Há decisões e decisões. As de uma vida, em que viramos o assunto do avesso e olhamos para ele de todos os ângulos possíveis até ao âmago; as inócuas, em que optamos por coisas tão simples como um restaurante para jantar (em detrimento de outro qualquer); mas há também aquelas que parecem inócuas mas que se revelam como sendo de uma vida.

Como aquela tomada por Nikola Kalinic, no minuto 86 do jogo com a Nigéria – o primeiro da Croácia no grupo D deste Mundial. O avançado do Milan deve ter pensado nesse momento, esta quarta-feira, ao ver (neste caso, pela televisão) os seus companheiros carimbarem a primeira presença de sempre na seleção balcânica numa final do Campeonato do Mundo. Deve estar a dar voltas à cabeça, até à exaustão, a pensar por que raio aquele minuto 86 existiu e o privou daquela que seria, também, a sua primeira final.

Kalinic foi preponderante no playoff de apuramento para o Mundial frente à Grécia (Srdjan Stevanovic/Getty Images)

Puxamos o filme atrás. Já perto do final do encontro diante da seleção africana, o técnico Zlatko Dalic colocou o avançado a aquecer; ia entrar nos instantes finais. Só que levou uma nega. Kalinic alegou dores nas costas e não jogou. No final, o selecionador disse aos jornalistas que tinha terminado a partida “sem lesões, mas com um problema”.

Ora, esse problema ficou resolvido menos de dois dias depois. Dalic entendeu que as dores do avançado não passavam de uma desculpa e resolveu expulsá-lo da seleção. “O Kalinic estava a aquecer e era suposto entrar na segunda parte do jogo com a Nigéria. Mas ele disse que não podia porque lhe doíam as costas. A mesma coisa já tinha acontecido no particular com o Brasil em Inglaterra, assim como antes dos treinos no domingo. Calmamente aceitei mas, uma vez que preciso de ter os meus jogadores em forma e prontos para jogar, tomei esta decisão”, explicou o técnico.

Ricardo Araújo Pereira sintetizou o assunto numa coluna de opinião publicada na Folha de São Paulo: “Já todos fomos idiotas”. “Se tinha dores nas costas, devia ter entrado; se tinha dores do orgulho, devia ter entrado ainda mais depressa”. O humorista usou ainda os Beatles para qualificar a má decisão do jogador. “Agora, vai ocupar um lugar ao lado de outros desconhecidos como Stuart Sutcliffe, o baixista de uma certa banda de Liverpool que estava a fazer uma digressão por Hamburgo. Sutcliffe decidiu ficar por lá para se dedicar à pintura. Os seus amigos John, Paul e George voltaram para Inglaterra, convidaram um baterista chamado Ringo e obtiveram algum sucesso. É muito raro alguém cometer uma idiotice de uma dimensão tão grande que até a história resolve aplicar um castigo”, escreveu.

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