos do cientista, Lucy, Robert e Tim, já reagiram num comunicado: “O nosso pai foi um grande cientista e um homem extraordinário, cujo trabalho e legado viverão por muitos anos”.

Há décadas paralisado e restringido a uma cadeira de rodas, o cientista, que sofria de esclerose lateral amiotrófica, perdeu em 2013 os movimentos faciais que lhe permitiam comunicar. Com 21 anos, após uma queda de patins, foi-lhe diagnosticada esta doença degenerativa, que iria progressivamente paralisar os seus músculos. Segundo o médico, Stephen Hawking teria no máximo dois anos de vida. Morreu esta quarta-feira, 55 anos depois.

Com 74 anos, disse que viveu mais do que esperava, mais do que a ciência previu. E continuava ativo. “Sentir-me-ia condenado se morresse sem antes desvendar mais e mais do universo. Se não tivesse mais o que contribuir, suicidar-me-ia”, revelou numa entrevista à BBC, em 2015.

[Veja no vídeo algumas das intervenções mais bem humoradas de Stephen Hawking em sitcoms e talkshows]

A morte medicamente assistida é ilegal no Reino Unido e Hawking foi um dos subscritores (e maiores impulsionadores) de um projeto de lei apresentado ao Parlamento britânico que pedia a legalização do procedimento, concretamente a pacientes que não tenham mais do que seis meses de vida. Em 2014, durante o lançamento do filme inspirado na sua vida, “A Teoria de Tudo”, o cientista admitiu que na década de 1980 tentou mesmo pôr termo à vida.

Tentei fazê-lo, não respirando. Mas o reflexo da respiração era demasiado forte e não fui capaz”, admitiu o cientista na mesma entrevista.

Uma das últimas aparições de Hawking foi na Web Summit, em Lisboa, em 2017, onde surgiu como convidado especial.

[Veja aqui o vídeo com a intervenção de 8 minutos de Stephen Hawking, legendada em português]

Através de um vídeo, o físico falou de inteligência artificial — que, defende, pode ser o mais importante símbolo da nossa civilização.

O rapaz que estudava apenas uma hora por dia

O mais velho dos quatro filhos de Isobel Walker e de Frank Hawking, casal que se conhecera num instituto médico londrino (ele trabalhava como investigador, ela como secretária), Stephen Hawking nasceu a 8 de janeiro de 1942, em Oxford, cidade para a qual a sua mãe, escocesa, se tinha mudado em 1941, já grávida de Stephen, devido aos bombardeamentos germânicos a Londres na II Guerra Mundial.

Com 8 anos, Stephen Hawking mudar-se-ia (com a família) para St. Albans, cidade localizada a 32 quilómetros do centro de Londres, devido à nova posição do pai, que começara a chefiar um departamento do Instituto Nacional de Investigação Médica britânico. Foi aí que Stephen Hawking fez o liceu, sem o brilhantismo que o seu génio poderia fazer prever, devido a um empenho no máximo moderado. Esse manter-se-ia mais tarde, quando frequentou a Universidade de Oxford, onde, disse, em três anos não estudou mais de mil horas — o que equivale a cerca de uma hora por dia. Tinha tanta facilidade em apanhar a matéria que raramente consultava livros ou tirava apontamentos durante as aulas. “Nada parecia justificar que fizesse um esforço”, chegou a dizer.

Ainda estudante, mas já na Universidade de Cambridge, onde fazia uma pós-graduação de investigação sobre o cosmos, foi-lhe diagnosticada Esclerose Lateral Amiotrófica. Os médicos deram-lhe apenas dois ou três anos de vida e a doença, soube na altura, viria a reduzir o controlo que tinha sobre o corpo a ponto de apenas conseguir mover os olhos e dobrar os dedos. À época, Stephen Hawking entrou numa depressão profunda, chegando a sonhar com a sua própria execução.

