Santa Cruz del Islote fica ao largo da Colômbia. É uma ilha, mas à primeira vista parece um amontoado de casas a flutuar no meio do oceano. É uma das dez ilhas do arquipélago colombiano de São Bernardo, no Golfo de Morrosquillo, e um dos territórios com maior densidade populacional do planeta. Assenta numa combinação de solo marítimo elevado e coral e tem a dimensão aproximada de dois campos de futebol.

A ilha de Santa Cruz del Islote é uma das muitas áreas ameaçadas pela crescente e constante subida do nível médio das águas do mar. Conta a lenda que a ilha começou a ser populada a partir do dia em que um grupo de pescadores das ilhas circundantes decidiu passar a noite em Santa Cruz: quando acordaram, de manhã, deram conta de que não havia mosquitos e tomaram a decisão de ficar ali a viver permanentemente.

A ilha colombiana não tem hotéis, pensões nem qualquer outro sítio onde turistas possam eventualmente pernoitar. Normalmente, os visitantes ficam no hotel Punta Faro, na ilha vizinha de Múcura, e deslocam-se de barco para explorar Santa Cruz durante algumas horas. À chegada, é-lhes cobrado 3 mil pesos – algo equivalente a um dólar. A medida foi implementada nos últimos anos, quando Santa Cruz começou a ser visitada por turistas que tiravam fotografias aos habitantes locais sem pedir autorização e como se estes fossem peças expostas num museu.

“Era muito desrespeitoso. Agora cobramos e organizamos visitas para os turistas perceberem que não estamos aqui só para ser vistos e poderem aprender algo sobre a nossa cultura”, explica à CNN Juve Nal, um habitante local que é líder da comunidade, guia turístico e porta-voz da ilha.

Os visitantes ficam na ilha vizinha de Múcura e deslocam-se de barco para explorar Santa Cruz durante algumas horas

O dinheiro é utilizado para despesas de conservação e para os encargos diários da ilha: como, por exemplo, comprar água potável, que chega do continente transportada de barco umas vezes por mês. Uma parceria recente com o hotel Punta Faro resultou na instalação de um pequeno aquário de conservação em Santa Cruz. Até há uns anos, os habitantes locais tratavam as tartarugas como tratam uma galinha – matavam-na para comer. Agora, libertam as tartarugas das redes de pesca e cuidam dela até a equipa de conservação do hotel chegar para a recolher. Os turistas podem pagar um valor simbólico para visitar o aquário, que também tem pequenos tubarões e raias.

Em Santa Cruz, não há polícia “nem é preciso”, garante Juve Nal, que afirma que na ilha “não há crime”. O número oficial de habitantes não é confirmado nem consensual: algumas fontes garantem que vivem em Santa Cruz cerca de 1.200 pessoas, outras garantem que o número é inferior. Juve Nal, por sua vez, tem ideia de que não vivem na ilha mais de 900 pessoas. “Ficamos chateados porque a comunicação social diz sempre que é mais lotado do que realmente é”, atira.

Em Santa del Islote não há polícia, hotéis ou pensões

Ainda assim, o colombiano mostra-se preocupado com a falta de espaço em Santa Cruz. As cerca de 115 casas acotovelam-se entre becos estreitos e pequenas praças e os habitantes locais estão agora a construir “para cima” porque já não há espaço para mais nada no solo. “É uma preocupação para o futuro. Estamos a ficar sem terra e não sei qual é a resposta. Não podemos continuar a construir para cima”, diz Juve Nal.

Ainda assim, o guia turístico da ilha garante que os habitantes de Santa Cruz não vivem com receio e não colocam a hipótese de alguma vez de mudarem. “Somos felizes. Em que outra parte do mundo é que não há necessidade de polícia, onde é que é possível uma comunidade ter a sua própria ilha? Acordo todos os dias com o som e a vista do mar. Não quero viver em mais lado nenhum”, garante Juve Nal.