Azeredo Lopes

Azeredo Lopes defende em Bruxelas necessidade de “refundar” a NATO

Segundo o ministro da Defesa, nos últimos anos a NATO já tem "dado saltos qualitativos, também por influência das posições portuguesas" ao nível de "ameaças não estaduais". como a ciberdefesa.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

O ministro da Defesa, José Alberto Azeredo Lopes, defendeu esta quinta-feira num debate em Bruxelas a necessidade de “refundar” a NATO, considerando que a Aliança Atlântica tem cumprido notavelmente o seu papel, mas precisa de se adaptar à nova realidade.

Convidado para participar num debate promovido pelo “think tank” (grupo de reflexão) Friends of Europe sobre os novos desafios em matéria de Defesa e, designadamente, num painel sobre “um novo começo para uma velha aliança”, Azeredo Lopes foi apresentado pelo moderador como alguém “conhecido por defender um novo conceito estratégico para a NATO”.

Sobre esta apresentação, Azeredo Lopes observou, bem-disposto, ter defendido publicamente apenas por uma vez, na Estónia, sem antever o seu impacto – que considera chegada porventura a altura de, sem longos processos burocráticos, a organização se dotar de um novo documento orientador, que trace designadamente quais as novas ameaças globais, que deixaram de ser meramente estaduais.

Há quem entenda que um novo conceito estratégico tem que ser daqueles documentos pesadíssimos, discutidos durante anos até chegarmos a uma conclusão. Eu defendo um documento que refunde a NATO. A NATO está perante desafios que põem em causa a sua natureza interestadual. Ou seja, é uma estrutura notável, que nos protegeu, que nos defendeu durante quase 70 anos, mas é uma estrutura de uma composição ainda puramente tradicional, composta por Estados e a pensar também em ameaças mais tradicionais”, apontou, em declarações à Lusa à saída do debate.

Segundo Azeredo Lopes, nos últimos anos a organização já tem “dado saltos qualitativos, também por influência das posições portuguesas”, designadamente ao nível de “ameaças não estaduais”, como a questão da ciberdefesa e ameaças dessa natureza, que passaram a ser consideradas um novo domínio operacional.

No entanto, o ministro considera que é possível ir mais além, e, paralelamente ao trabalho que está a ser feito — saudando a propósito os resultados da cimeira da organização celebrada em julho passado em Bruxelas, “que muitos anteviam que fosse dramática”, mas que considerou positiva -, a organização poderia refundar os seus valores, num mundo em constante mutação.

É verdade que eu entendo que porventura era altura de, num documento breve, refundarmos os valores que nos unem e, sobretudo, definirmos com mais clareza quais são as ameaças que consideramos mais fundamentais, não propriamente para estudar medidas de reação, mas para saber com é que a organização deve ser pensada para estar preparada para as enfrentar. Eu posso perceber as reações de alguns que não querem agora abrir uma nova questão sobre um novo conceito estratégico, e eu próprio queria esclarecer que não estava a falar de nenhum processo burocrático. Estava a falar, isso sim, de uma abordagem consensual a propósito daquilo que nos une, que é infinitamente mais do que aquilo que pode eventualmente afastar-nos”, disse.

Reiterando por diversas ocasiões — tal como o fez durante o debate — o inequívoco apoio de Portugal à organização, da qual é membro fundador, o ministro da Defesa disse que tal não invalida que o país identifique questões para as quais considere que a NATO se deve preparar melhor, como as ameaças transnacionais e aquelas oriundas do chamado “flanco sul”, contrariando a quase obsessão que disse ter observado com o “flanco leste”.

“Nós somos membros fundadores, estamos na NATO há praticamente 70 anos, e estamos muito contentes com aquilo que tem sido um papel de promoção da paz, de capacidade para enfrentar desafios que a organização tem desempenhado. Isto não quer dizer que não defendamos por vezes coisas que vão para além do ‘mainstream’ ou que achemos que devem ser também integrados na estratégia da NATO”, disse. Uma delas, “indiscutivelmente”, disse, é a necessidade de olhar não só para leste e para a natureza antagónica da Rússia, mas “também para as ameaças do flanco sul”, uma ideia na qual Portugal tem insistido nos últimos anos.

“Portugal considera que estas questões de ameaças transnacionais não estaduais vão ser uma constante desta vida presente e daquilo que é possível antever para o futuro, e se assim é, então a NATO, pela sua modernidade, tem que saber enfrentar estes problemas”, concluiu.

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