Contrariando as expectativas médicas, a doença estabilizaria. Aos 23 anos, Stephen Hawking casou-se com uma estudante de linguística, Jane Wilde. Os dois conheceram-se um ano antes e Jane, no seu livro “Travelling to Infinity: My Life With Stephen”, recordaria o primeiro encontro nas ruas de St. Albans, onde vira Stephen então com uma massa rebelde de cabelo castanho quase a tapar-lhe a totalidade de cara. Uma amiga chegou a avisá-la que estava a entrar no interior de uma família “louca”, mas o noivado consumou-se rapidamente e o casamento celebrar-se-ia no ano seguinte.

Embora houvesse uma nuvem a pairar sobre o meu futuro, descobri, com alguma surpresa, que estava a gostar mais da vida do que gostava antes. Comecei a fazer progressos com a minha investigação. Enfrentar a possibilidade de morrer prematuramente faz-te perceber que vale a pena viver e que há muitas coisas que queres fazer”, recordaria Stephen Hawking mais tarde.

Em 1966, o físico publicaria a sua tese de doutoramento, intitulada “Propriedades de um universo em expansão”, que a universidade de Cambridge decidiu publicar há poucos meses na íntegra (com o seu consentimento).  “Qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo devia ter acesso simples e gratuito não apenas à minha investigação, mas à investigação de todas as grandes e curiosas mentes em todo o espetro do entendimento humano”, apontaria então o físico, em comunicado divulgado pela instituição britânica.

De estar às portas da morte a publicar um best-seller

Depois das grandes descobertas que revolucionaram o conhecimento sobre o cosmos, nos anos 1970, a década seguinte foi uma verdadeira montanha-russa para Stephen Hawking. Prosseguindo as investigações, Stephen Hawking continuou a somar prémios e distinções. Em 1982, tornou-se membro da Ordem do Império Britânico, que reconhece os mais distintos contributos britânicos às artes e ciências do Reino Unido e, nesse mesmo ano, começou a trabalhar como professor de Matemática na Universidade de Cambridge, cargo que três séculos antes havia sido desempenhado por Isaac Newton. “Dizem que é a cadeira do Newton, mas obviamente que [a cadeira] foi mudada”, chegou a dizer, com humor.

O ano de 1985 seria um dos mais complicados na vida de Stephen Hawking. Depois de apanhar uma pneumonia, aquando de uma visita à Suíça, Stephen Hawking foi encaminhado para o hospital e esteve às portas da morte. Chegou a estar vivo apenas sob assistência artificial e os médicos perguntaram à sua mulher, Jane, se autorizava que as máquinas que o mantinham vivo fossem desligadas. A persistência da mulher e uma operação bem sucedida em Cambridge — onde os médicos lhe inseriram um tubo de respiração que teve efeito decisivo — salvaram-lhe a vida mas fizeram Stephen Hawking perder a voz.

Não a recuperando, viria a conseguir expressar-se a partir de 1986, quando passou a usar um sistema de comunicação que transformava as palavras que escrevia em expressões vocais. As inovações tecnologias foram aprimorando os aparelhos utilizados pelo físico para se expressar, culminando num mecanismo a que Hawking chamou o seu “computador”, que usava de forma contínua desde 1997 e cujo vanguardismo técnico o físico explicou em detalhe na sua página oficial.

Três anos depois, Stephen Hawking transformar-se-ia de estrela da física em estrela pop, com a publicação de um livro que vendeu mais de dez milhões de cópias em todo o mundo. “A Brief History of Time: From the Big Bang to Black Holes” foi traduzido para português pela editora Gradiva, com o título “Breve História do Tempo: Do Big Bang aos Buracos Negros”. No livro, o físico defendia que “se descobrirmos uma teoria completa do universo, os seus princípios fundamentais devem ser compreendidos no momento não apenas por alguns cientistas, mas por toda a gente”.

Devemos então todos nós — filósofos, cientistas e pessoas comuns — ser capazes de tomar parte da discussão sobre o porquê de nós existirmos e de o universo existir. Descobrir a resposta a isso seria o grande e último triunfo da razão humana, pois ficaríamos então a conhecer a mente de Deus”, referiu ainda o físico.

