O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Santos Silva, disse esta sexta-feira que “a China sabe qual é o sistema que deve vigorar em Macau”, comentando a polémica à volta da retirada do convite a três escritores.

Questionado sobre a polémica à volta da retirada do convite para participarem no Festival Literário de Macau a três escritores, com receios de que pudessem ser barrados à entrada pelas autoridades chinesas, Santos Silva recordou que os termos da passagem de soberania de Macau para a China “são muito claros”.

“Os termos são muito claros, e foram acordados entre Portugal e a China para a passagem de Macau para a plena soberania chinesa; seguem estritamente o princípio ‘um país, dois sistemas’, e todos os nossos amigos chineses sabem bem qual é o sistema que deve vigorar em Macau”, disse o chefe da diplomacia portuguesa aos jornalistas, à margem de uma conferência sobre a Nova Rota da Seda, que decorre esta sexta-feira no ISEG, em Lisboa.

A organização do Festival Literário de Macau cancelou no princípio deste mês os convites a escritores por temer que sejam barrados à entrada, mas as autoridades de segurança pública afirmaram à Lusa desconhecer a situação.

“Fomos informados oficiosamente de que não era oportuna a vinda de três escritores convidados ao território, não estando assegurada a sua entrada em Macau”, afirmou o diretor de programação do festival, em contacto telefónico.

Hélder Beja referia-se ao antigo agente dos serviços secretos norte-americanos (CIA) James Church, à sino-britânica Jung Chang e à coreana-norte-americana Suki Kim.

Confrontadas com estas declarações, as autoridades de segurança pública de Macau disseram à Lusa: “Desconhecemos essa informação”.

“Nestas condições, não quisemos colocar os escritores na situação de não conseguirem entrar em Macau e decidimos cancelar o convite”, disse Hélder Beja no princípio de março, poucos dias antes de ter anunciado a sua demissão do cargo.

Jung Chang é a autora de “Cisnes Selvagens-Três filhas da China”, traduzido em mais de 40 idiomas, Suki Kim passou seis meses infiltrada na Coreia do Norte, e James Church é escritor de romances policiais.

Além destes três escritores, também a dissidente e ativista dos direitos humanos norte-coreana Hyeonseo Lee, que fugiu da Coreia do Norte em 1997, com 17 anos, cancelou a presença no Festival Literário de Macau–Rota das Letras, “por motivos de ordem pessoal”, de acordo com um comunicado da organização, divulgado previamente. O Festival Literário de Macau foi fundado em 2012 pelo jornal em língua portuguesa Ponto Final.