Para o Presidente da República, “Portugal mudou irreversivelmente” depois dos incêndios do ano passado. Não apenas o do município de Pedrógão Grande, que deflagrou há um ano e que causou a morte de 66 pessoas, mas também daqueles que, espalhados por várias regiões, provocaram em outubro a morte de 48 pessoas em Portugal. “Resta saber” se o país “mudou o suficiente”, alertou Marcelo, no encerramento do Congresso Nacional de Queimados, em Pedrógão Pequeno.

Hoje estamos aqui, um ano volvido. E daqui a um ano, quando estivermos a poucos meses das eleições, estaremos cá os mesmos? E estarão os mesmos com a mesma preocupação, com a mesma mobilização? E depois, no ano seguinte, em que não há eleições, estaremos cá os mesmos para tirarmos lições do passado e construirmos o futuro? E assim sucessivamente?”, questionou o Presidente da República (PR).

“Que o país mudou, mudou. Que passou a dar atenção ao que não dava, passou. Que passou a tentar conhecer para depois compreender, passou. Que passou a mobilizar-se mais do que nunca em torno desta causa, passou”, constatou Marcelo.

O Presidente da República falou num dia em que estavam agendadas numerosas iniciativas de homenagem às vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, concelho de Leiria. No município leiriense estiveram, além de Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro Antóno Costa e a líder do CDS-PP Assunção Cristas, entre outros líderes partidários e responsáveis políticos. Ao meio-dia, o bispo de Coimbra celebrou uma missa na igreja matriz de Pedrógão Grande. António Costa esteve na igreja.

Numa mensagem onde voltou a insistir na necessidade de que as regiões do interior acompanhem o desenvolvimento do litoral, o Presidente acabou por falar também para os responsáveis políticos e administrativos, que Marcelo diz ter visto empenhados. “Mas este empenho tem de ser suficiente, duradouro, persistente, prolongado, constante.” Disse ainda o PR: “Explicamos tão bem isto na Europa, temos de nos explicar a nós próprios cá dentro: como a Europa não consegue ser unida e afirmar-se dentro e fora se não for coesa, também nós temos de ser mais coesos e unidos, para irmos mais longe.”

O desafio, agora, é “não deixar esquecer”. O que é um perigo possível, porque já se viveu “o momento mais mobilizador da solidariedade. E [a expressão] a vida continua significa que continua com crescente esquecimento. É isso que não pode acontecer.”

A ideia de renascer um ano depois, não sendo totalmente precisa, porque não se esperou durante um ano, é muito mobilizadora. Porque os queimados representam uma realidade que não para no momento da alta hospitalar.”

Para os que sobreviveram, disse Marcelo, renascer “começa aí. E [é um processo que] vai durar toda uma vida: pessoal, familiar, comunitária. Não mais essa realidade os vai largar, como não vai largar a vida dos familiares, dos amigos, dos companheiros de trabalho, dos vizinhos, daqueles que estão próximos na mesma comunidade. Aquilo que se impõe é renascer todos os dias por tempo indefinido. E esta é uma preocupação fundamental.”

A “responsabilidade” é de todos, alertou Marcelo

O presidente aproveitou também para falar na “responsabilidade coletiva” da sociedade portuguesa em relação aos incêndios: “O renascer já começou, quando toda a sociedade portuguesa percebeu que havia uma responsabilidade sua, nossa, naquilo que se tinha passado. Era uma responsabilidade coletiva. E por isso foram atribuídas as indemnizações.” Recorde-se que estas foram atribuídas por iniciativa do Estado, que entendeu não ser benéfico discuti-las e apurar a sua responsabilidade em tribunal.

É uma responsabilidade com décadas, porventura séculos de inação e omissão. Uma responsabilidade pelo que não se fez e que permitiu o atraso de uns ‘Portugais’ em relação aos outros. Uma responsabilidade pelo que não se fez na estrutura florestal, no ordenamento florestal. Pelo que não se fez ou não se fez suficientemente na prevenção ou na capacidade de resposta àquilo que veio a acontecer. Pela própria insensibilidade perante condições ou pressupostos que permitiram que aquilo que sucedeu fosse mais grave do que poderia ter sido”, apontou Marcelo.