A relação com Deus viveria várias fases — ateu, Stephen Hawking viria a desvalorizar a crença dos humanos em Deus, defendendo que este não foi responsável pela criação do Universo. Isso não impediria o físico, por exemplo, de visitar o Papa Francisco, em 2016, para uma discussão sobre o impacto das novas tecnologias e do conhecimento científico no planeta.

As polémicas, o divórcio e o segundo casamento

Em 1995, Stephen Hawking divorciou-se da mulher com quem estava casado há 25 anos. Mais tarde, quando escreveu sobre a vida em casal (nos livros “Music to Move the Stars: A Life With Stephen Hawking” e “Traveling to Infinity: My Life with Stevens”), a ex-mulher recordava a deterioração da relação, referindo que, com o evoluir da doença e o estatuto de celebridade, o físico c0meçou a assemelhar-se a “uma criança possuída por um ego frágil e gigante”. Os dois começaram a transformar-se, contou Jane, em “senhor” e “escrava”.

A verdade é que éramos quatro parceiros no casamento: o Stephen, eu, a doença e a física. Se tirássemos a doença, ainda sobrava a física. Sabem, a Mrs. Einstein citou a física como um dos motivos para as diferenças [no casal] que levaram ao divórcio…”, recordou a primeira mulher de Hawking, citada pelo The Guardian

Apesar do divórcio ter acontecido em 1995, há cinco anos que o casamento terminara. Stephen Hawking começara uma relação com Elaine Mason, a enfermeira que cuidara do físico quando este esteve próximo de morrer devido a uma pneumonia, nos anos 1980 e os dois casaram-se poucos meses depois da oficialização do divórcio entre Stephen e Jane. Curiosamente, Elaine havia sido casada com um dos responsáveis pela implantação do sistema de voz “Equalizer” na cadeira de rodas de Stephen Hawking, David Mason.

A relação com Elaine Mason viria a levantar alguma polémica, com os filhos do físico a acusarem a madrasta de dificultar o acesso ao pai. Em 2004, a polícia chegou mesmo a investigar alegadas agressões de Elaine Mason a Stephen Hawking, depois de rumores de que este havia sofrido múltiplas lesões (de um pulso partido a cortes no rosto e um lábio ferido) às mãos da mulher. O físico negou quaisquer agressões e a polícia não encontrou indícios de abusos. Hawking e Mason separar-se-iam em 2006. Surgiram então rumores de que o físico teria traído a segunda mulher mas também estes boatos foram negados.

O sentido de humor e uma vida com riscos

O sentido de humor foi um dos traços de carácter mais visíveis em Stephen Hawking. Sobre o aparelho de voz que lhe permitia falar artificialmente, o físico chegou a dizer que só se queixava que ele lhe induzisse “sotaque americano”, por exemplo. Essa foi apenas uma das muitas tiradas em que Hawking brincou com a sua própria condição.

Aventuroso, Stephen Hawking não evitou riscos, apesar da sua condição. Em 2007, com 65 anos, deixou a cadeira de rodas (a que resistiu enquanto pôde e que conduzia sem grande precaução) para embarcar num voo sem gravidade a bordo do KC-135 da NASA, um avião destinado ao treino de astronautas. “A oportunidade de flutuar livremente sem gravidade será magnífica. Quero demonstrar ao público que toda a gente pode participar neste tipo de experiência”, disse. Depois do voo, estava eufórico:

Foi fantástico… Podia ter continuado, continuado… Espaço, aqui vou eu”.

Cinco anos antes, para celebrar os seus 60 anos, o físico embarcou numa viagem de balão de ar quente. Sobre os riscos que correu, face à sua situação, Hawking diria o seguinte: “Quero mostrar que as pessoas, por estarem limitadas pelas suas condicionantes físicas, não têm de ficar inválidas em espírito”.

Nos anos 1990, Stephen Hawking divorciar-se-ia da primeira mulher, Jane, e casar-se-ia com a sua enfermeira, Elaine Mason, de quem se viria também a divorciar, em 2006. Teve três filhos — Robert, Lucy e Timothy, todos do primeiro casamento — e três netos.

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