[artigo originalmente publicado em maio de 2018 e atualizado a 1 de dezembro de 2020, a propósito da morte de Eduardo Lourenço]

Não é fácil apanhá-lo com grandes disponibilidades para entrevistas. Está sempre em trânsito entre as mil tarefas que compõem os seus dias na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Confessa que “não sabe dizer que não a ninguém”, queixa-se que “esta coisa do filme o está a deixar muito cansado”, mas quem o conhece percebe que, na verdade, ele não consegue estar parado.

É comum vê-lo em todo o lado como se tivesse o dom da ubiquidade: apresentações de livros, lançamentos, concertos de música, cinema, colóquios. No seu gabinete o telefone está sempre a tocar, há recortes de jornais e livros marcados por toda a parte. A sua não conversão ao computador e à internet não lhe tira a absoluta sintonia com este tempo. E esta movida chega a fazê-lo parecer séculos mais novo que muitos dos seus pares.

E no entanto, Eduardo Lourenço, parece nunca sair totalmente de um mundo só seu; dir-se-ia mesmo que, ao contrário de Dédalo, ele dispensou as asas de cera para fugir e se rendeu aos encantos do labirinto e dos seus Minotauros e das suas Ariadnes, como muito bem percebeu o cineasta Miguel Gonçalves Mendes, no documentário que esta semana se estreia nas salas de cinema e na RTP1, Labirinto da Saudade. O filme é uma “mise-en-abyme” sobre o pensamento do filósofo, sobre o livro homónimo publicado há 40 anos e, simultaneamente, sobre a História de Portugal.

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