O Dieselgate foi o caso mais flagrante da indústria automóvel em que um conjunto de indivíduos, ao que tudo indica para proveito próprio – porque do incremento anormal das vendas dependiam os seus chorudos prémios anuais por objectivos – decidiram instalar sistemas ilegais nos motores para reduzir artificialmente os dados relativos aos consumos e às emissões poluentes, durante os testes de homologação. O caso teve uma dimensão muito particular no Grupo VW, mas tudo indica que outras marcas recorreram a este truque.

A VW já admitiu a montagem do software malicioso em 11 milhões de veículos, o que provocou penalidades na ordem dos 24 mil milhões de euros – entre retomas de veículos e recuperação de motores –, mas a investigação continua atrás dos verdadeiros culpados, os quadros superiores que beneficiaram do estratagema, bem como da empresa que desenvolveu o software.

Se o ministério público alemão continua a sua caminhada lenta rumo à justiça, os reguladores dos EUA demonstraram mais uma vez a sua eficácia e, depois de acusarem e prenderem quadros menores, afiam agora as garras para perseguir o ‘peixe graúdo’. Desta vez, o acusado é Martin Winterkorn, o CEO do Grupo VW entre 2007 e 2015, quando rebentou o escândalo, entre outros quadros superiores.

Segundo o Departamento de Justiça dos EUA, Winterkorn está a ser acusado de quatro violações da lei federal, numa delas por ter conspirado com outros executivos seniores para defraudar as leis americanas e as restantes por lesar consumidores, reguladores e o ambiente. Afirma a acusação que Winterkorn foi informado em Maio de 2014 sobre o software ilegal e de novo em Julho de 2015, mas combinou com os restantes acusados e quadros superiores do grupo alemão continuar a perpetuar a fraude contra o estado americano. Ainda segundo a acusação, perante a possibilidade de cessarem as vendas nos EUA, foi apresentado um powerpoint numa reunião de executivos, entre os quais Winterkorn, durante a qual foi debatido a burla ao regulador americano e as potenciais consequências se fossem descobertos.

De acordo com o Procurador Distrital dos EUA, Jeff Sessions, no processo que foi levantado em Março, mas apenas agora tornado público (veja aqui a acusação), “quando se tenta enganar os EUA paga-se um preço elevado e a acusação que formalizamos hoje alega que os principais quadros do grupo VW tinham conhecimento da burla”.

Tal contradiz o que a VW sempre afirmou, que a conspiração envolveu sobretudo quadros médios e inferiores. Se esta é a situação da justiça americana, a sua congénere alemã não está parada, estando a ser investigados 39 quadros da empresa, entre os quais Winterkorn e indivíduos como Hans Dieter Poetsch, antigo director financeiro e hoje membro da administração, ou Matthias Mueller, até há cerca de um mês o CEO do grupo, que sucedeu a Winterkorn.

Depois de formalizada a acusação pela justiça dos EUA, os investigadores germânicos declaram que o processo americano “não vai alterar a estratégia” alemã para “perseguir os culpados”. Mas a verdade é que o caso ganha outra visibilidade e mesmo os poucos que acreditavam que o Dieselgate foi possível sem intervenção directa dos responsáveis máximo do grupo alemão, à época, terão agora cada vez mais dificuldade em fazer vingar a sua teoria. Especialmente depois da equipa de Jeff Sessions revelar as provas que reuniu.