O país “assumiu essas responsabilidades”, disse o Presidente da República. “Assumiram os partidos no parlamento, assumiu o governo ao anunciar e decidir de forma administrativa essa indemnização, assumiram as instituições públicas, sociais e privadas que estiveram aqui desde a primeira hora — mas que continuaram” ali até hoje. Em suma, as pessoas envolvidas “perceberam que Portugal tinha de mudar”.

Marcelo, que há um ano foi criticado por ter dito que “o que se fez foi o máximo que se poderia ter feito” e que “não era possível fazer-se mais” assim que chegou a Pedrógão Grande, na noite dos incêndios, enumerou ainda outros fatores que permitiram ao país renascer da tragédia.

“O renascer”, tema do Congresso Nacional de Queimados deste ano, também começou 2quando se criou uma associação de vítimas e essa associação esteve presente dia após dia, semana após semana, defendendo o que considerava serem os direitos de pessoas e comunidades [afetadas]”, apontou Marcelo. Ou “quando os autarcas se bateram por soluções — jurídicas, económicas, sociais — ligadas à reconstrução do tecido atingido e quando de forma inédita houve a atribuição de indemnizações não apenas a vítimas mortais mas a feridos graves”.

Não podemos deixar de recordar também a tragédia de outubro. As duas cobrem uma mesma realidade. São Portugáis diferentes mas que têm em comum serem ambos relativamente esquecidos, desconhecidos, incompreendidos por esse outro Portugal a que chamaria Portugal metropolitano. Que é o que aparece nas notícias, que domina os conflitos sócio-laborais, que é o Portugal dos debates partidários, do funcionamento dos órgãos de soberania, da cultura cívica dominante.”

“Os passos que é preciso dar além dos que já foram dados — porque já se começou a refazer a vida das pessoas que sobreviveram, as obras, as estruturas — continuarão a ser dados? E compreender-se-á que o essencial só muda se deixar de haver o desconhecimento, o afastamento, a ignorância e portanto a desigualdade, assimetria e contraste [que há hoje]? Perceberá o Portugal metropolitano que sozinho não chega lá?”, questionou-se o presidente. “Estamos todos no mesmo barco. E quem está à proa não chega sozinho, o barco sozinho o barco não chega lá. Chegará uma minoria das minorias, mas o todo não chega.”

Não se pode apenas não esquecer aquele dia trágico, apontou Marcelo. “Os acontecimentos” de Pedrógão Grande e as vítimas mortais “de carne e osso, que tinham rostos e tinham nomes e tinham sonhos que não puderam concretizar.” É preciso não esquecer também “o pano de fundo que fez com que o que aconteceu tivesse a dimensão que teve, é preciso não esquecer as causas. E é preciso levar mais longe aquilo que já foi feito, para corresponder às expectativas” das pessoas.

Já houve reconstrução de algumas casas, vai havendo um reconstituir da atividade produtiva, certas infraestruturas avançaram. E avançará um sistema preventivo e de resposta da Proteção Civil. Mas não chega. É preciso olhar para os indicadores económicos e sociais e ver: isto está a acontecer em que concelhos? E como? Com que sustentação? O que está a ser feito é duradouro ou é um remendo passageiro e depois continua o isolamento e a distância?”

Para Marcelo Rebelo de Sousa, “ou isto serve para mudarmos mesmo de vez ou o que é que andamos a fazer aqui?”. As pessoas, disse, “perguntam: os senhores estão aí e estão a fazer o que podem? Eu acho que os responsáveis estão a fazer o que podem. Mas provavelmente ainda não chega, é preciso mais. Que há empenho, há. Do poder político e administrativo. Aí, o país mudou. Mas tem de ser duradouro e constante, o que não é fácil porque surgem outros problemas, desafios e aparentes prioridades todos os dias, a ocupar as atenções…”