Durante milénios, o bordado era a expressão do poder silencioso das mulheres. Através dos bordados, Filomela denunciou o seu raptor, Penélope enganou os pretendentes durante os 20 anos que esperou o regresso de Ulisses e Helena contou num tapete a guerra de Tróia. Os poetas Ovídio e Homero não tiveram dúvidas de que o trabalho de bordar expressava a força e a persistência femininas e nesse gesto eternizaram as suas heroínas.

O mesmo fizeram durante séculos as raparigas de Viana do Castelo: enquanto os homens estavam no mar elas bordavam roupas, enxovais, lenços com um ponto de cruz milimétrico, minucioso, sempre com linha vermelha como se saída do seu próprio sangue. Bordavam pássaros e flores, versos apaixonados e saudosos ou frases tímidas, à espera desses homens que se aventuravam no mar.

Marta Champalimaud, 32 anos, fundadora e criativa da marca Martine Love

Quando “tropeçou” numa loja de bordados em Viana do Castelo para comprar toalhas idênticas àquelas que cobriam as mesas das avós, onde ela desenhava com os dedos pequenos para se distrair do aborrecimento dos almoços de família, Marta Champalimaud  não imaginava que seria o início de uma aventura para ela e um amplexo de vida para uma arte que estava a morrer. Tudo começou há três anos e, esta Primavera, surgiu a primeira coleção dos vestidos Martine Love: onde os bordados de Viana habitualmente aplicados na roupa nos têxteis para o lar se reinventaram em vestidos de linho, totalmente manufaturados e desenhados sobre a memória da elegância simples e intemporal do cinema dos anos 40 e 50.

Marta tem apenas 32 anos e os vestidos que criou assentam-lhe como uma luva, mas facilmente os imaginamos a serem usados pela Ingrid Bergman, pela Grace Kelly ou pela Audrey Hepburn. Aliás, Marta também anda de Vespa como a personagem de Audrey no clássico “Viagem a Itália”. Conta ao Observador que vendeu o carro quando decidiu criar a sua marca de roupa, para poder “ter mais dinheiro para investir”. Para trás ficaram os anos em que trabalhou na Nike, em Barcelona, depois de uma pós-graduação em Marketing Digital, e os anos em que trabalhou com o pai no projeto The Oitavos (hotel e SPA), onde era responsável pelas três lojas do complexo.

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Detalhe do bordado de um dos vestidos Martine Love  Foto: Carlos Pinto

“Sempre gostei de moda, mas nunca pensei fazer disto a minha atividade principal e tudo aconteceu por uma sucessão de acasos, mas sobretudo porque eu estava infeliz por sentir que a minha vida era pouco criativa. Foram os bordados de Viana do Castelo que me puseram a pensar que havia um nicho de mercado para fazer qualquer coisa em moda, que não fosse só ir à Zara gastar dinheiro. Eu era uma ‘Zaraaholic'”, confessa entre risos.

Mais do que vestidos, uma declaração de liberdade

Foi quando começou a procurar bordadeiras para as suas peças que Marta Champalimaud se deparou com a morte iminente dos bordados:

“Quase já não há bordadeiras e aquelas que ainda trabalham são muito mal pagas. Chegam a ganhar 2 euros para bordar um pano de tabuleiro que será vendido nas lojas de souvenirs de Lisboa a 20 euros, ao lado de canecas feitas na China, como se cada um daqueles panos não fosse um trabalho manual, único, exigente. Os franceses fizeram deste tipo de artes artigos de luxo, nós vendemos os nossos ao desbarato”, afirma.

Foi perante esta realidade que se viu envolvida na missão de não deixar morrer esta arte secular: contactou vendedoras e a autarquia procurando chamar a atenção para este estado de coisas. “Não é fácil mudar mentalidades”, reconhece, mas já conseguiu com a autarquia, o IEFP e a ANCAP promover dois cursos de bordado.

“O problema é que é um trabalho tão mal pago que os jovens não têm qualquer interesse em aprender. É preciso reabilitar, revalorizar o bordado, como este tipo de artesanato em geral, para atrair gente. Há tanta gente criativa frustrada com a sua vida que podia encontrar nestes trabalhos uma forma de auto-expressão, aliando a criatividade a uma forma de ganhar a vida”, diz Marta, que se acabou por se tornar um pouco o rosto e a voz deste projeto chamado “As Novas Mãos de Viana”, mas que está aberto a qualquer pessoa do país que queira aprender a bordar.

