Há três entidades que avançaram com ações judiciais contra a Chic by Choice no último ano. Os processos deram entrada nos tribunais das comarcas de Santarém e de Leiria em outubro de 2017, fevereiro de 2018 e setembro de 2018 e reclamam um total de 72.784 euros em dívidas, segundo o relatório de avaliação de risco da empresa a que o Observador teve acesso. A ação executiva mais recente é a do Millennium BCP, que reclama uma dívida de 39.994 euros. A seguinte é a da UPS of Transports, que reclama 14.362 euros e a última é a da Risa Consulting, que reclama 18.426 euros.

A Chic by Choice é uma startup de aluguer de vestidos de luxo fundada por Filipa Neto e Lara Vidreiro em 2014, que captou cerca de 2 milhões de euros em investimento nos últimos quatro anos. Em janeiro de 2018, as empreendedoras foram distinguidas no ranking 30 Under 30, da Forbes, como duas das jovens sub-30 “mais brilhantes” da Europa, na área do comércio eletrónico. Mas uma investigação do Observador concluiu que o negócio de aluguer de vestidos, afinal, não existia: o site só permitia comprá-los, o apoio ao cliente não funcionava, o showroom da marca também não existia e as empreendedoras encontravam-se, à data da distinção, a trabalhar noutras empresas.

Chic by Choice, o negócio fantasma das portuguesas que foram distinguidas pela Forbes

As empreendedoras, que nunca responderam às tentativas de contacto do Observador, acabaram por afirmar num direito de resposta que tinham mudado o modelo de negócio da empresa (de aluguer para compra). Isto, já depois de a sociedade de capital de risco pública Portugal Ventures, que detém 18,7% do capital social da startup, ter avançado que o negócio da Chic by Choice não era sustentável e que estava a tentar vender a empresa. Meses depois, a nova diretora da Portugal Ventures, Rita Marques, dizia, em entrevista ao jornal Eco, que a empresa ia entrar em processo de liquidação.

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“Estamos a resolver o caso da Chic by Choice como o de outras empresas que estão a passar ou que passaram pelo mesmo. O assunto está a ser tratado fiscalmente, financeiramente e juridicamente, para encerrar a empresa. É esse o desfecho, que para nós é normal, por isso é que é capital de risco”, disse Rita Marques, que lidera a gestora de capital de risco do Estado desde maio de 2018.

Portugal Ventures diz que Chic by Choice não é sustentável e que está a tentar vender a empresa

No relatório de avaliação de risco a que o Observador teve acesso, as três ações judiciais ainda estão em aberto, duas são ações executivas ordinárias e uma é sumária, a da transportadora. Neste caso, segundo explicou Catarina Limpo Serra, associada sénior e advogada da CCA ONTIER, quer isto dizer que já houve uma sentença referente à ação da UPS e que a dívida de 14.362 euros não foi paga voluntariamente, obrigando a empresa a instaurar outra ação para forçar o pagamento.

A advogada explica que os credores recorrem à Justiça para que possam executar o património do devedor, ou seja, para avançar com a penhora dos bens que estejam em nome da empresa ou das empreendedoras, caso estas tenham dado garantias pessoais no momento em que efetuaram os contratos. Depois desta ação seguir para tribunal, é nomeado um agente de execução, que poderá depois penhorar os bens e vendê-los no âmbito do processo judicial. O devedor pode contestar estas ações dentro dos prazos legais.

No relatório de avaliação de risco a que o Observador teve acesso, a empresa apresenta um risco comercial “elevado”e um risco de insolvência maior do que aquele que têm 89% das empresas portuguesas. Com uma situação financeira “desfavorável”, capital próprio negativo, tem um grau de solvabilidade “muito baixo” e uma capacidade de gerar recursos líquidos a partir da utilização dos ativos que é “reduzida”.  Não foi requerida nenhuma declaração de insolvência, mas os credores poderão avançar com esta opção caso não haja património que cubra as dívidas e a insolvência seja devidamente justificada.

O site continua ativo e no “Sobre Nós” continua a ler-se que a Chic by Choice “é uma plataforma de aluguer premium, que disponibiliza vestidos de luxo inigualáveis, com 85% de desconto sobre o preço de venda. Acreditamos numa experiência de estilo globalmente acessível: envio para mais de 15 mercados europeus, incluindo os principais centros de moda de Portugal, Reino Unido, França, Itália e Alemanha, e uma seleção de mais de 40 designers”.