Um banco a céu aberto: é assim a ilha Yap, na Micronésia. Localizada entre as ilhas de Guam e Palau, esta pequena ilha mantém a tradição do dinheiro de pedra. Centenas de rochas em forma de disco — e de tamanho humano — estão espalhadas por toda a parte.

Ao certo, não se sabe quando se deu início à utilização da moeda de pedra como moeda única, mas foi assim durante muitos séculos. Hoje, apesar de se utilizar o dólar americano para as necessidades do dia-a-dia, como as compras de supermercado, as rochas continuam a ser utilizadas em trocas relacionadas com princípios, valores, direitos e costumes.

À BBC, Falmed, um dos habitantes da ilha, disse que a sua família utilizou o seu dinheiro apenas duas vezes, uma das quais foi um pedido de desculpas. “Dessa vez, utilizámos porque um dos meus irmãos causou problemas a uma família”, contou Falmed aos jornalistas.

As moedas são valorizadas tanto pelo seu tamanho (algumas chegam a ter um diâmetro de sete metros) como também pela dificuldade que a família teve para as obter. As pedras mais antigas têm maior valor que aquelas que são feitas nos dias de hoje — e que apenas são esculpidas para garantir que os aldeões não perdem as suas habilidades –, pela história de várias gerações que carregam.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas será que ninguém se lembra de as roubar? A verdade é que já houve quem tentasse roubar as moedas gigantes na ilha, mas o plano saiu furado. “Eles tentaram fazer isso em Yap, mas até se riram porque não conseguiram”, explicou Edmund Pasan, um construtor de canoas da província de Maap.  A verdade é que as pedras são tão grandes que é quase impossível movê-las de um sítio para o outro. Pasan, chega a dizer que é mesmo mais fácil extraí-las diretamente da pedreira em Palau.

Como começou este costume?

As primeiras rochas — em forma de baleia — foram utilizadas como presentes, mas evoluíram passando a ser utilizadas como moedas. O buraco ao centro servia para facilitar o seu transporte através do mar.

A verdade é que Yap não era rica em rochas consistentes ou metais preciosos, porém ali abundavam marinheiros experientes que começaram por navegar em canoas de bambu até Palau, mais concretamente até às pedreiras, de onde extraíam calcário. No início, as quantidades que extraíam eram muito pequenas, mas com o aperfeiçoar das técnicas as moedas começaram a ser cada vez maiores — maiores até que as pessoas que as esculpiam.

Ao regressarem de Palau, os marinheiros devolviam o dinheiro aos chefes das diferentes aldeias e eram eles quem davam nomes às pedras — muitas vezes os seus nomes próprios — e confirmavam a sua legitimidade. Depois disso, podiam entrar em circulação e ser compradas por qualquer pessoa.

Mais do que moedas, as rochas têm, no fundo, um valor sentimental e ajudam a reforçar o relacionamento com as gerações anteriores, uma vez que muitas destas pedras têm gravações de batalhas que datam de há mais de 200 anos. “Na cultura Yapese, se alguma coisa está a acontecer,e não há nada mais indicado para utilizar, então usa-se o dinheiro de pedra”, disse Falmed. A moeda, na forma de pedra, continua a ser vital para os mais de 11 mil residentes de Yap nos dias de hoje.