Sempre que o Benfica joga no Estádio da Luz, há uma premissa que a larga maioria dos lisboetas costuma cumprir: o Colombo é sítio proibido. Seja pela confusão, pelo receio de desacatos, pela falta de lugar para estacionar, a verdade é que grande parte das pessoas evita o centro comercial em dia de jogo em casa do clube do outro lado da estrada. Ora, esta máxima agrava-se quando o jogo é, imagine-se, um Benfica-FC Porto. Benfica-FC Porto que, ainda por cima, desta vez podia decidir quem pode ser o campeão da temporada 2017/18. Em dia de clássico ‘pró título’, decidimos pois passar a tarde no Centro Comercial Colombo. E acabámos a quebrar três mitos.

Mito: “Juntam-se lá adeptos do Benfica e do FC Porto e há confusão”

Infelizmente, nos últimos anos, o futebol ficou associado a conflitos, desacatos e violência física. É por isto normal que se pense que, num dia com um jogo tão importante, o Colombo seja o local de encontro entre adeptos benfiquistas e portistas e que isso dê origem a problemas. Mas não é bem assim.

Às 17h deste domingo, uma hora antes do jogo começar, o centro comercial estava cheio de benfiquistas: apenas benfiquistas. Antes e durante o clássico, não se avistou qualquer adepto azul e branco. Pelo menos identificados como tal. Com o passar dos minutos e até à hora de início da partida, o vermelho intensificou-se, com os cachecóis, as bandeiras, as camisolas, os passos apressados para evitar atrasos, o ensaio de cânticos e o constante entusiasmo. De azul, nada se viu. Se por lá andava, estava (muito bem) disfarçado.

Só se via vermelho. Azul nem um. Só se fosse disfarçado

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Não houve desacatos nem problemas, conflitos ou confrontações: até porque, durante a tarde deste domingo, os adeptos do Benfica tinham no Colombo a sua segunda casa. 

Vamos lá estragar a segunda ideia feita.

Mito: “Quem lá fica durante o jogo são as mulheres à espera dos maridos que foram ao estádio”

Encontrámo-las à entrada de uma loja. Augusta e Júlia são irmãs: não quiseram dizer quantos anos tinham “porque uma senhora não diz a idade”. Dois minutos de conversa depois, perguntamos se não têm receio de ir às compras no Colombo num dia em que se joga um Benfica-FC Porto do outro lado da estrada.

“Hoje é o melhor dia para cá andar! As pessoas é que pensam ao contrário!”, explica Augusta. Júlia tem a mesma opinião: “Vai tudo para a bola e isto fica vazio porque ninguém vem para cá”. Enquanto muitos ficam em casa com medo da confusão, as duas irmãs – que moram nas redondezas e vão a pé até ao centro comercial – aproveitam o futebol para fazer compras descansadas, quando as coisas ao domingo, sobretudo quando o tempo é de chuva e frio, são normalmente bem diferentes, como muita gente nas lojas.

Já Manuel, de cachecol do Benfica ao pescoço, está encostado a uma parede a ver os primeiros minutos do jogo numa das lojas de telecomunicações que o está transmitir nas televisões para venda. Tal como Augusta e Júlia, mora ali perto e costuma ir até ao Colombo para ver os jogos dos encarnados. Porquê? “Não tenho os canais em casa e aqui aparece sempre malta do Benfica, já nos conhecemos todos”. Um método compreensível: para quem não tem Benfica TV ou Sport TV, os canais pagos que passam o futebol, estar no Colombo com os amigos não é má ideia.

A dada altura, Cervi consegue entrar na área com a bola controlada e Casillas é obrigado a uma boa defesa. Manuel dá um pequeno salto para depois desabafar: “É por isto que não vou ao estádio, estou velho, lá dentro já tinha tido um ataque”.

Mito: “Aquilo é a confusão o dia todo”

Ao contrário do que seria de esperar, durante o Benfica-FC Porto deste domingo, o Centro Comercial Colombo estava longe de estar cheio. Muito pelo contrário: entre famílias que aproveitaram o dia para fazer algumas compras e casais que decidiram ir dar um passeio ou ver um filme no cinema, circulava-se livremente no Colombo e nada fazia transparecer que o jogo do título se discutia a uns passos de distância.

Mas havia exceções. E neste centro comercial, a exceção é o Bingo do Benfica. Já no corredor que dá acesso ao Metropolitano, juntava-se um grupo de cerca de 50 pessoas – com cachecóis, bandeiras e tudo aquilo que a claque dentro do estádio também tem – à frente da televisão que o estabelecimento tem à entrada.

Pois é: os adeptos são sempre adeptos. Mas o Colombo não é uma zona proibida em dia de jogo grande do lado de lá da estrada.