Trevo de 4 folhas, símbolo sorte e da marca, pode ver-se no exterior e interior das peças

Nestas andanças a criadora da Martine Love cruzou-se com Geminiana Martins Branco, a mulher que, em 1917, tornou um trabalho doméstico reconhecido como uma das linguagens mais genuínas da cultura popular portuguesa. Portugal tinha entrado na 1ª Guerra Mundial levando para fora centenas de homens, outros emigravam para o Brasil e os Estados Unidos. As mulheres ficavam sozinhas com os filhos, sem trabalho e sem terem como sustentar-se. Geminiana criou então a primeira cooperativa de ensino, fabrico e venda de bordados de Viana.

Para aumentar a produtividade, os pontos tornaram-se mais largos e a monocromia do vermelho deu lugar a uma paleta multicolorida, as peças chamadas a partir daqui de “bordado de algodão” ganharam novo fôlego e tornaram-se uma forma de empoderamento destas mulheres. Geminiana, filha de um armador  e pertencendo à elite da cidade, fez mesmo uma exposição com estes novos bordados que assim têm logo honras de imprensa. Pouco tempo depois, alguns intelectuais escreveram pelo menos dois ensaios sobre estes bordados e a singularidade da sua iconografia, da qual Marta adotou o trevo de quatro folhas como logótipo da marca.

A modelo Luísa Beirão a conjugar um Martine Love curto com umas botas western

De certa forma, Marta Champalimaud sente-se uma continuadora do trabalho desta mulher. “Tudo o que colhemos deve ser em parte retribuído”, afirma, e confessa que desde que está a criar os vestidos e conhece melhor a realidade de quem cria algo de novo que deixou de frequentar as lojas de fast-fashion. “Não é que eu me tenha desapaixonado pelas roupas, mas percebi o absurdo de todo este sistema. Estas marcas têm um poderio financeiro desmedido, usam os recursos das comunidades sem dar nada em troca, alimentam-se das frustrações das pessoas, criam necessidades que não são reais.”

Por outro lado, Marta propõe que nos libertemos um pouco da ditadura das calças, especialmente dos jeans, e experimentemos a liberdade que um vestido proporciona ao corpo, à respiração da pele. E, ao acentuar detalhes tão femininos como a cintura e os ombros, “os Martine Love permitem aliar a liberdade, o pragmatismo e a elegância”, explica a criativa.

Martine Love, o elogio dos clássicos

Usando os bordados de uma perspetiva mais minimalista, os vestidos Martine Love conseguem afastar-se do estilo boho, tão em voga nos últimos anos. Claro que pode usar um Martine Love para ir a um festival de música, mas não vai poder desaparecer na multidão pela simples razão: a beleza (pre)ssente-se e quase sempre está ligada à expressão de uma energia forte. Cada vestido demora três semanas a ser confecionado: é feito à mão por costureiras em Guimarães, depois é riscado (desenhado) e por fim bordado em Viana do Castelo. A coleção é pequena e há modelos feitos integralmente em linho, outros são 100% algodão ou misturando linho e viscose.

A aura colorida e naif dos bordados contrasta com a feminilidade do modelo

Há basicamente quatro modelos em tamanho curto ou midi (abaixo do joelho): o vestido-camisa de cavas, de manga curta ou comprida, o vestido modelo “halter” (recortado nos ombros) e o cafetã. Cada modelo tem várias cores e vários tipos de bordado. Há tamanhos do XS ao L e Marta garante que “ficam bem em todos os tipos de corpo, mas só assentam bem a mulheres que têm autoconfiança para usarem uma peça diferente e que as vai diferenciar”.

Para já, ficam algumas dicas: podem usar-se com qualquer tipo de calçado, do salto alto aos oxfords passando pelas botas de cowboy ou as Dr. Martens. Podem usar-se de verão ou de inverno bastando apenas alguns truques de styling como uma camisola de gola alta ou um cardigan. Cada vestido pode ainda ser transformado: se apertar o cinto atrás pode fazer um colete, se usar um cinto no cafetã pode ter mais um vestido, se optar pelos modelos curtos pode facilmente usá-los como túnica.

Cada vestido custa entre 140 e 400 euros: ” não é para ir para o lixo ou para o fundo do armário, é um “carry on” usa-se sempre, empresta-se, deixa-se como herança é um laço geracional”, garante Marta Champalimaud.

Os vestidos estão à venda na loja The Oitavos, em Cascais, no showroom da marca na Rua da Madalena (Lisboa) ou na loja online aqui. No fim-de-semana de 28 e 29 de Julho estarão à venda no The Spot Market na Comporta.