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Mudança da Hora

4 coisas que mudam se o horário de inverno desaparecer

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Crianças a entrar na escola ainda de noite, mais gastos em compras, um decréscimo no número de acidentes rodoviários e um alívio para os informáticos. Aquilo que muda se a hora não mudar.

Getty Images/iStockphoto

[Este artigo foi originalmente publicado a 31 de agosto de 2018, quando o fim da mudança da hora ainda estava a ser debatido. É republicado esta terça-feira, 26 de março de 2019, depois de o Parlamento Europeu ter aprovado o fuso horário único na UE a partir de 2021.]

De acordo com uma sondagem sobre a mudança horária feita aos europeus, mais de 80% dos inquiridos disseram de sua justiça e pediram que a hora não mudasse. Os resultados esmagadores levaram a Comissão Europeia a anunciar, pela voz do Jean-Claude Juncker ao canal de televisão alemão ZDF, que vai propor formalmente o fim da mudança de hora na União Europeia. Mas o que significa isso para o quotidiano das pessoas? Pelo menos quatro coisas: as crianças passam a entrar na escola ainda de noite, o número de acidentes pode diminuir, os gastos em luz baixam para aumentarem em compras e os problemas informáticos podem amenizar.

Se passarmos a viver sempre segundo o horário de verão, o sol passa a nascer por volta das nove da manhã durante os dias mais curtos do ano (em dezembro e janeiro) e a pôr-se depois das seis da tarde. Já nos meses de verão, o sol passaria a aparecer no horizonte um pouco depois das cinco da manhã, mas a desaparecer por volta das oito da noite. É uma diferença grande do que tem acontecido desde há muitas décadas em Portugal: até agora, o horário de inverno fazia com que o sol nascesse por volta das oito da manhã o mais tardar e desaparecesse no horizonte pouco depois das cinco da tarde nos dias mais curtos do ano.

Numa entrevista à agência Lusa, o médico especialista do sono Joaquim Moita avisou que um horário como este “não será benéfico” porque “o desempenho cognitivo e físico podem ficar comprometidos”: “As crianças e os adolescentes já deviam ir bem acordados para a escola e, para acordar bem, o cérebro precisa de exposição ao sol, à luz solar”. É assim com os mais novos, mas também com os adultos: “Os mesmos problemas também se podem aplicar ao mundo do trabalho. É muito preocupante para as faixas etárias mais jovens, mas também para quem já trabalha”.

Mas há indicações de que, com o fim das mudanças de hora, a saúde da população em geral também pode melhorar. Um estudo publicado há dois anos sugere que há um aumento de 8% no número de ataques cardíacos nos dois dias seguintes à mudança de horário para verão e para inverno. E os mais frágeis são os mais prejudicados: esse relatório indica que os doentes de cancro têm uma probabilidade 25% maior de sofrer um enfarte nesse período e que também há uma probabilidade 20% maior de ataque cardíaco entre os idosos.

Além disso, muita gente se queixa de ter dificuldade em adormecer ou em acordar nos primeiros tempos a seguir à mudança de hora, principalmente quando chegam os dias úteis e com eles os horários a cumprir. Christopher Barnes, um investigador da Universidade de Washington, estimou que a maior parte das pessoas tendem a dormir menos 40 minutos do que é normal na segunda-feira seguinte à mudança de horário. Vários estudos, incluindo um do Centro de Investigação de Distúrbios do Sono, relacionam a falta de descanso com um aumento de acidentes rodoviários e de acidentes de trabalho.

Um dos motivos pelos quais a Comissão Europeia propôs o fim das mudanças de horário é a falta de evidências suficientemente fortes de que isso contribui para poupar dinheiro em energia. Na verdade, há estudos cada vez mais consistentes a sugerir que o consumo de energia até aumenta com as mudanças de hora, por isso é possível que passemos a gastar menos em luz. O Departamento da Energia dos Estados Unidos disse que mudar a hora contribui para uma diminuição de 0,03% no consumo anual de energia, mas outros estudos dizem que o que não se gasta em eletricidade para luz passa-se a gastar em ar condicionado.

Por outro lado, podemos passar a gastar mais em compras. Quem explica essa possibilidade é Michael Downing, autor do livro Spring Forward: The Annual Madness of Daylight Saving Time: numa entrevista à NPR, uma rádio nacional norte-americana disse que “o horário de verão aumenta o consumo de gasolina, algo que a indústria do petróleo sabe desde 1930”. E completa: “As pessoas saem e gastam dinheiro. Esta tem sido uma política de gastos longa e tremendamente eficaz. As lojas de centro comercial adoram o horário de verão”.

Se deixar de haver dias de mudanças de horário, é possível que muitos problemas informáticos verificados nesses dias deixem de acontecer. Por exemplo, em 2007, quando foi posta em prática uma emenda nos Estados Unidos que alterava as datas de início e fim do horário de verão, este último passou a ser um pouco maior. Essas alterações provocaram problemas nos computadores, obrigando a atualizações de última hora que acabaram por prejudicar os calendários digitais e a receção/envio de emails.

Alguns sistemas resolveram o problema ao padronizar todos os relógios de todos os computadores e serviços para o Tempo Universal Coordenado (UTC). Ainda assim, há outros problemas que não se resolvem apenas com isso: as Associações de Transportes Aéreos dizem que as mudanças de horas podem custar milhões de euros às transportadoras aéreas por causa dos atrasos nos voos e da falta de sincronização horária entre continentes nos primeiros dias após o atraso ou adiantamento dos ponteiros. O fim dessas mudanças de horário podiam terminar com esse caos.

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